Com uma bandeira da União Europeia (UE) pelas costas, ao lado da catalã, o ex-presidente do governo regional da Catalunha criticou esta segunda-feira o Parlamento Europeu, acusando aquela câmara de ser uma “marioneta” da direita espanhola, após ter sido impedido de ali discursar por decisão do seu presidente, Antonio Tajani.

“O presidente Tajani tomou uma decisão política e ideológica quando deveria ter agido como o presidente de todos os europeus e não apenas da ala mais radical da direita”, disse Carles Puigdemont, que, ao não ter podido discursar no Parlamento Europeu, convocou uma conferência de imprensa no Steigenberger Wiltcher’s, um hotel de luxo no centro de Bruxelas.

“Em vez de defender o direito de todos os europeus, [Antonio Tajani] converteu o Parlamento Europeu numa marioneta dos partidos da direita”, acrescentou o líder independentista, que tinha sido convidado para discursar no Parlamento Europeu por um eurodeputado nacionalista flamenco, Ralph Packet, e pelo ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslovénia e atual líder da plataforma que junta eurodeputados a favor do diálogo entre a UE e a Catalunha, Ivo Vajg.

Carles Puigdemont sublinhou ainda o facto de ter sido permitido ao secretário-geral do Vox, partido de extrema-direita espanhol que surge em quinto lugar nas sondagens para as eleições legislativas de 28 de abril. “É escandaloso”, disse.

“O senhor Tajani censurou a nossa conferência, mas permite um evento organizado por um partido da extrema-direita espanhol, o Vox. O populismo e o nacionalismo extremista são bem-vindos no Parlamento Europeu, mas não o direito à autodeterminação reconhecido pelas Nações Unidas”, acrescentou o ex-presidente do governo regional da Catalunha.

O projeto independentista catalão, da maneira foi desenhado por Carles Puigdemont e pelos seus aliados — a maioria dos quais começou a ser julgada em Madrid na semana passada por crimes de sedição, rebelião e desvio de fundos —, contava com a mediação da União Europeia para a resolução do conflito entre o governo regional catalão e o Estado central espanhol. Na noite do referendo inconstitucional de 1 de outubro de 2017, foi precisamente à Europa, e não a Madrid, que Carles Puigdemont apelou, pedindo assistência e mediação.

Porém, essa ajuda nunca chegou a ser formalmente oferecida por Bruxelas — e, esta segunda-feira, Carles Puigdemont, que foi exílio auto-imposto na capital belga desde o final de outubro de 2017, voltou a denunciar a posição europeia.

“A maioria dos cidadãos da Catalunha não conseguem entender o silêncio das principais instituiçoes europeias, especialmente a Comissão Europeia, em relação à violência do 1 de outubro”, disse. “E é ainda mais difícil entender que prolonguem o seu silêncio enquanto se prende de forma impune democratas.”

Durante a conferência de imprensa, Carles Puigdemont tornou a insistir na realização de um referendo à independência na Catalunha, inspirando-se no caso do Quebeque ou da Escócia, onde foram realizados referendos à independência, que acabou por ser rejeitada nos dois casos.

“Vamos defender um referendo acordado com o governo espanhol, uma vez que é a opção mais plausível entre todas. Esta proposta de diálogo e busca pelo consenso continuará aberta até a último dia”, disse Carles Puigdemont.

Esta insistência é tanto uma mensagem para o passado como é para o futuro, já que na semana passada o presidente de governo, Pedro Sánchez, convocou eleições antecipadas após falhar um consenso com os independentistas, que provocaram o chumbo do orçamento socialista.

Numa entrevista à TVE transmitida na segunda-feira à noite, Pedro Sánchez disse que estaria disposto a pactar com os independentistas catalães, tal como com os outros partidos. “Também não fecho a porta a um entendimento com o Ciudadanos, Podemos e o PP”, disse.