A assembleia geral da EDP votou contra contra a alteração dos estatutos com 56,6% dos votos esta quarta-feira. Isto significa que a oferta pública de aquisição (OPA), lançada pela China Three Gorges, há quase um ano cai por terra. Mas a parceria com o maior acionista é estratégica e é para para manter e desenvolver. Esta foi a principal mensagem dos presidentes da comissão executiva e do conselho geral e de supervisão na conferência de imprensa após a assembleia geral. António Mexia e Luís Amado fizeram questão de sublinhar o alinhamento dos principais acionistas em torno do plano estratégico apresentado este ano, incluindo a China Three Gorges.

A proposta de alteração dos estatutos que foi a votos permitiria aos acionistas ultrapassarem os 25% dos direitos de voto. Como esta era uma condição de sucesso para a oferta pública de aquisição (OPA) da China Three Gorges,o maior acionista da EDP, o seu chumbo significa que esta oferta fica sem efeito. Este foi o entendimento divulgado pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) na semana passada e que foi aceite pelo acionista chinês da EDP.

A alteração de estatutos da EDP exige uma maioria qualificada de dois terços do capital que vota Como mais de 50% dos votos foram contra, a proposta ficou sem efeito, apesar de cerca de 44% do capital representado nesta AG ter votado favoravelmente a desblindagem. Pelas percentagens conhecidas de votos contra, tudo indica que apenas os chineses — a CTG e eventualmente a CNIC — votaram favoravelmente o fim do limite de 25% aos direitos de voto. Já o presidente executivo da empresa, António Mexia, confessou que não votou nesta AG.

Os dois principais rostos da empresa — António Mexia e Luís Amado — esforçaram-se por passar uma imagem de “alinhamento” e “coesão” dos principais acionistas da elétrica em redor do plano estratégico apresentado em março. E apesar de o presidente do conselho geral e de supervisão ter reconhecido que esta OPA foi um processo de “difícil de gestão” por se tratar de um acionista, o que poderia gerar um desalinhamento de interesses, Luís Amado também classificou a CTG “como um pilar fundamental” para a coesão acionista da EDP. Já António Mexia assinalou que a manutenção da CTG como principal acionista permitirá minimizar eventuais “ataques especulativos de outros investidores”.

A estabilidade acionista dará também mais força à empresa para enfrentar “os cenários disruptivos” que se antecipam para o setor no quadro da transição energética.

Os dois sublinharam igualmente o apoio de todos os acionistas à estratégia apresentada pela gestão da empresa, mesmo daqueles que não estão representados no conselho geral e de supervisão. Questionado especificamente sobre o apoio do fundo ativista americano a este plano, António Mexia considerou que dado o perfil público e claro das tomadas de posição da Elliott Management, já teriam tomado alguma posição também pública sobre o referido plano estratégico que prevê a venda de ativos em Portugal e Espanha e o reforço nas renováveis.

Foi graças a uma iniciativa da Elliott Management, o fundo ativista que entrou recentemente no capital da EDP, que a desblindagem dos votos da EDP foi discutida nesta assembleia geral, forçando uma clarificação da OPA chinesa, em linha com os interesses da própria gestão da empresa, ainda que as declarações públicas tenham sido sempre no sentido de manifestar um “grande respeito” pela China Three Gorges, pela importância e pela “lisura” da atuação deste acionista.

A iniciativa cumpriu o essencial da estratégia do fundo americano que era clarificar a situação acionista da elétrica portuguesa. Essa clarificação passava por uma “declaração de óbito” da OPA da China Three Gorges que há meses se arrastava sem perspetiva de um desfecho positivo para o maior acionista da EDP.

A votação da desblindagem dos estatutos acabou por ser antecipada face ao calendário original de votações, tendo ficado para o fim da assembleia a eleição do novo presidente da assembleia geral, Luís Palha da Silva que foi aprovada por mais de 98% dos votos.

A assembleia geral da EDP que chumbou o fim da blindagem dos votos na elétrica realizou-se com 65,18% do capital social representado, menos que a na reunião magna de acionistas do ano passado onde estava 69% do capital. Com esta percentagem presente, a participação atribuída aos acionistas chineses que queriam eliminar a blindagem dos estatutos poderia disparar para 43,4% do capital representado. Mas para tal, o presidente da mesa da assembleia geral teria de contar separadamente os dois votos dos acionistas detidos pelo Estado chinês, a China Three Gorges e a CNIC. Ainda assim, essa margem não seria suficiente para garantir os dois terços do capital representado.

Todos os pontos até à desblindagem foram aprovados por larga maioria do capital presente. Mas os primeiros pontos, que incluem as contas de 2018 e a distribuição de dividendos, foram aprovados com mais de 99% dos votos. Já a política de remunerações da comissão executiva e do conselho geral e de supervisão foi aprovada por uma maioria menos expressiva, pouco mais de 91% do capital.