Lídia Jorge tem um desejo: que daqui a dez anos a poesia, que dizem que não serve para nada, sirva “claramente para tudo”. Durante uma mesa redonda subordinada ao tema “E livres habitamos a substância do tempo”, um verso de Sophia de Mello Breyner, a escritora falou da importância da poesia e recordou a poetiza, cujos 100 anos se celebram em 2019, para falar de liberdade e da madrugada que a trouxe e que parece estar a cair no esquecimento.

“Este verso total, ‘E livres habitamos a substância do tempo’, vem carregado de um sentido de vida próprio, sobreposição de sonhos íntimos que ultrapassam a leitura literal. Uma síntese do seu idealismo de ser como pessoa”, começou por dizer a escritora, citando o poema “25 de Abril” que serviu de mote à mesa redonda onde participaram também os escritores Ana Paula Tavares, Filipa Leal, Germano Almeida, Helder Macedo e Juan Gabriel Vásquez, vencedor do Prémio Casino da Póvoa do ano passado.

“Os outros versos do mesmo poema evocam uma utopia, a da liberdade, pela qual Sophia e muitos dos seus companheiros se bateram. À distância, o tema daquela madrugada, o que veio depois da noite e do silencio, pode não dizer muito, é apenas uma referência histórica”, continuou Lídia Jorge, apontando que, até para muitos dos implicados, se tornou num “enfado”, de tantas vezes que é repetido.

Admitindo que para os mais novos é difícil compreender para que servem as revoluções porque “já nasceram” numa época de mudança, Jorge frisou que estas não servem só para “causar tumultos e desgostos” como eles acreditam — são “necessárias quando a liberdade se tornam insuportáveis”. É por isso que “há revoluções que são imprescindíveis”, mas isso parece estar a ser esquecido: “Sophia compreenderia que sociedade de hoje se quer desfazer da mitologia da madrugada por que ela tanto esperou”.

Desejando que a poesia desempenhe um papel mais importante no futuro, Lídia Jorge ansiou por um mundo melhor, “mais humano, mais fraterno”. Um mundo de que Sophia teria gostado.

O Observador viajou até à Póvoa de Varzim a convite do Correntes d’Escritas