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Funcionários da CoolFarm responsabilizam investidor pela falência da “Startup do Ano”

Funcionários afirmam que a "única causa do descalabro da CoolFarm e do seu projeto é a gestão ruinosa do investidor e administrador único". Rui Leitão lembra que teve um prejuízo de 1,5 milhões.

A CoolFarm foi fundada em 2014 por Eduardo Esteves, João Igor, Liliana Marques e Gonçalo Cabrita

Rui Velindro

Os colaboradores da CoolFarm responsabilizam o investidor e administrador único da empresa, Rui Leitão, pela insolvência da startup de agricultura tecnológica. Num comunicado enviado ao Observador, os cofundadores Gonçalo Cabrita (que era presidente executivo) e Eduardo Esteves, juntamente com outros seis funcionários, alegam que a “única causa do descalabro da CoolFarm e do seu projeto é a gestão ruinosa do investidor e administrador único” e que a estratégia da empresa foi a “definida” por ele, visto que tinha poderes de “administração de todos os negócios e interesses da sociedade”.

O investidor foi o impulsionador do in/store dentro da CoolFarm (…) e sempre assumiu abertamente que não acreditava no software enquanto produto comerciável só por si, tendo-o afirmado à frente de diversos clientes. O investidor alega que acredita que a empresa teria sido mais viável se tivesse ficado pela ideia inicial do software, ideia dos promotores. No entanto, foi o próprio que empurrou a empresa na direção do in/store, bem como na da parceria com a outra empresa da qual também é sócio, a MTEX Solutions”, afirmam.

As declarações surgem em reação à investigação do Observador “CoolFarm. De Startup do Ano à falência com perto de 1 milhão de euros em dívidas“, publicada a 30 de novembro de 2018, na qual Rui Leitão — que através da Farben Consulting financiou a empresa em cerca de 1,5 milhões de euros e detinha 98% do seu capital social — afirmava que a equipa lhe tinha apresentado “um software para produção de plantas em estufa em hidroponia como estando semi-acabado na altura e duraria um ano e pouco [a ser comercializado]. Não estava acabado e o projeto sofreu vários atrasos, mas a Farben continuou a investir porque acreditou que o projeto chegaria a bom porto”.

Os funcionários contestam as declarações e afirmam que o contrato de investimento assinado com o investidor “continha um cronograma claro, que contemplava o desenvolvimento integral do software e as diversas fases do investimento podendo, por conseguinte, a Farben Consulting sustar o investimento sempre que verificasse qualquer incumprimento ou atraso. Apesar disto, o investidor foi introduzindo novos projetos”, dizem.

Ao Observador, Rui Leitão diz que não quer “alimentar polémicas” sobre o encerramento da empresa, acrescentando que “todas as informações relativas à atividade da CoolFarm foram devida e atempadamente prestadas em sede própria”.

Acreditei no projeto apresentado pelos fundadores, nos números e metas que estes definiram, e assumi o risco de investir. Investi (muito) mais do que o inicialmente acordado e, ainda assim, a CoolFarm não se tornou economicamente viável. Lamento que os fundadores não tenham tido a capacidade de cumprir o plano de negócios que me foi apresentado, o que representou para mim, investidor, um prejuízo de mais de 1,5 milhões de euros”, disse em resposta ao Observador.

A CoolFarm foi fundada em 2014 por Eduardo Esteves, João Igor, Gonçalo Cabrita e Liliana Marques. A ideia era desenvolver uma app que conseguisse controlar plantas à distância, através de um toque no telemóvel, mas transformou-se num software para controlar estufas sem ser precisa a intervenção do utilizador. Este software ainda deu origem a outro produto, o in/store, uma solução chave na mão para produção agrícola em estrutura vertical. Nem um nem outro tiveram sucesso. Em 2017, a startup de Coimbra foi considerada “Startup do Ano” no evento Ativar Portugal, da Microsoft Portugal, mas fechou em 2018 falida e a dever 972.759,41 euros a 32 credores.

Na documentação entregue ao Tribunal da Comarca de Santarém, no decorrer do processo de insolvência, o administrador escrevia que a “primeira e única venda in/store, ao cliente Data Solta”, da qual resultou um prejuízo de mais de 60 mil euros, tinha sido “um fiasco”, que tinha ficado “claro que os custos estimados para a produção das máquinas não eram de todo realistas” e que “para dar resposta às necessidades que um produto como o in/store exigia a nível de recursos humanos” teve de recorrer ao outsourcing. “O resultado foi um processo muito mais demorado e complexo do que o esperado, com custos incomportáveis, tendo em conta a estratégia de preços”.

Sobre esta decisão, os funcionários e promotores da CoolFarm alegam que quem “liderou as negociações” com a empresa Data Solta foi Rui Leitão e que a produção das máquinas ficou a cargo da MTEX, empresa da qual o investidor também era sócio. “Só perto do processo de insolvência é que o investidor permitiu que fossem pedidos orçamentos a uma outra empresa, em alternativa à sua comparticipada MTEX Solutions”, escrevem no comunicado. Os funcionários também alegam que a gestão da equipa de vendas da CoolFarm também estava a cargo de Rui Leitão “por sua própria iniciativa”.

Ao Observador, Rui Leitão também tinha contado que contratou uma empresa externa para visitar o laboratório, “porque começou a ver que havia ali qualquer coisa” e que foi aí que percebeu que o in/store não conseguia produzir a quantidade de plantas que lhe tinha sido apresentada pela equipa. Mas os funcionários negam:

O que sucedeu foi que houve outra empresa, do ramo da agricultura vertical que, em abril de 2018, se interessou pela compra da CoolFarm. Foi neste âmbito que teve acesso aos laboratórios, ao projeto in/store, ao software, às contas e aos projetos Portugal 2020. A empresa atuou apenas como possível comprador, não tendo sido contratada pelo investidor da CoolFarm para a realização de qualquer auditoria. Esta empresa acabou por decidir não comprar a CoolFarm, ao que se supõe por se ter apercebido de potenciais irregularidades na instrução dos projetos Portugal 2020″, lê-se no comunicado.

O Observador tem tentado contactar a empresa que tentou comprar a CoolFarm, mas sem sucesso. De recordar que o desfecho da startup se deveu à “inesperada redução” do incentivo europeu que a empresa “tinha a legítima expectativa de receber”: em vez dos 402 mil euros que esperava, recebeu 18.923,40 euros. Ao Observador, o IAPMEI explicou que a redução do incentivo estava relacionada com a ausência de esclarecimentos sobre algumas das despesas que foram apresentadas pela CoolFarm para suportar o valor total do projeto.

“A empresa apresentou o pedido de saldo final com uma execução reportada de 100%, sendo que a aceitação de parte das despesas apresentadas está dependente de esclarecimentos a prestar pela empresa”, respondeu fonte oficial. A 30 de outubro de 2018, o Tribunal Judicial da Comarca de Santarém declarou a CoolFarm insolvente e nomeou-lhe um administrador de insolvência para fazer face ao milhão de euros que acumulou em dívidas.

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