21 de março de 1999. A noite da 71.ª cerimónia de entrega dos Óscares estava a chegar ao fim. Harrison Ford subiu ao palco do Dorothy Chandler Pavilion para entregar o galardão de melhor filme a Donna Gigliotti, David Parfitt, Edward Zwick, Marc Norman e Harvey Weinstein pelo filme “A Paixão de Shakespeare”. 20 anos depois, o “Hollywood Reporter” deu a conhecer aquela que diz ser a “verdadeira história” de como o filme protagonizado por Gwyneth Paltrow e Joseph Fiennes superou, contra todas as expetativas, “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg, naquela que é considerada “a grande surpresa da história dos Óscares”.

“Ele queria ser um dos grandes magnatas do cinema e para isso tinha que ganhar um Óscar. Usámos o manual de “O Paciente Inglês” mas com esteróides, numa estratégia assassina: tudo fora de horas, com exigências ridículas e inacreditavelmente loucas”, conta Mark Gill, à época presidente da Miramax, a produtora fundada pelos irmãos Weinstein.

A estratégia já estaria definida por Harvey Weinstein: as ações de charme junto da imprensa, o mediatismo à volta do filme e o lobby junto dos membros da Academia que decidiam os vencedores dos galardões.

[o trailer de “A Paixão de Shakespeare”:]

3 de dezembro de 1998. A apresentação do filme contou com a presença da primeira-dama dos Estados Unidos da América, Hillary Clinton, colocando as expetativas elevadas logo no lançamento. O filme foi concluído a todo a velocidade para poder ser lançado a tempo de estar nomeado para os Óscares, um timing que acabou por correr de feição aos produtores, visto que durante o período de nomeação e de votação dos prémios a longa-metragem esteve sempre em exibição, beneficiando do hype gerado à sua volta para aumentar as receitas de bilheteira e pressionar os membros da Academia.

Por outro lado, “O Regaste do Soldado Ryan” foi lançado em julho, obrigando a DreamWorks — a produtora — a fazer uma campanha publicitária no final do ano para trazer novamente o filme para o centro da atenção e da discussão.

Harvey Weinstein continuava entretanto a seguir a estratégia delineada para conquistar o galardão mais importante da indústria. Depois da apresentação ao mais alto nível e da forte cobertura mediática, seguia-se a pressão junto dos membros da Academia. O produtor juntava em jantares e festas os atores do filme com os membros da Academia que iam votar, semanas depois, nos vencedores. A par dos jantares e das festas, a produtora do filme — a Miramax — protagonizou também uma ronda de telefonemas para os membros da Academia para aferir a opinião dos membros eleitores.

[o trailer de “O Resgate do Soldado Ryan”:]

Segundo relatos ao “Hollywood Reporter”, uma dessas chamadas foi mesmo feita por Harvey Weinstein para mostrar aos estagiários da produtora como deviam agir.

“Olá, daqui é o Harvey Weinstein, da Miramax. Recebeu o VHS do filme? Gostou? Muito obrigado, a sua opinião é muito importante para nós.”

Os funcionários da Miramax juntaram-se e distribuíram a lista de membros da Academia por graus de conhecimento, procurando assim que as chamadas fossem o mais pessoais possível e tivessem um tom menos “eleitoral”.

Óscares: os grandes vencedores e os maiores perdedores

Concluída a primeira fase da estratégia, faltava a segunda para que nada falhasse na noite da entrega dos Óscares: retirar da luta o principal concorrente. Na imprensa circulavam rumores de que os publicitários contratados por Weinstein estavam a tentar passar para a imprensa críticas negativas do filme de Steven Spielberg. Angellotti, um dos produtores de “A Paixão de Shakespeare”, diz que Weinstein deu essas instruções ao staff, mas que lhe confessou ter gostado genuinamente do filme de Spielberg. A campanha, em surdina, contra “O Resgate do Soldado Ryan” era a jogada final para decidir a vitória.

No dia da entrega dos Óscares, antes da última categoria, “A Paixão de Shakespeare” tinha conquistado seis prémios e “O Resgate do Soldado Ryan” cinco, incluindo o de Melhor Realizador. A personalidade escolhida para entregar o Óscar final, Harrison Ford, era amigo pessoal de Steven Spielberg, o que fez crescer junto dos membros da equipa do filme de Weinstein o sentimento de derrota. Minutos mais tarde, o anúncio de Harrison Ford, a atribuir a vitória a “A Paixão de Shakespeare” surpreendeu todos e ficou registada como uma das maiores surpresas — e talvez injustiças, segundo muitos — da história dos Óscares.

Segundo Peggy Segal, uma publicitária norte-americana, para Harvey Weinstein “ganhar o Óscar de Melhor Filme era a porta de entrada para os livros de história dos Estados Unidos”: “O Óscar era o Prémio Nobel da Paz dos norte-americanos“. Em 1999, Weinstein conquistou o seu lugar na história. 18 anos antes de rebentar o escândalo de abusos sexuais que o expulsou da Academia e originou o movimento #MeToo, colocando o produtor noutra página, bem diferente.

De ‘patinho-feio’ ao ‘monstro’ Harvey Weinstein. A ascensão e a queda do magnata do cinema