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Crítica de Livros

O inverno de Paris é o mais cruel

"As Moscas de Outono" é a história do declínio dos Karine, uma família russa apanhada pela Revolução. O romance, um relato belo e comovente, foi escrito por quem sentiu na pele as dores da guerra.

Irène Némirovsky era uma escritora de sucesso quando foi enviada para Auschwitz em 1941. A ucraniana acabou por morrer no campo de concentração, aos 39 anos

Título: As Moscas de Outono
Autor: Irène Némirovsky
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 88
Preço: 10,99 €

Publicado originalmente em 1928, o romance As Moscas de Outono contribuiu para o aumento do prestígio de Irène Némirovsky. A edição da Cavalo de Ferro chegou às livrarias neste mês de abril

É impossível negar que a obra de Irène Némirovsky foi profundamente marcada pela sua própria biografia. Nascida em 1903, na cidade de Kiev, então parte do Império Russo, no seio de uma família abastada (o pai, Lev, era banqueiro), a autora assistiu a alguns dos acontecimentos mais marcantes do século XX — à Revolução Russa e ao fim do czarismo, à Primeira Guerra Mundial e à Segunda, a causa da sua morte, com apenas 39 anos, num campo de concentração nazi.

Apesar de a Rússia czarista onde nasceu servir de pano de fundo a alguma das suas obras, Némirovsky tinha apenas quatro anos quando saiu de Kiev para nunca mais voltar. Em 1917, a família decidiu emigrar para a Finlândia (um destino escolhido por muitos aristocratas russos que fugiam da Revolução), onde esteve um ano antes de se estabelecer definitivamente em Paris. Foi na capital francesa que a futura escritora cresceu, passou grande parte da sua vida e publicou a maioria das suas obras, que conheceram desde logo um grande sucesso.

A sua estreia literária deu-se em 1928 com o romance David Golder (publicado em Portugal pela Relógio d’Água e pela Sistema Solar), adaptado ao cinema um ano depois. A fama da escritora ucraniana consolidou-se com a publicação das obras seguintes, nomeadamente com Le Bal e As Moscas de Outono, recentemente traduzido (e pela primeira vez) para português. Com o início da Segunda Guerra Mundial e com a chegada das tropas nazis a França, em 1940, Némirovsky viu-se obrigada a interromper a sua carreira literária, de grande sucesso. A autora tinha ascendência judia e, por causa disso, os seus livros foram proibidos. A sua última obra, Jezebel, saiu em 1936.

Em 1942, Irène Némirovsky foi detida por ordem do governo de Vichy por ser considerada “uma pessoa sem nação de descendência judia”. Tinha deixado Paris dois anos antes, fugindo da guerra com a família e estabelecendo-se na vila de Issy-l’Évêque, na região da Borgonha. Antes de ser levada para Auschwitz, disse às filhas: “Vou partir numa viagem”. Nunca mais voltou. Morreu um ano depois, de tifo. O marido, Michel Epstein, morreu na câmara de gás do mesmo campo de concentração.

A sua obra maior, Suite Française, sobreviveu, mantida dentro de uma mala por uma das filhas. Publicado pela primeira vez em 2004, o romance, sobre os parisienses que tiveram de fugir por causa da guerra, tirou a escritora ucraniana do esquecimento em que caiu durante o período pós-guerra. O livro venceu postumamente o prémio Renaudot e foi adaptado ao cinema em 2014. Um outro romance, Les Feux de l’automne (publicado pela primeira vez no final dos anos 50), é uma espécie de prequela que também explora a vida quotidiana num clima de guerra. A história começa pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial e termina nos primeiros anos da Segunda. As duas obras mostram que, apesar da proibição de que foi alvo, Némirovsky nunca deixou de escrever.

O último romance de Irène Némirovsky publicado em Portugal inspira-se mais uma vez na vida da sua autora. As Moscas de Outono (com edição da Cavalo de Ferro) fala de uma família aristocrática russa que, com o início da Revolução, se vê obrigada a abandonar a sua propriedade e a estabelecer-se em Paris. A história é contada da perspetiva de uma velha serva, Tatiana Ivanovna, guardiã das memórias que os Karine tentam a todo o custo enterrar e esquecer. Ainda que a obra não faça uma apologia do antigo regime (ou do novo), Nianiouchka, como é chamada por aqueles que lhe são mais próximos, é sem dúvida uma representação deste, dos seus costumes e valores, que os revolucionários querem fazer desaparecer.

As Moscas de Outono começa com a partida de Youri e Cyrille, os filhos mais velhos de Nicolas Alexandrovitch, o patriarca da família, para a guerra. É-nos explicado, logo na primeira página, que esta não é a primeira vez que a vida dos Karine é interrompida por um conflito armado — Alexandre Kirilovitch morreu em combate em 1877, durante a guerra da Rússia com a Turquia —, mas o clima que paira no ar dá a entender que, desta vez, a vida em Karinova não voltará ao normal. Tatiana Ivanova parece ser a que sente mais profundamente a partida dos dois jovens, que viu nascer e que ajudou a criar. É com a saída de casa de Youri e Cyrille que começa a sua tragédia pessoal, que é também a da família que acompanhou durante duas gerações. Esta culminará nas ruas de Paris.

Da mesma forma que não defende nenhum dos lados da barricada, o romance também não relata pormenorizadamente os acontecimentos históricos que levam à partida dos Karine, em janeiro de 1918. No início do terceiro capítulo, Nianiouchka, que fica para trás para tomar conta da propriedade, conta como, depois disso, viu todos os dias “as aldeias em chamas no horizonte, extinguindo-se e reacendendo-se à medida que passavam dos Vermelhos para os Brancos, e novamente para os Vermelhos”, mas sem dar grandes explicações.

O regresso de Youri, que conseguiu escapar da prisão onde esteve preso com o irmão, também não ajuda a esclarecer a situação. Fica-se apenas a saber que o país está envolto num clima de guerra, e que nenhum lugar é seguro. Nem mesmo ali, na casa da família, onde Yourotchka acaba por morrer, assassinado à queima-roupa por um amigo de infância. Quando finalmente se reencontra com os Karine em Odessa, no início do quarto capítulo, a velha serva explica o que aconteceu: “Receavam que ele viesse para reaver as terras. Ainda assim, diziam que tinha sido sempre um bom Barine, e que era necessário poupá-lo à miséria de um julgamento e de uma execução”. Foi por isso que o mataram à porta de casa, com um tiro na nuca. Esta é a Rússia da Revolução, onde os amigos se tornam inimigos e a morte, injustificável, está sempre à espreita.

Tudo isto é relatado subtilmente, sem qualquer referência direta à realidade política que desencadeia todos os principais acontecimentos da história. É curioso que, apesar de não ter escrito um romance sobre política, Irène Némirovsky tenha criado uma história tão profundamente marcada por ela. Ao colocar o foco nas personagens, no drama humano de quem habitava aquela terra, Némirovsky não contou a história da Rússia, mas a história do sofrimento humano. E esse é transversal a todos os conflitos armados.

Depois de uma longa viagem financiada pelo dinheiro que conseguiram levar de Karinova e com as joias que Tatiana Ivanovna coseu na bainha da saia, os Karine estabelecem-se em Paris. A luz da capital francesa contrasta fortemente com o pequeno apartamento, escuro e abafado, que a família aluga na Rue de l’Arc-de-Triomphe. Sem conseguirem lidar com o calor do verão parisiense que estava apenas a começar, os aristocratas russos caídos em desgraça arrastam-se pela casa, “estonteados com os ruídos de Paris, respirando com desconforto os fedores das pias de desejo das cozinhas, que subiam do pátio. Eles iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas”.

A inaptidão dos Karine não é apenas uma questão de temperatura. Habituados a um estilo de vida que nunca mais voltarão a ter, parecem perdidos, zonzos como moscas. Vão vivendo como podem. O filho mais novo, André, é enviado para um colégio interno, Cyrill muda-se para casa de uma atriz francesa rica que tinha conhecido na prisão e Loulou, a única filha, entrega-se à bebida. Quando o dinheiro parece estar prestes a acabar, Nicolas Alexandrovitch compra e mobila um armazém no fundo de um pátio onde começa a vender “alguns dos faqueiros antigos que conseguiram trazer, as rendas, os ícones”. Com o pouco lucro que obtém, a família vai sobrevivendo, a única coisa que lhes resta depois de terem deixado uma vida inteira para trás.

Os anos começam a pesar em Tatiana Ivanovna, que passa os dias junto à janela recordando o que os Karine tentam a todo o custo esquecer (o antigo esplendor, as festas opulentas em Karinova, a cara de Youri, o seu favorito, que ajudou a nascer, a criar e que viu morrer) e ansiando pela queda dos primeiros flocos de neve. Mas Paris teima em não se vestir de branco, e Nianiouchka, que soube aguentar com um estoicismo surpreendente todas as tragédias da sua vida (“é a santa vontade de Deus”, costumava dizer), quebra. Quebra pela primeira e derradeira vez. Com ela, morre uma pedaço da Rússia.

As Moscas de Outono não é certamente a obra-prima que é Suite Française, mas não deixa de ser um testemunho belo e comovente, escrito por alguém que sentiu na própria pele o peso da crueldade humana. Ao escolher contar a história da Revolução Russa da perspetiva daqueles que mais sofreram, Irène Némirovsky humanizou um episódio que, para muitos, não passa de um apontamento histórico. E recordou-nos que, apesar da guerra, da morte e da fome, há talvez uma coisa que pesa mais do que todas as outras: as saudades de casa.

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