Entrar no Krasnodar Stadium, ou naquilo que se denominou com o tempo de “Galiseu”, é mais do que olhar para um recinto moderno com uma lotação de 35.000 lugares. É mais do ficar a olhar pasmado para o enorme ecrã 360º que se torna amor à primeira vista para qualquer pessoa que ali chegue. É mais do que ver onde os byki (touros em russo) chegaram em pouco mais de uma década depois da fundação. Ali está a visão de um bilionário russo, daqueles que integram a lista dos mais ricos do mundo da Forbes, que pode ter tudo o que quer mas que prefere querer aquilo que todos deviam ter: uma ideia, um projeto, uma marca diferenciadora que distancie o clube do poder dos rublos e dê lógica a um negócio que pode ser acompanhado de valores.

FC Porto vence Krasnodar na Rússia por 1-0 e dá passo importante rumo ao playoff da Champions

Sergey Galitsky começou com apenas um supermercado. Simples, com bens de primeira necessidade. Chamou-lhe Magnit, o sítio que praticava os preços baixos. Depois veio o segundo. E a seguir o terceiro. E o quarto. Hoje tem uma cadeia de 15 mil espaços com um total de 400 mil funcionários. Quando se aventurou no mundo do futebol, seguiu o mesmo princípio e criou um clube que fosse crescendo de forma sustentada, que não tivesse constantes défices na balança entre compras e vendas, que fosse capaz de se destacar pela capacidade de scouting de talentos em vez de apostar nos jogadores feitos. Um clube rico nas infraestruturas mas que se quer fazer rico em termos desportivos com uma política equilibrada no plano financeiro. Tudo isto é uma boa forma de fazer uma analogia para a primeira versão do novo FC Porto de Sérgio Conceição no arranque oficial de época.

37 dias depois do arranque da pré-temporada, os dragões não vacilaram no primeiro de quatro degraus rumo ao tão desejado jackpot da fase de grupos da Liga dos Campeões – que é como quem diz, a um encaixe imediato de 44 milhões de euros a que se pode somar um montante bem maior consoante o rendimento desportivo. E o que se viu nesta ida à Rússia, que confirmou o bom aproveitamento no país (seis vitórias em oito jogos)? Uma equipa capaz de controlar o encontro enquanto conseguiu manter o nível em termos físicos, a assumir a responsabilidades da partida e a justificar pelo que tinha feito antes a vitória em cima do minuto 90 quando já jogava mais com o nulo para a segunda mão da terceira pré-eliminatória de acesso à Champions.

Romário Baró, a grande surpresa no onze inicial, teve um bom rendimento na primeira meia hora antes de ir caindo com o jogo mais físico que o Krasnodar conseguiu impor; Marchesín arrancou uma estreia de guarda-redes de “grande”, passando mais de 80 minuto sem fazer uma única defesa antes de se destacar num voo que segurou a única oportunidade flagrante dos russos; Marcano voltou 15 meses depois às opções dos azuis e brancos como se nunca tivesse saído do Dragão; e Sérgio Oliveira, o repatriado que voltou após empréstimo ao PAOK, foi o melhor em campo num lugar que foi seu, perdeu-se no tempo mas se manteve vivo com o espaço deixado pela saída de Herrera. O FC Porto ainda não tem a capacidade de criar uma grande cadeia nem tem um manancial muito grande de alternativas mas ganhou com uma espécie de primeiro Magnit que tem tudo para ir crescendo de forma sustentada quando nomes como Saravia, Nakajima ou Uribe já estiverem enquadrados na ideia da equipa.

Ficha de jogo

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Krasnodar-FC Porto, 0-1

1.ª mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões

Krasnodar Stadium, em Krasnodar (Rússia)

Árbitro: Tobias Stieler (Alemanha)

Krasnodar: Safonov; Petrov, Martynovich, Spajic, Ramirez; Cabella, Kambolov (Fjóluson, 72′), Vilhena; Wanderson, Namli (Suleymanov, 66′) e Berg (Ari, 62′)

Suplentes não utilizados: Kritsyuk, Skopintsev, Olsson e Stotski

Treinador: Murad Musaev

FC Porto: Marchesín; Wilson Manafá, Pepe, Marcano, Alex Telles; Danilo, Sérgio Oliveira, Romário Baró (Luís Díaz, 55′); Corona (Otávio, 85′), Marega e Soares (Zé Luís, 74′)

Suplentes não utilizados: Vaná; Mbemba, Bruno Costa e Fábio Silva

Treinador: Sérgio Conceição

Golo: Sérgio Oliveira (89′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Kambolov (27′), Danilo (39′), Romário Baró (49′), Corona (63′)

Os dragões entraram melhor no encontro também muito por culpa da influência dos posicionamentos de Romário Baró e Marega na equipa. Com uma linha defensiva subida, aproveitando a capacidade de Marchesín em antecipar uma possível exploração da profundidade por parte dos russos (que ou eram apanhados em fora de jogo ou desistiam do lance por perceberem que o número 1 argentino chegaria primeiro à bola), os movimentos do médio mais por dentro para dar superioridade aos azuis e brancos no corredor central permitiram muitas recuperações rápidas ainda no meio-campo contrário, olhando sempre também para a velocidade de Marega com passes mais verticais que apanhassem a defesa do Krasnodar em contra pé.

Ainda nos dez minutos iniciais, Soares teve uma primeira boa chance na área mas acabou por rematar contra uma muralha de pernas dos defesas russos que entretanto se ergueu (6′), antes de tentar de longe por cima da trave (10′); depois, Marega teve a oportunidade mais flagrante do primeiro tempo, com Sérgio Oliveira a conseguir recuperar a bola em zona mais alta antes de isolar o maliano na área para o remate que saiu ao lado (12′). Mais tarde, o africano que começou mais tarde a pré-época voltou a ganhar na zona entre central e lateral esquerdo, cruzou mas Corona, na insistência, atirou à figura de Safonov (23′).

Apesar de estar apenas a fazer o primeiro jogo oficial da época, contra quatro do Krasnodar que começou mais cedo a Liga russa, o FC Porto ia controlando por completo o encontro com mais ou menos bola e o estreante Marchesín não fez uma única defesa na primeira parte, nem mesmo num livre muito perto do limite da área que Berg cobrou por cima (40′). Aliás, as duas iniciativas atacantes que criaram algum burburinho na Krasnodar Stadium por parte dos visitados acabaram por nascer num ligeiro atraso de Romário Baró no movimento de dentro para fora na ajuda a Manafá, ambas cortadas na área por Marcano.

No segundo tempo, o Krasnodar surgiu de forma diferente, mais capaz de repartir o encontro ainda que sem conseguir criar uma oportunidade para testar Marchesín e ficou a pedir grande penalidade num lance onde um cruzamento a um metro de Marcano acabou por bater no braço do espanhol, antes de Vilhena tentar um remate de fora da área muito ao lado. Já o FC Porto falhava nas transições e na capacidade de esticar rápido o seu jogo às zonas ofensivas, o que motivou uma substituição logo aos 55′, com a entrada do reforço colombiano Luís Díaz para a saída de Romário Baró para dar outra largura ao ataque azul e branco.

O sul-americano mostrou alguns apontamentos interessantes mas andou muitas vezes num diapasão errado por falta de rotinas com os companheiros mais adiantados, o que, a juntar à quebra física de Marega, Corona ou Soares, deixou os azuis e brancos com mais presença mas menor pragmatismo no último terço do campo. O brasileiro, num cabeceamento ao primeiro poste ao lado, ainda deixou um sinal de perigo mas percebia-se que era mais altura de segurar o nulo do que propriamente arriscar uma vitória que se podia transformar em derrota, sobretudo depois da fabulosa defesa de Marchesín a remate de Cabella isolado na área (81′). Foi aí que o FC Porto construiu a “estrelinha” do jogo que brilharia a um minuto do final, quando Sérgio Oliveira coroou uma grande exibição com um livre direto que deixou Safonov pregado ao relvado e deu a vitória aos dragões.