Não foi uma mudança radical mas pelo menos teve o condão de mudar qualquer coisa na história deste Mundial: na Áustria, na nona corrida da temporada, e sem que nada o fizesse prever, não foi um Mercedes a ganhar (Max Verstappen, da Red Bull, chegou ao triunfo) e Lewis Hamilton não conseguiu chegar ao pódio (depois de seis vitórias e dois segundos lugares). Na classificação, o rombo não teve grande impacto mas houve provavelmente uma pergunta na antecâmara do Grande Prémio da Grã-Bretanha que surgiu talvez por esse resultado menos conseguido da época do britânico: a influência da vida extra competição.

Max Verstappen vence o GP Áustria em dia para esquecer da Mercedes

“É muito fácil falar. As pessoas têm as suas opiniões, eu tenho cinco título mundiais”, atirou o piloto da Mercedes em conferência, antes de trocar algumas palavras mais descontraídas com o companheiro de equipa Valtteri Bottas e acelerar até ao cerne dessa questão que não lhe caiu nada bem: “A minha preparação está sempre em primeiro lugar, senti-me fantástico durante todo o fim de semana e a pressão aqui é sempre alta, porque é o Grande Prémio em minha casa. Faço a melhor preparação possível. No final, faço o que quero e não o que outros acham que devo fazer. Só faço aquilo que acho que é o melhor para mim e, mais uma vez, foi isso que me levou a ganhar cinco Mundiais. Nunca se esqueçam da quantidade de vitórias que tenho”.

“O mais importante é reconhecer que somos todos pessoas diferentes e precisamos de enquadramentos distintos para termos um bom rendimento. O Lewis é alguém que precisa de poder perseguir as suas outras ambições e interesses. Em vez de colocar alguém a dizer que é assim que um piloto se deve comportar, percebi muito cedo que, dando-lhe a liberdade para perseguir os interesses dele, podíamos extrair maior rendimento em pista. Precisa tirar a cabeça do automobilismo. Se ele puder fazer um espetáculo de moda que o entusiasme, ou gravar alguma música, ou fazer snowboard com os amigos, esquece-se da competição e pode voltar mais forte e com maior energia”, acrescentara antes à BBC Toto Wolff, diretor da Mercedes.

Apesar da “derrota” na qualificação com o companheiro de Mercedes por nove milésimas de segundo, Hamilton estava apostado em responder aquilo que tomou quase como uma provocação sem que a intenção fosse aparentemente essa. E Silverstone viu mais uma vez o melhor do pentacampeão mundial, que fez mais uma grande corrida alternando as melhores voltas com o piloto finlandês e chegando ao primeiro lugar antes de meio da corrida, posição que não mais voltaria a deixar até ao final.

Na terceira volta, Hamilton ainda conseguiu ultrapassar Bottas e assumir a frente da corrida mas, menos de uma volta depois, o companheiro tinha dado o “troco” e reconquistara o primeiro lugar enquanto havia outro foco muito interessante de seguir na corrida com a luta entre Charles Leclerc (Ferrari) e Max Vertappen (Red Bull) pelo quarto lugar, atrás do Ferrari de Sabastian Vettel. A ida às boxes de Hamilton depois de Bottas, a entrada em pista do safety car (na sequência de uma saída de pista de Antonio Giovinazzi, da Alfa Romeo, que acabou mesmo por ficar fora de prova nesse momento) a velocidade do britânico a fazer voltas abaixo do minuto e 30 segundos acabaram por dar alguma margem ao pentacampeão mundial numa altura em que, caso não fosse obrigado, não estava obrigado a parar de novo ao contrário da posição de Bottas. Mais atrás, um choque entre Vettel e Verstappen tirou o alemão do top 10 e o holandês do pódio, entregue “de bandeja” a Leclerc.

No final, Hamilton conseguiu mesmo regressar às vitórias, neste caso a sétima em dez provas do Mundial, naquele que foi um Grande Prémio da Grã-Bretanha marcado por mais uma homenagem a Charlie Whiting, antigo diretor de corridas da Fórmula 1 por mais de duas décadas que faleceu em março aos 69 anos, com o filho Justin, de 12 anos, a tocar nas luzes para o início da prova. Também por isso, este foi um dia especial para o britânico, que se tornou o piloto com mais vitórias em Silverstone (seis, em 2008, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2019) e igualou Prost na lista dos corredores com mais triunfos em “casa”.