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dpa/picture alliance via Getty I

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O estreito caminho de Netanyahu para conquistar os oito lugares que lhe faltam para a maioria — e a blindagem da oposição a dissidentes

O quadro legal dificulta dissidências, mas os casos em que isso aconteceu acumulam-se. Likud traçou estratégia intensiva para aliciar dissidentes nas listas das oposição — mas também pode ser vítima.

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À semelhança do que aconteceu na passada terça-feira — e muitas vezes ao longo da História do Estado de Israel — a 12.ª eleição para o Knesset, no dia 1 de novembro de 1988, terminou sem uma maioria clara. Yitzhak Shamir, do Likud, acabou por conseguir formar Governo com o apoio do Alinhamento de Shimon Peres, que passou a ocupar o cargo de ministro das Finanças. Mas o Executivo — como também é frequente na política israelita — não chegou ao fim do mandato. Menos de dois anos depois das eleições, Peres desenhou um acordo secreto com grupos da esquerda árabe e ultraortodoxos e apresentou uma moção de censura ao Governo que integrava. Pela primeira (e até agora única) vez na política israelita, um Executivo caiu com uma moção de censura.

A ação de Shimon Peres, mais tarde imortalizada por Yitzhak Rabin como “truque sujo“, acabou por fracassar quando o líder trabalhista não conseguiu formar o seu próprio Governo, mas deixou marcas eternas na política israelita. Um ano depois do “golpe”, o Parlamento israelita adotou a 12.ª emenda à sua Lei Fundamental, que impõe “restrições à candidatura de um membro do Knesset que se separe da sua fação”. Ou seja, na teoria, esta lei impede “deserções” políticas ou golpes por saídas de um dado partido ou coligação. Contudo, na prática, os incidentes com dissidentes políticos entre partidos continuaram a repetir-se ao longo dos últimos 35 anos.

epa13334011 People cast their votes for the 26th Knesset (legislative) elections in the city of Bnei Brak, near Tel Aviv, Israel, 27 October 2026. Israelis are heading to the polls in the first nationwide elections since the Hamas-led 07 October 2023 attack.  EPA/ATEF SAFADI

▲ Como é frequente na política israelita, as eleições terminaram com um impasse político

ATEF SAFADI/EPA

É precisamente este o contexto político que marca o momento atual da política israelita. Quatro dias depois da ida às urnas, o país está novamente num impasse político, uma vez que nenhum dos blocos que foi a votos alcançou os 61 deputados no Knesset necessários para obter uma maioria absoluta. O cenário já se antecipava desde a noite eleitoral e as possibilidades para o futuro começaram a ser pesadas logo na madrugada de quarta-feira, com destaque para três opções mais prováveis: um governo de minoria do bloco da oposição, liderado pelo Yashar! de Gadi Eisenkot e com apoio parlamentar dos partidos árabes, um governo de unidade nacional entre Eisenkot e o Likud de Benjamin Netanyahu ou, em último caso, a convocação de novas eleições.

Afinal, Netanyahu sobrevive, diz que é proibido pôr partidos árabes no governo e agarra-se a Trump para atacar já o Irão

A contagem final dos votos dos soldados, diplomatas, presos e internados só chegou esta quinta-feira e confirmou o impasse. O bloco composto pelo Likud e quatro partidos ultra-ortodoxos (Otzma Yehudit, Judaísmo Unido do Torá, Shas e Sionismo Religioso) conquistou 53 lugares no Knesset, enquanto o bloco da oposição, composto pelo Yashar!, o B’Yachad de Naftali Bennet e Yair Lapid, os Democratas de Yair Golan e o Yisrael Beytenu de Avigdor Lieberman, alcançou 48. Os restantes 19 lugares foram entregues aos partidos árabes (Lista Conjunta, que reúne três partidos, e Ra’am).

Porém, o compasso de espera entre a noite eleitoral e o fim da contagem dos votos também permitiu novas negociações entre os líderes dos partidos. E com isso, novos posicionamentos. De um modo geral, as linhas vermelhas de cada partido continuam a ser as mesmas, o que acaba por aumentar a possibilidade de dissidentes individuais — uma hipótese que, apesar das leis, já vinha a ser preparada pelas duas partes ao longo da campanha.

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▲ Amichai Chikli afastou-se do partido de Bennett e acabou como ministro do Likud

Getty Images

A campanha do Likud para atrair dissidentes — que já foi bem-sucedida em 2021

As legislativas de 2021 são mais um exemplo na longa lista de eleições israelitas que terminaram sem maiorias. Nesse ano, Naftali Bennett conseguiu formar Governo recorrendo a uma coligação “anti-Netanyahu”, que contava, pela primeira vez na História de Israel, com um partido árabe, o Ra’am. A escolha de Bennet em negociar com os árabes — minoria que constitui 21% dos cidadãos israelitas — valeu-lhe duas perdas dentro da sua própria bancada: Amichai Chikli e Idit Silman.

Chikli declarou a sua oposição ao acordo e, durante os poucos meses que durou o Governo, votou consistentemente com a oposição, tornando-se, na prática, um dissidente. A declaração oficial do deputado como tal só chegou em abril de 2022. Foi aí que Idit Silman, que até então tivera um papel relevante dentro da coligação, se demitiu do lugar, precipitando a queda do Executivo e as eleições de 2022 que voltaram a colocar Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro. Também Silman invocou divergências internas para abandonar a coligação. Quando os israelitas regressaram às urnas, em 2022, Chikli e Silman tinham passado a integrar as listas do Likud, tendo conquistado lugares no atual Executivo de Netanyahu — o primeiro como ministro da diáspora e a segunda como ministra da proteção ambiental.

A saída de Chikli do partido Yamina é atribuída, pelo ynet, a uma campanha organizada do Likud para pressionar os deputados com menos experiência política, que passava por protestos ou grupos organizados de pessoas a interpelarem os visados e as suas famílias à porta de casa, da escola dos filhos ou da sinagoga. A tática foi utilizada nas eleições de 2021 e 2022 e novamente nestas eleições. “Acho que a melhor estratégia para Netanyahu nesta altura é tentar recrutar dissidentes”, argumentou Martin Sherman, analista do Israeli Defense and Security Forum, à publicação norte-americana Jerusalem News Syndicate (JNS).

"Há pessoas que têm problemas com as posições de Eisenkot e de Yair Golan sobre segurança e questões diplomáticas e com a ideia de formar um Governo com os partidos árabes. Algumas dessas pessoas estão a falar sobre isso com pessoas próximas delas."
Fonte do Likud em declarações ao portal ynet

Contudo, em relação aos dois ciclos eleitorais anteriores, “os métodos do Likud foram refinados“, noticiou o Yedioth Ahronoth. Em vez de exercer apenas pressão direta, o partido terá criado uma equipa composta por deputados e conselheiros experientes que, ao longo da campanha, terão investigado todos os membros nas listas do Yashar! e dos seus parceiros de coligação. O objetivo seria encontrar pessoas com menos experiência política ou com ligações mais estreitas à direita e recolher o máximo de informações sobre elas e sobre possíveis mentores políticos que pudessem ser utilizadas para aliciar e persuadir esses deputados eleitos a mudar de lado.

Ao ynet, uma fonte do Likud garantiu que o trabalho levado a cabo durante a campanha tinha sido bem-sucedido. “Há pessoas que têm problemas com as posições de Eisenkot e de Yair Golan sobre segurança e questões diplomáticas e com a ideia de formar um Governo com os partidos árabes. Algumas dessas pessoas estão a falar sobre isso com pessoas próximas delas”, elaborou a fonte.

A defesa da oposição. A lealdade dos nomes nas listas e o respaldo da lei

O exemplo de Amichai Chikli não é apenas uma motivação para o Likud continuar a investir nesta estratégia, mas um alerta para a oposição se preparar. E foi isso que o Yashar! se dedicou a fazer antes de selecionar os candidatos para as suas listas. A garantia foi deixada ainda antes das eleições por Shaul Meridou, agora eleito como sétimo nome na lista de Gadi Eisenkot, em entrevista ao podcast “120 mais Um”, também do ynet.

▲ O partido de Gadi Eisenkot garante ter feito uma escolha minuciosa dos candidatos nas listas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Gadi sentou-se com cada uma das pessoas e conheço a maioria muito bem. As nossas posições são muito claras e todas as pessoas nas listas as conhecem”, afirmou Meridou. Questionado diretamente sobre “as probabilidades de ter uma Silman nas listas”, o então candidato foi firme. “Lembre-me qual foi o partido que teve Silmans? Nós não vamos ter. Ninguém no nosso partido faria tal coisa. Não vai haver cedências ou concessões“, insistiu.

Apesar do voto de fé na lealdade dos integrantes das listas do Yashar!, Meridou deixou de fora uma questão relevante: o partido de Gadi Eisenkot pode nunca ter tido dissidentes, é verdade, mas o “partido que teve Silmans” é o seu maior parceiro de coligação, com doze lugares — se se considerar como tal a coligação de Naftali Bennett, que dissolveu o Yamina, para agora se apresentar a eleições com Yair Lapid no B’Yachad. A principal defesa dos partidos da oposição é, portanto, um processo de escolha dos candidatos mais minucioso e a confiança nas suas palavras.

Mas o bloco da oposição está protegido também pela lei israelita. Apesar de, como exemplificado anteriormente, a legislação não blindar os partidos contra a possibilidade de dissidentes, dificulta o processo. “A deserção carrega sanções pesadas [tornando o] futuro político [dos dissidentes] muito, muito incerto”, argumenta Assaf Shapira, diretor do Israel Democracy Institute’s Political Reform Program, ao Times of Israel.

epa09237728 Leader of the Yemina party, Naftali Bennett, delivers a political statement in the Knesset (the Israeli Parliament), in Jerusalem, Israel, 30 May 2021. Naftali Bennett announced he will form a government with Yair Lapid to oust Prime Minister Benjamin Netanyahu.  EPA/YONATAN SINDEL / POOL

▲ O Governo de Naftali Bennet caiu em menos de um ano depois das eleições, depois de ter perdido deputados para o Likud

YONATAN SINDEL / POOL/EPA

A secção 6A da Lei Fundamental do Knesset (introduzida através da 12.ª emenda anteriormente mencionada) prevê que deputados declarados oficialmente como “dissidentes” pela “fação” (partido ou coligação) pela qual foram eleitos não podem juntar-se a outra “fação” até ao final do seu mandato no Knesset, podendo manter o seu lugar apenas como deputados independentes. Ao longo desse mandato, esses deputados ficam ainda impedidos de ocupar cargos num Ministério (quer como ministros, quer como secretários de Estado), ficando ainda proibidos de se candidatarem por um partido com representação parlamentar no ciclo eleitoral seguinte.

Mas esta última proibição deixa de se aplicar se o deputado abdicar do seu lugar antes do final da legislatura — foi precisamente isso que aconteceu com Amichai Chikli nas eleições de 2021. Apesar das leis, a promessa de um cargo ministerial num possível Governo seguinte do Likud pode ser suficiente para aliciar novos membros do Yashar! e dos seus parceiros a apoiar um golpe de Netanyahu para quebrar o atual impasse político. Mas, com exceção do Likud, todos os partidos — e não apenas os da oposição — partilham este desejo de quebrar o impasse político.

As férias e as linhas vermelhas de Lieberman que complicam uma equação difícil

“Terminamos um longo dia de reuniões, conversas e preparativos para realizar a vontade do eleitor”. Foi com estas palavras que Gadi Eisenkot assinou o balanço do primeiro dia do pós-eleições. Entre contactos com Bennett, Lapid e Golan, o líder da oposição não terá, contudo, conseguido entrar em contacto com o quinto parceiro, Avigdor Lieberman. A informação foi avançada na quarta-feira pelo Canal 12, que detalhava que o líder do Yisrael Beytenu estaria a ignorar as chamadas de forma a pressionar Eisenkot na direção de um governo de unidade nacional.

epa10177326 Israeli Finance Minister Avigdor Lieberman speaks to the press during the weekly cabinet meeting in Jerusalem, 11 September 2022.  EPA/RONEN ZVULUN / POOL

▲ Avigdor Lieberman já integrou governos de Netanyahu, mas agora recusa fazê-lo

RONEN ZVULUN / POOL/EPA

O analista Nimrod Flaschenberg argumentou à Al Jazeera que, caso Netanyahu tentasse aliciar um partido da oposição a juntar-se ao seu bloco, o mais provável era que o alvo fosse Lieberman. A estratégia não é inédita e os exemplos de Lieberman a negociar com Netanyahu — por vezes em segredo — repetem-se. Tanto em 2009 como em 2019, no rescaldo de eleições em que o seu partido podia quebrar impasses políticos, Lieberman foi de férias, ignorando as tentativas de contacto. Em 2009, regressou para integrar o Governo de Netanyahu. Soube-se mais tarde que os dois tinham feito “um acordo secreto” para avançar com a construção de colonatos na Cisjordânia durante esse Governo, tema que fechou as negociações de uma coligação.

Já em 2019, manteve, no regresso a Israel, o “não” à proposta de governar novamente com Netanyahu. Ainda assim, o primeiro-ministro visou o Yisrael Beytenu, tendo recebido, entre críticas ao líder do partido, 25 dissidentes do partido, que declararam apoio ao líder do Likud.

De qualquer modo, a cisão de Lieberman com o bloco da oposição parece ser um exercício meramente hipotético. Por um lado, mesmo que os sete deputados eleitos pelo Yisrael Beytenu se juntassem ao bloco do Likud, ficaria a faltar-lhes um lugar para a maioria absoluta. Por outro, Lieberman tem sido firme na sua recusa em governar com Netanyahu — um “não” que não abrange o Likud e que é partilhado com os outros quatro líderes da oposição. “Neste momento, não parece que ele se vá juntar [a Netanyahu]”, remata Flaschenberg.

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▲ A abertura à Lista Conjunta quebraria o impasse, mas esta é uma linha vermelha de partidos da oposição

AFP via Getty Images

Mas o primeiro-ministro não é a única linha vermelha deste partido da direita israelita. “O que dissemos antes das eleições é ainda mais verdade depois das eleições. Não nos vamos sentar nem com Bibi nem com Tibi”, afirmou na noite eleitoral, referindo-se a Benjamin Netanyahu e a Ahmad Tibi, líder do partido árabe mais votado, a Lista Conjunta. A recusa firme de Lieberman contraria a vontade de milhares de cidadãos israelitas, que saíram à rua para exigir um governo de coligação judeu-árabe, ao limitar as negociações da “maioria sionista”, defendida por Eisenkot, com o Ra’am, o mesmo partido que já se juntou a Bennett em 2021 e que tem uma posição mais pragmática na sua negociação com os autoproclamados partidos sionistas.

Ora, mesmo que Lieberman, Eisenkot, Lapid e Bennett aceitem todos governar com o apoio (dentro ou fora do Governo) do partido de Mansour Abbas — uma questão que apenas Yair Golan apoia de forma inequívoca e sobre a qual os outros líderes mantêm posições difusas — isso não é suficiente. Isto porque o Ra’am conquistou oito deputados, um número insuficiente para colmatar os treze lugares que faltam ao bloco de Eisenkot para chegar à maioria absoluta. Só a abertura dos partidos judeus à Lista Conjunta — que, com onze deputados, é agora o quarto maior partido no Knesset — mudaria completamente a distribuição de forças.

Neste impasse, Lieberman pode ter outro caminho para o quebrar: virar a estratégia do Likud contra Netanyahu e angariar dissidentes dentro do seu partido. No início do mês, o líder partidário garantia nas redes sociais que tinha conhecimento de vários deputados do Likud insatisfeitos com a vassalagem do primeiro-ministro aos partidos ultra-ortodoxos e que estariam dispostos a juntar-se à oposição. Não são só os deputados do Likud que terão dado sinais de insatisfação. Segundo o Canal 12 noticiou esta quinta-feira, membros do Judaísmo Unido do Torá (UTJ) argumentam que “a aliança com Netanyahu chegou ao fim” e que “já não vão conseguir nada” dele.

▲ Alguns ultra-ortodoxos terão vaticinado o fim da relação com Netanyahu e procuram alternativas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Juntar às já difíceis negociações com os árabes as exigências dos ultra-ortodoxos é um cenário difícil de imaginar. O grupo ergue como bandeira a isenção militar para os ultra-ortodoxos, tema que foi definido como uma linha vermelha por Gadi Eisenkot. O Canal 12 escreve que a negociação pode ser feita por etapas, com o UTJ a abster-se para permitir que um Governo “anti-Netanyahu” tome posse e a debruçar-se sobre o tema posteriormente.

Se para Netanyahu angariar oito deputados dissidentes à oposição parece uma tarefa desafiante, Eisenkot conseguir “roubar” 13 lugares ao bloco de Netanyahu é praticamente impossível. Mas com a rede de linhas vermelhas sobrepostas, todos os caminhos, por muito improvável que pareça o sucesso, deverão ser explorados ao longo das próximas semanas. Afinal, o relógio já começou a contar para formar Governo uma vez que quem mais tem a ganhar com a demora da oposição é precisamente o alvo a abater: Benjamin Netanyahu.

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