A história de Lance Armstrong foi, até determinado momento, uma espécie de nova versão do american dream: depois de ter sido abandonado pelo pai, com uma mãe a acumular três empregos para que nunca faltasse nada em casa, começou por destacar-se na natação a acordar ainda antes das cinco da manhã, passou depois para o triatlo para testar os seus limites e conheceu o seu apogeu enquanto atleta no ciclismo, tendo conquistado sete Voltas a França (um recorde) após superar um cancro. Entre a parte desportiva, económica e social, criou um autêntico império durante anos. Em poucas semanas, tudo ruiu.

Pouco ou nada ficou de tudo isso, entre as primeiras notícias que davam contam da utilização de substâncias dopantes e a hora da confissão em prime time tendo Oprah Winfrey como entrevistadora. Entre processos, acusações, perdas de títulos e patrocínios e um completo ostracismo por parte da sociedade em geral, cada pormenor que se ia conhecendo do quase maquiavélico esquema montado pelo americano ao longo de anos a fio, como foi algumas vezes descrita na imprensa do país, era como que mais uma “facada” naquele que tantas vezes tinha sido apregoado como herói e exemplo. Entre o seu rancho no Texas e algumas provas de triatlo e ironman que foi fazendo (e um investimento de 100 mil dólares, cerca de 88 mil euros, que fez na Uber, e que foi uma espécie de salvação económica da família), Armstrong foi desaparecendo do mapa. Até agora.

Numa entrevista à NBC Sports que será transmitida na íntegra no próximo dia 29 (quarta-feira), o americano aborda tudo o que se passou na sua carreira e deixa algumas declarações explosivas que prometem dar que falar.

“Não mudava nada. Não mudava a forma como atuei. Ou melhor, mudava mas seria uma resposta muito longa. Em primeiro lugar, não mudaria as lições que aprendi. Não teria aprendido todas as lições que aprendi se não tivesse agido desta forma. Não teria sido investigado e sancionado se não tivesse atuado como atuei. Se me tivesse apenas dopado sem dizer nada, nada disto teria acontecido. Nada disto. Estava a suplicar, estava a pedir para que viessem atrás de mim. Era um alvo fácil”, assume o americano na entrevista de 30 minutos intitulada “Lance Armstrong: próximo estágio”.

“Fizemos o que tínhamos de fazer para ganhar. Não era legal mas não mudava nada, mesmo perdendo muito dinheiro e passando de herói a zero”, acrescenta em mais um dos excertos já conhecidos dessa mesma entrevista à NBC Sports, onde falará também na opção pelo ciclismo, na primeira vez que usou substâncias proibidas e na cultura do doping no desporto nessa fase.