Vários treinadores portugueses, em conversas informais que vão tendo, admitem que uma das piores coisas que pode acontecer quando se orienta uma equipa grande é somar um resultado negativo antes da paragem para os compromissos das seleções. E a lógica é simples de perceber: havendo uma vitória, os 15 dias seguintes são passados a falar sobre o próximo ciclo, sobre as razões para o último triunfo, sobre os aspetos que podem ser melhorados; em caso de derrota, o principal enfoque é perceber tudo o que correu mal, dissecar eventuais problemas no balneário, anunciar as mexidas que estão a ser preparadas. No caso do Real Madrid, esta era a realidade mas multiplicada por quatro – a paragem chegou depois das derrotas frente a Sevilha (3-0), CSKA Moscovo (1-0) e Alavés (1-0) que tiveram um insípido nulo em casa no dérbi com o Atlético pelo meio.

Falou-se um pouco de tudo: dos problemas físicos, das azias no balneário, do fantasma chamado Ronaldo que Florentino Pérez quer apagar à força, das carências ofensivas do jogo coletivo. E para apimentar ainda mais o ultimato do presidente do Real a Julen Lopetegui (ainda antes do desaire com o Alavés), surgiram notícias de Itália que davam conta de um eventual contacto da estrutura merengue com o italiano Antonio Conte, antigo técnico do Chelsea. Quase duas semanas depois e num contexto que tinha tudo menos desfavorável, o atual treinador apresentou-se perante a imprensa “absolutamente tranquilo”.

“Temos de trabalhar e melhorar o que fizemos mal. Há interrogações em todas as equipas, ninguém sabe o que se pode passar no resto da temporada e temos de ir à procura disso. As soluções para cada jogo estão no plantel que trabalha comigo, que estou convencido que é um grande plantel. Acreditamos que vamos chegar fortes no final, estou seguro que faremos uma grande temporada. Só olhamos para dentro. Se estou bem? Sim, sem dúvida. Sou treinador do Real Madrid, a exigência é muito alta e temos de viver também estes picos durante a época. A única receita é trabalhar, insistir e acreditar”, salientou, numa conferência onde parecia que o Real Madrid vinha de quatro vitórias e não de três derrotas e o empate.

Depois, chegou o jogo. E o choque com a realidade. Se a palavra “crise” andou sempre de mão dada com a realidade dos campeões europeus nas últimas duas semanas, ao intervalo saltavam outras como “bronca” ou “escândalo” com o 2-0 a favor do Levante com que se chegou ao final dos 45 minutos iniciais que tiveram um peso decisivo (e correto) do VAR.

Logo aos seis minutos, em mais um lance que mostrou de novo o mau momento que os centrais do Real atravessam, Morales surgiu nas costas de Varane, fintou isolado Courtois e encostou para o 1-0; aos 11′, foi pior ainda: o central francês cortou a bola com a mão à entrada da área, o livre direto assinalado acabou por transformar-se numa grande penalidade com auxílio do VAR (a infração terá sido já em cima da linha) e Roger apontou o 2-0 que deixou o Santiago Bernabéu à beira de um ataque de nervos. Pouco depois, Asensio ainda colocou a bola na baliza dos visitantes mas o golo foi anulado de novo com o auxílio do vídeo-árbitro, que confirmou o adiantamento do avançado espanhol na recarga após remate de Casemiro. Oier abriu o livro com uma série de intervenções a evitar o 2-1 a Lucas Vázquez, Marcelo e Mariano mas seria ainda o Levante a chegar ao 3-0, anulado devido a um ligeiro adiantamento de Toño. Dos assobios aos lenços brancos, havia um pouco de tudo.

Lopetegui ouviu a contestação dos adeptos ao intervalo, quando o Real perdia em casa por 2-0 com o Levante (Denis Doyle/Getty Images)

Ao intervalo, Lopetegui arriscou com a entrada de Gareth Bale para o lugar do lateral Odriozola (Lucas Vázquez recuou na ala direita), acrescentando ainda Benzema e Ceballo nas posições de Asensio e Isco para o ataque final à baliza contrária. E voltaram a multiplicar-se os lances de perigo junto da baliza de Oier, sem que o Real Madrid conseguisse quebrar um registo histórico negativo: aos 55′, a equipa somou um total de sete horas e 45 minutos sem conseguir marcar sequer um golo, superando a antiga pior marca que datava da longínqua época de 1984/85. Houve VAR, houve guarda-redes, houve postes e houve até algum azar à mistura, se a ideia se pudesse algum dia aplicar ao futebol. Mas houve muito mais do que isso.

Marcelo, com uma bomba de pé direito na área aos 72′, fez o 2-1, quebrou essa série de quase oito horas de pólvora seca e ainda deu esperanças ao Real Madrid dentro e fora do campo antes de mais uma bola no poste por Benzema (76′). O Levante acabou por completo em termos ofensivos, o jogo resumiu-se ao meio-campo dos visitantes, Mariano ainda colocou a bola na baliza para o 2-2 mas o golo voltou a ser bem anulado e confirmou-se mesmo a derrota, que coloca Julen Lopetegui na corda bamba. Tudo porque, daquilo que se percebe, se a aposta no antigo selecionador espanhol foi um risco grande, mantê-lo no cargo pode ser um risco ainda maior. Resta saber se Florentino Pérez, perante uma realidade com quatro derrotas e um empate nos últimos cinco jogos em vésperas da deslocação a Camp Nou para defrontar o Barcelona, aceita manter esse mesmo risco.

Para a Marca, a saída de Julen Lopetegui está sentenciada – mesmo não sendo hoje ou amanhã, Florentino Pérez irá escolher o melhor momento para prescindir do treinador. Já o As agarra numa resposta de Emilio Butrageño, antiga glória do clube e do futebol espanhol que é hoje diretor das Relações Externas, para dizer o mesmo – questionado sobre a confiança que os merengues têm no técnico, Buitre fugiu à pergunta e disse apenas que “todos estão abatidos e tristes”, apelando à calma e tranquilidade. Do lado do antigo selecionador da Roja, o futuro é nesta altura a menor das suas preocupações.