Foi mais um pedacinho de história num caminho que por si só já fez história. Ao chegar aos oitavos de final do Campeonato do Mundo Sub-20 na primeira participação de sempre, Portugal deixou bem claro que os alicerces do futebol feminino nacional estão a ser construídos, reforçados e postos à prova. E esta quarta-feira, por mais complexo que o novo desafio fosse, era tempo de voltar a lutar. 

Depois de perder com a Coreia do Norte, empatar com a Colômbia e vencer a Costa Rica para ficar no segundo lugar do Grupo E, marcando os três primeiros golos na competição precisamente contra as costa-riquenhas, Portugal defrontava Espanha na primeira ronda a eliminar da competição que está a decorrer na Polónia. Para trás ficava a euforia, que incluiu muitos saltos ainda em campo no jogo decisivo do passado domingo e até um típico comboio ao som de “Apita o Comboio” e enquanto a selecionadora falava com a comunicação social.

“Espanha é uma séria candidata ao título. Gosta muito de ter a bola e é muito agressiva na pressão. Mas nós temos capacidade individual e coletiva para sermos competitivas. A Colômbia e a Coreia do Norte foram adversárias muito poderosas, que nos obrigaram a passar por momentos defensivos durante algum tempo, e isso pode ser vantajoso para este jogo, estamos mais confortáveis a defender. É verdade que temos menos golos marcados, mas temos outros argumentos. E estamos melhores agora do que no primeiro jogo. É sempre bom lidar com momentos históricos, mas o mais relevante é perceber que temos qualidade. Por mais que o passado possa dizê-lo, é sempre importante demonstrá-lo no presente. Esta equipa cresce sempre na adversidade”, explicou Marisa Gomes.

Assim, em Katowice, a selecionadora nacional mudava apenas uma peça face ao último jogo, promovendo Neide Guedes à titularidade em detrimento de Carolina Santiago e juntando-a a Anna Marques e Maísa Correia no ataque. Do outro lado, numa Espanha que ficou no primeiro lugar do Grupo F à frente de Nigéria, China e Nova Caledónia, David Aznar apostava em Marisa García e Daniela Agote no setor mais adiantado.

As espanholas abriram o marcador ainda dentro dos dez minutos iniciais, com Noe Bejarano a fazer o que quis na grande área portuguesa e Marisa García, na cara de Nair Pina, não falhou (9′). Portugal teve alguma dificuldade para reagir ao golo sofrido e permitiu a superioridade adversária durante demasiado tempo, acabando por acordar ainda dentro da primeira meia-hora e com um lance em que Maísa Correia, isolada, concedeu uma grande defesa a Laia López (25′).

Já depois de Rosalía Domínguez ficar perto de aumentar a vantagem com um remate que passou muito perto da trave (31′), Marisa Gomes foi forçada a fazer a primeira substituição por lesão de Mafalda Mariano, lançando Rita Melo. As espanholas voltaram a assumir algum ascendente depois da meia-hora, com Elene Gurtubay a acertar na trave já nos últimos minutos da primeira parte (38′), e tudo ficou ainda maior para as portuguesas já nos descontos, quando Neide Guedes viu cartão vermelho direto na sequência de uma entrada dura. Ao intervalo, em inferioridade numérica, Portugal estava a perder com Espanha.

Marisa Gomes voltou a mexer logo no início da segunda parte, trocando Anna Marques por Carolina Santiago, enquanto que David Aznar tirou Ainoa Gómez para colocar Cristina Librán. A infelicidade de Portugal manteve-se, com Marta Gago a cometer grande penalidade logo nos instantes iniciais depois do intervalo, mas a guardiã das esperanças nacionais voltou a aparecer: na conversão, Daniela Agote rematou e Nair Pina voou para defender e manter o resultado (52′). 

Irune Dorado colocou a bola no fundo da baliza pouco depois, com o lance a ser anulado pelo VAR por falta sobre Nair Pina na área na sequência do canto (62′), mas Espanha acabou mesmo por aumentar a vantagem numa jogada confusa em que Iara Lobo, com uma interceção em cima da linha, acabou por acertar na guarda-redes e motivar um autogolo (70′).

Marisa Gomes ainda lançou Diana Costa e Luana Bessa pouco depois, mas já nada mudou. Portugal perdeu com Espanha e está fora do Campeonato do Mundo Sub-20, sendo que as espanholas vão defrontar o Brasil na próxima ronda — mas nada apaga uma participação de estreia que já é histórica e que dá mais um selo de qualidade e garantia à formação do futebol feminino nacional.