Os “coletes amarelos” estiveram este sábado na rua, por toda a França — pelo quinto sábado consecutivo — para exigir melhores condições de vida, apesar de medidas já anunciadas pelo presidente Emmanuel Macron, como o aumento do salário mínimo. Apesar de os protestos não terem a dimensão e a violência das manifestações anteriores, o dia ficou marcado por alguma tensão e confrontos em Paris — obrigando a polícia a intervir com gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes — mas também em outras cidades francesas.

O número de “coletes amarelos” que saíram às ruas foi inferior aos que marcaram presença nos protestos anteriores. O último balanço do Ministério do Interior para este sábado apontou para cerca de 2200 manifestantes nas ruas de Paris e 66 mil manifestantes em todo o país (no sábado passado, o número apontava para 125 mil manifestantes). Os protestantes, no entanto, disseram ter uma explicação:

Somos exatamente os mesmos, simplesmente há menos pessoas nos Campos Elísios porque temos previstos protestos na Ópera, com um protesto sentado à frente do edifício, e na Praça da República”, disse Muriel, “colete amarelo” vinda dos arredores de Paris, em declarações à agência Lusa, nos Campos Elísios.

Apesar de terem existido alguns confrontos e até a utilização de gás lacrimogéneo, o ambiente ficou, entrentanto, mais calmo e as forças de segurança — que vieram em massa — conseguiram manter a ordem. Em frente à Ópera Garnier, os manifestantes optaram por um protesto estático, sentando-se nas escadas do edifício ou mesmo deitando-se na escadaria. Ao contrário do sábado passado, grandes armazéns como as Galerias Lafayette e o Printemps, nas imediações da Ópera, decidiram estar abertos.

O número de detenções também é inferior ao do sábado anterior. Segundo o Le Monde, foram detidas, pelos, 142 pessoas, até ao momento em toda a França. Só 115 detenções ocorreram em Paris, onde também foram identificadas 168 pessoas.

  • Em Bordeús, foram contabilizados 4500 “coletes amarelos” e realizadas 27 detenções. Têm existido confrontos esporádicos entre a polícia e os manifestantes, mas não em proporção à violência que ocorreu durante as mobilizações anteriores.
  • Em Toulouse, cerca de 4500 “coletes amarelos” manifestaram-se e 30 foram identificados, não havendo detenções. Ocorreram confrontos entre os manifestantes e a polícia. Dez pessoas ficaram levemente feridas: sete manifestantes e três polícias.
  • Em Nantes, cerca de 1200 pessoas também se manifestaram e, até às 18h30, tenham sido identificadas 17 pessoas, não havendo detenções. A manifestação ficou marcada por alguns momentos de tensão que levaram a polícia a intervir com gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes.
  • Em Lyon, segundo o Le Monde, vários “coletes amarelos” reuniram-se por volta do meio dia em frente ao tribunal. “Macron demissão!”, gritavam. Cerca de mil pessoas participaram nos protestos. Houve nove identificações e seis polícias feridos.
  • Em Marselha, 2 mil “coletes amarelos” manifestaram-se e 16 identificações foram feitas. As manifestações provocaram ferimentos num polícia.

Ignorando o apelo feito na sexta-feira por Macron, segundo quem o país “precisa de calma, de ordem, de retomar o funcionamento normal” e “o diálogo não se faz com a ocupação do espaço público e com a violência”, os “coletes amarelos”, mobilizados há um mês contra a política governamental para exigir mais justiça social, convocaram para novas concentrações em Paris e outras cidades francesas. E isso, apesar dos anúncios feitos na segunda-feira pelo chefe de Estado, entre os quais se incluem um aumento de 100 euros do salário mínimo e a isenção de impostos para as reformas baixas.

No entanto, e após quatro sábados de mobilização, três dos quais marcados por graves distúrbios e violência, que deixaram o Governo em dificuldades, alguns defendem agora um apaziguamento. O coletivo dos “coletes amarelos livres”, considerado mais moderado que o “canal histórico”, apela para “uma trégua”, defendendo que “chegou a altura de dialogar”.

Este sábado, a prefeitura do norte anunciou uma sétima morte no âmbito dos protestos e bloqueios de ruas dos “coletes amarelos”. Segundo a agência France-Presse, que citou a prefeitura do norte, trata-se de um condutor que embateu num camião durante a noite desta sexta-feira, perto da fronteira belga entre Jeumont e Erquelinnes. Esse camião estava parado na autoestrada, junto à “barreira” construida pelos “coletes amarelos”.  “No entanto, o camião tinha os piscas ligados, é uma precaução que temos sempre em conta”, disse um dos “coletes amarelos” mobilizados.

Segundo a Amnistia Internacional, desde o dia 17 de novembro 1.407 pessoas foram feridas durante os protestos, 46 das quais com gravidade, e 717 foram agentes da polícia, da guarda e bombeiros. A organização de defesa dos direitos humanos denunciou o uso excessivo de força pela polícia, que disparou balas de borracha e lançou granadas de fumo e gás lacrimogéneo sobre manifestantes “que não estavam a ameaçar a ordem pública” e condenou também a violência de que muitos jornalistas relataram ter sido vítimas, em “ataques deliberados”.

Após o atentado terrorista ocorrido na terça-feira à noite em Estrasburgo, que fez quatro mortos e 12 feridos, houve diversos apelos para que a contestação social fosse suspensa enquanto decorria a caça ao homem que abriu fogo sobre a multidão no mercado de Natal daquela cidade e depois conseguiu fugir, após uma troca de tiros com um militar. Mas, como o autor do ataque, Chérif Chekatt, de 29 anos, foi abatido na quinta-feira pela polícia, esse argumento para a suspensão dos protestos deixou de se aplicar.

Assim, em Paris, para enfrentar o risco de violência, o presidente da Câmara anunciou um forte dispositivo de segurança: 8.000 agentes policiais e 14 veículos blindados estão destacados na capital. Além disso, haverá revistas nas estradas, estações ferroviárias e transportes públicos com destino a Paris, e os acessos a instituições como o Palácio do Eliseu, o Hôtel Matignon (residência oficial do primeiro-ministro), a Assembleia Nacional e o Ministério do Interior serão protegidos.

Marianne, símbolo da República Francesa, também saiu à rua

Durante a manhã de sábado, entre “coletes amarelos”, protestantes e simples curiosos, houve uma cor e cinco mulheres que chamaram à atenção. O grupo enfrentou, em silêncio, a polícia francesa nos Campos Elísios, em Paris. Chegaram, aproximaram-se e não disseram uma única palavra.

Inicialmente, chegou a pensar-se que estas mulheres fariam parte do grupo feminista Femen, que costumam aparecer neste tipo de eventos. No entanto, e segundo o jornal L’Obs, as cinco mulheres com casaco vermelho e seminuas faziam parte de uma representação pensada pela artista Deborah de Robertis, com o objetivo de marcar de forma simbólica o acontecimento. A indumentária foi inspirada em Marianne, símbolo da República Francesa.

As cinco mulheres com casaco vermelho e seminuas faziam parte de uma representação pensada pela artista Deborah de Robertis, com o objetivo de marcar de forma simbólica o acontecimento

Manifestação em Portugal vai ter 20 mil agentes de serviço

Em Portugal, o movimento “coletes amarelos” tem agendada uma manifestação para o dia 21 de dezembro. A PSP vai estar em prevenção nesse dia, antecipando “manifestações de grande dimensão em todo o país”, tendo por isso suspendido as folgas marcadas pelos efetivos, de acordo com a TSF. Ao todo, estima o dirigente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP/PSP), Paulo Rodrigues, serão mobilizados cerca de 20 mil polícias.

“Olhando para o despacho feito pela direção nacional da polícia, leva-me a crer que mais de 90% dos polícias estarão ao serviço. Só estão excecionados casos especiais ou que estejam de férias. Todos os outros cerca de 20 mil polícias vão estar de serviço. O despacho é claro nesse sentido: não há direito a folgas nem a créditos horários”, explicou em declarações à TSF, acrescentando que “há uma grande preocupação” relativamente aos protestos agendados.

PSP suspende folgas para reforçar prevenção no dia de manifestação em Lisboa dos “coletes amarelos”

“Vamos ter manifestações de grande dimensão em todo o país e mandam as regras do bom senso ter pessoal operacional”, disse à Lusa o porta-voz da Direção Nacional da PSP, intendente Alexandre Coimbra, adiantando que a preocupação neste momento se prende com a dimensão do evento e não com qualquer informação de possível confrontos, mas que é importante a prevenção. Alexandre Coimbra referiu ainda que as folgas e créditos horários suspensos serão repostos.