Se em Portugal se joga esta quarta-feira o segundo dérbi em quatro dias e se sabe que, até ao final da temporada, Sporting e Benfica ainda se vão encontrar mais uma vez, para a segunda mão da meia-final da Taça de Portugal, a verdade é que o futebol espanhol vive dias semelhantes. Em 25 dias, Barcelona e Real Madrid jogam três vezes: esta quarta-feira, também para a primeira mão da meia-final da Taça do Rei, a 27 de fevereiro, para a segunda mão da eliminatória, e ainda a 2 de março, para a Liga espanhola.

Tal como tinha acontecido no El Clásico do final de outubro — que terminou com uma goleada do Barcelona por 5-1 em Camp Nou e um hat-trick de Luis Suárez –, Lionel Messi voltava a não estar disponível para enfrentar o Real Madrid. O argentino lesionou-se no último jogo contra o Valência, onde até marcou os dois golos dos catalães que evitaram a derrota e garantiram o empate, e apesar de um dos adjuntos de Ernesto Valverde ter assegurado que está “a 100%, em condições de jogar”, a verdade é que Messi começou o jogo no banco. Como, aliás, Arturo Vidal, Sergi Roberto e ainda Carles Aleñà, todos titulares contra o Valência e todos suplentes no encontro desta quarta-feira: Busquets regressou de castigo, Arthur entrou para o onze no meio-campo e Malcom, reforço de verão contratado ao Bordéus que até esteve na lista de saídas na janela de transferências que terminou na semana passada, assumia a posição de Messi no ataque, completando o trio que tem ainda Suárez e Philippe Coutinho. Lá atrás,o português Nélson Semedo era titular na direita da defesa.

Do outro lado, e depois de uma vitória inequívoca no passado fim de semana contra o Alavés por 3-0, Santiago Solari geria Gareth Bale (que acabou de regressar de lesão) e lançava Lucas Vázquez no onze inicial, num 4x3x3 que tinha ainda Vinícius Júnior e Karim Benzema no tridente ofensivo. No meio-campo, Kroos e Marcos Llorente regressavam à titularidade, em detrimento de Casemiro e Dani Ceballos, Modric mantinha o lugar mais descaído na direita do setor intermédio e Varane surgia novamente ao lado de Sergio Ramos, com Marcelo na esquerda da defesa e Dani Carvajal na direita. Isco, por sua vez, voltava a começar no banco.

E se, em Portugal, o Sporting procurava recuperar a honra depois da goleada que o Benfica impôs em Alvalade no passado domingo, em Espanha algo semelhante se passava com o Real Madrid. Tal como os leões, também os merengues estão mais afastados da liderança do que aquilo que seria normal — estão em terceiro, a oito pontos do Barcelona e ainda com o Atl. Madrid pelo meio — e também os merengues sofreram uma goleada pesada no Clásico para o Campeonato. Esta quarta-feira, em Camp Nou, o Real Madrid procurava ganhar uma vantagem valiosa para a segunda mão no Santiago Bernabéu, mas também desforrar os cinco golos sofridos no final de outubro. Lopetegui, que foi despedido no dia que se seguiu ao jogo em Barcelona, já não está à frente dos blancos e cabia agora a Solari vencer aquele que é sempre um dos jogos mais importantes da temporada para o Real Madrid.

Os primeiros minutos de jogo mostraram rapidamente a forma como os merengues iriam conduzir o fluxo ofensivo: com uma pressão muito alta e uma atenção redobrada à recuperação de bola, o Real Madrid começava por construir a partir da esquerda, com Kroos e Vinícius, para depois desequilibrar a equipa para o corredor contrário e procurar Modric e Lucas Vázquez. O primeiro golo, aos seis minutos, foi a representação quase exímia disto mesmo. Vinícius Júnior recebeu na esquerda, lançou um cruzamento largo para Benzema, que entretanto tinha trocado momentaneamente de posição com Vázquez, e o francês foi mais forte do que Jordi Alba. Bola na pequena área, onde surge Lucas Vázquez mais rápido do que Lenglet a desviar sem hipótese para Ter Stegen. Nota 20 para a eficácia merengue, que entrava no jogo praticamente a vencer e obrigava o Barcelona a jogar em reação a partir do minuto seis.

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Numa primeira parte que não teve mais golos, o Real Madrid foi permanentemente mais forte, mais perigoso e mais consistente, numa exibição positiva e muito assente no bom pico de forma de Vinícius, que fez a cabeça em água a Nélson Semedo durante todo o primeiro tempo. Do outro lado, Rakitic estava demasiado ocupado a ajudar o lateral português com o avançado brasileiro para provocar roturas ofensivas, Coutinho estava totalmente desaparecido e o jogo do Barcelona baseava-se na grande qualidade de passe de Arthur e nos bons indícios de Malcom, que carregava quase sozinho a responsabilidade de desequilibrar e criar oportunidades. A melhor chance dos catalães foi mesmo de Rakitic, que cabeceou à barra no seguimento de um canto (31′), e só Suárez esteve também perto de empatar e viu Keylor Navas responder com uma grande defesa a um bom remate (36′). Na ida para o intervalo, o Real Madrid vencia em Camp Nou e estava bem melhor no jogo: Vinícius, por exemplo, tinha tantos remates quanto toda a equipa do Barcelona.

A segunda parte começou ainda sem Messi, mas rapidamente se percebeu que o argentino saltaria do banco assim que fosse estritamente necessário, já que começou a realizar exercícios de aquecimento ainda nem o segundo tempo tinha dez minutos. O Barça voltou do balneário bem melhor, a conseguir colocar a bola com mais qualidade no flanco e a permitir maior liberdade a Jordi Alba, que durante a primeira parte esteve sempre mais preocupado a dobrar Lenglet na mancha a Benzema e Vázquez do que a criar transições ofensivas. O golo do empate, aos 58 minutos, surgiu assim mesmo, quando Lenglet descobriu o lateral espanhol em arrancada no corredor esquerdo e pôs a bola nas costas de Carvajal. Navas saiu à bola e conseguiu desarmar Alba, mas a bola sobrou para Suárez, que atirou em jeito para uma baliza desprovida de guarda-redes; Ramos conseguiu evitar o golo com um grande corte mas Malcom surgiu no lado contrário, a dominar com muita classe e a atirar de pé esquerdo para o empate do Barcelona.

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Ambos os treinadores reagiram de forma quase imediata ao golo de Malcom: Valverde colocou Messi em campo e tirou um apagado Coutinho, ao passo que Solari lançou Bale para retirar Vinícius. As substituições tiveram efeitos totalmente opostos. Se no caso do Barcelona a equipa começou a jogar em função do argentino e ganhou finalmente o farol que tanta falta tinha feito no primeiro tempo, do outro lado saiu o jogador que mais estava a desequilibrar e Bale só tocou na bola de forma produtiva mais de 15 minutos depois de entrar em campo. A partir da entrada de Messi, o Barça ganhou critério e beneficiou da descida das linhas merengues, que reagiram à presença do argentino e tornaram-se bem mais cautelosas e defensivas. O Real precisou de tempo para pensar o jogo e só a partir dos 75 minutos voltou a fazer tudo aquilo que tinha levado a equipa de Solari a vencer para o intervalo: jogar a partir de trás, de forma apoiada, de frente para o meio-campo atacante e com a procura constante da construção assente no bloco central.

Até ao final do jogo e mesmo com as entradas de Aleñà e Vidal de um lado e Casemiro e Asensio do outro, Barcelona e Real Madrid não conseguiram desbloquear o empate que deixa tudo em aberto para a segunda mão no Santiago Bernabéu (a outra meia-final começa a jogar-se esta quinta-feira, entre o Betis de William Carvalho e o Valencia de Piccini, Garay e Rodrigo). Os merengues foram bem melhores na primeira parte e os catalães nunca conseguiram ter o ascendente necessário na segunda para carimbar a vitória: o empate, de forma inequívoca, parece ter sido o resultado mais justo de um El Clásico que foi apenas o primeiro capítulo de uma saga de três em 25 dias.