“O sul-coreano de Villa Fiorito. Kang In Lee, sem ter cumprido ainda os 18 anos, irrompeu no Valencia com o atrevimento de um miúdo e a personalidade de um homem. Canhoto cerrado, com boa visão de jogo, uma disciplinar militar para as suas obrigações e um amplo reportório futebolístico: preciso no passe, imaginativo na finta, descarado no remate. Não pede permissão para nada porque tem as duas valentias exigidas pelo grande futebol: a de colocar a perna e a de pedir a bola (…) Se me dissessem que este sul-coreano tinha nascido em Villa Fiorito, acreditava”, escreveu Jorge Valdano no El País.

Entrar na coluna Juego Infinito assinada pelo antigo campeão mundial pela Argentina num dos jornais de referência em Espanha funciona quase como um certificado de garantia para o presente e futuro de qualquer jogador. Fazer uma referência ao bairro de onde Maradona veio, ainda mais. Kang-in Lee, que pode ser Lee Kang-in ou Lee Kangin, consoante o país em causa, é um fenómeno de apenas 18 anos que teve no Mundial Sub-20 um palco de apresentação através da transmissão dos jogos. Logo ele que, com apenas seis anos, começou a dar nas vistas exatamente num reality show chamado “Shoot-dori” da KBS N Sports, o que lhe valeu uma passagem para a academia Yoo Sang-chul antes de assinar com oito anos pelo Incheon United, jogando já nos Sub-12. No início de 2011, chegou a Espanha para fazer testes no Valencia e no Villarreal e por lá ficou.

Depois de se ter estreado pela equipa B em 2017/18, o médio ofensivo chegou ao conjunto principal na presente temporada, entrando num jogo do Valencia na Taça do Rei com o Ebro e tornando-se o mais novo sul-coreano de sempre a jogar na Europa. Dois meses e meio depois, realizou também o primeiro encontro na Liga espanhola, sendo o segundo mais novo de sempre a estrear-se no Campeonato espanhol apenas superado por Ander Barrenetxea, da Real Sociedad. Ato contínuo, Kang-in Lee teve a primeira internacionalização pela formação principal da Coreia do Sul comandada por Paulo Bento.

Depois da derrota na primeira jornada do Grupo F do Mundial Sub-20 com Portugal, a Coreia do Sul foi crescendo na prova à mesma escala da influência do número 10 na equipa. A seguir ao triunfo com a África do Sul (1-0), a vitória com a Argentina garantiu a passagem à fase seguinte da competição (eliminando também a Seleção Nacional) e seguiram-se mais sucessos com Japão (1-0), Senegal (3-3, 3-2 nos penáltis) e Equador (1-0), todas revelações da prova organizada na Polónia. Faltava um último obstáculo e Kang-in Lee até inaugurou o marcador de grande penalidade logo a abrir o encontro (5′).

A Coreia do Sul já tinha feito história, a Ucrânia apressou-se a escrever ainda mais história: a mesma geração que no ano passado deixara grandes indicações no Europeu Sub-19, onde caiu apenas nas meias-finais frente a Portugal (que se viria a sagrar campeão), voltou a ser mais forte tal como tinha acontecido num “duelo de gigantes” nas meias com a Itália (1-0) e, depois de ter empatado ainda no primeiro tempo por Supriaha (34′), passou para a frente com mais um golo do avançado do Dínamo Kiev (53′), segurou a reação dos asiáticos com uma defesa fabulosa do guarda-redes do Real Madrid (emprestado ao Leganés na última época) Lunin e fechou de vez a final com o 3-1 de Tsitaishvili aos 89′. Como prémio de “consolação” para a Coreia do Sul, Lee acabou por receber o prémio de melhor jogador da competição.