Depois de Woody Allen ter exigido à Amazon uma indemnização milionária por quebra de contrato, a empresa respondeu dizendo que os comentários de Allen sobre o movimento #MeToo “sabotaram” o trabalho desenvolvido no âmbito do contrato, o que justificou a quebra.

O realizador norte-americano tinha um vínculo com os estúdios da Amazon para a produção de quatro filmes, mas a empresa denunciou o contrato após o escândalo em volta do alegado abuso sexual de Woody Allen sobre a filha, Dylan Farrow.

Em fevereiro, Allen acusou a Amazon de ir buscar uma “acusação infundada de há 25 anos” para pôr termo à ligação e exigiu uma indemnização de 68 milhões de dólares (60 milhões de euros).

Agora, a Amazon veio explicar o que esteve na origem da decisão. Na resposta, com data desta quarta-feira e citada pelo jornal britânico The Guardian, a empresa lembra como em agosto de 2017 celebrou um acordo com Woody Allen para a aquisição de direitos respeitantes aos próximos quatro filmes do realizador.

Pouco mais de um mês depois da celebração desse contrato, em outubro do mesmo ano, o filho de Allen, Ronan Farrow, publicou um artigo de investigação na revista The New Yorker sobre os abusos cometidos pelo produtor Harvey Weinstein — na origem do movimento #MeToo.

A reação de Woody Allen a esse artigo não satisfez a Amazon. Na altura, à BBC, Woody Allen disse que toda a história à volta de Harvey Weinstein era “triste para todos os envolvidos”. Tanto para as “pobres mulheres” como para o produtor.

Woody Allen foi mais longe e ainda criticou a “atmosfera de caça às bruxas” em que “qualquer homem num escritório que pisque o olho a uma mulher tem imediatamente de telefonar a um advogado para o defender”.

A Amazon explica que estes comentários feitos por Woody Allen mostram que o realizador não percebeu “a gravidade do assunto” nem “as implicações para a sua própria carreira”. “Allen expressou simpatia por Weinstein e pelas vítimas, descrevendo a situação como ‘triste para todos os envolvidos'”, sublinhou a empresa.

Mais tarde, Woody Allen viria também a criticar a intervenção pública da sua filha, Dylan, que voltou a falar da acusação que já tinha feito há mais de duas décadas, afirmando que “a família Farrow está a usar de forma cínica a oportunidade” dada pelo movimento #MeToo para “repetir esta alegação desacreditada”.

Em junho do ano passado, Woody Allen disse que devia ser “o rosto do movimento #MeToo”. “Trabalho há 50 anos na indústria do cinema. Trabalhei com centenas de atrizes — grandes atrizes, atrizes famosas, algumas a começarem a carreira –, e nunca nenhuma sugeriu nenhum tipo de comportamento indecente”, disse na altura o realizador.

Para a Amazon, todos estes comentários de Allen durante o período em que o contrato estava a ser executado “sabotaram” o esforço da empresa em promover os filmes do realizador.

“Os comentários de Allen surgiram precisamente quando a Amazon e Allen estavam a preparar-se para promover o filme de Allen Wonder Wheel, efetivamente sabotando esses esforços. Entendidas no contexto maior, as ações de Allen e as suas consequências em cascata asseguraram que a Amazon poderia, possivelmente, nunca receber o benefício do acordo para os quatro filmes”, lê-se no documento.

Quando foi terminada a pós-produção do filme A Rainy Day in New York, a Amazon cancelou o contrato. Depois, na sequência de novas alegações contra Allen, o lançamento do filme foi suspenso — até hoje, não há data para a estreia da película.