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A morte de Epstein: a fúria das vítimas, as teorias da conspiração e o ponto de situação da investigação

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Milionário acusado de violar menores e de tráfico sexual suicidou-se na prisão. Vítimas estão revoltadas e esperam que haja mais acusados no caso. Na Internet, as teorias da conspiração proliferam.

Manifestante segura cartaz com foto de Jeffrey Epstein, acusado de abuso sexual de menores e tráfico sexual

Getty Images

A morte do milionário Jeffrey Epstein na sua cela, este sábado, está envolta em dúvida e confusão. Oficialmente, as autoridades garantem que o milionário — acusado de abuso de menores, tráfico sexual e conspiração — se enforcou, mas ainda não deram explicação oficial para o facto de não estar a ser vigiado, apesar de já ter demonstrado tendências suicidas.

A morte de Epstein, que decorreu precisamente enquanto aguardava julgamento (que lhe poderia valer 45 anos de prisão), já provocou uma série de reações, desde as vítimas até a políticos. Há declarações de raiva e desalento, mas também muitas teorias da conspiração a circular. E, no meio de tudo isto, há questões que continuam em aberto: Alguma vez saberemos quem eram os cúmplices de Epstein? O caso continuará a ser investigado? E o que podem agora conseguir as vítimas?

A raiva das vítimas por não poderem enfrentar Epstein em tribunal: “Vocês roubaram-nos isto”

As primeiras reações das vítimas à morte de Jeffrey Epstein foram sobretudo de raiva, por considerarem que o suicídio do milionário impede que seja feita justiça. “Estou zangada porque Jeffrey Epstein não terá de enfrentar as sobreviventes do seu abuso em tribunal”, declarou Jennifer Araoz, que afirma ter sido violada pelo milionário, na sua mansão, quando tinha 15 anos.

Nós temos de viver com as cicatrizes das suas ações para o resto da nossa vida, enquanto que ele nunca terá de enfrentar as consequências dos crimes que cometeu, da dor e do trauma que provocou em tantas pessoas”, acrescentou Araoz.

Também Jena-Lisa Jones, que acusa Epstein de a ter molestado quando tinha 14 anos, se diz “furiosa e magoada”, porque “mais uma vez ele achou que estava acima de nós e escolheu o caminho mais fácil”. Michelle S. Licata, abusada aos 16 anos por Epstein segundo a acusação, reagiu de forma semelhante: “Nunca quis que ele morresse. Queria era que ele fosse responsabilizado pelas suas ações”, afirmou.

Outra das vítimas do milionário, não identificada, também se disse “zangada”. “Espero que quem deixou que isto acontecesse também enfrente alguma consequência. Vocês roubaram-nos isto, este grande processo de cura que precisávamos para conseguir avançar com as nossas vidas.”

Na internet circulam as teorias da conspiração — e o Presidente concorda com uma delas

O facto de a morte de Epstein ter sido inesperada e, possivelmente, poder ter sido evitada, foi combustível para alimentar as muitas teorias da conspiração que começaram a circular em torno da sua morte. Uma delas, propagada pelo ator e comediante Terrence K. Williams, foi inclusivamente partilhada pelo próprio Presidente Donald Trump, num tweet que dizia “Jeffrey Epstein tinha informação sobre Bill Clinton e agora está morto”. O porta-voz de Clinton, Angel Urena, reagiu de imediato, classificando a afirmação como “ridícula e obviamente falsa”.

Também outra figura próxima de Trump, o antigo mayor de Nova Iorque Rudy Giuliani, reagiu à morte de Epstein com o mesmo tom: “Quem estava a ver? O que mostram as câmaras? Sigam as motivações”, aconselhou no Twitter, dando a entender que alguém teria razões em querer Epstein morto.

Outra teoria que circulou online, também ligada a Clinton, responsabilizava a administração de Barack Obama pelo acordo que Epstein fez com as autoridades da Flórida no passado, declarando-se culpado pelo crime de recurso à prostituição com menor para evitar acusações mais graves. A ideia por trás da teoria é que a administração Obama teria feito esse acordo para proteger Bill Clinton. O problema é que o entendimento com as autoridades foi a nível estatal, na Florida, e não federal. Para além disso, o acordo foi negociado ainda durante a presidência de George W. Bush e não de Obama, deitando por terra a teoria de encobrimento. Os procuradores responsáveis por essa negociação estão atualmente a ser investigados, como explica o Miami Herald.

Mas as teorias da conspiração também tentaram envolver o atual Presidente, como a de uma fotografia com Epstein, Trump e a filha do Presidente Ivanka, ainda jovem, que começou a circular — mas que, como garante o Telegraph, é falsa.

mayor de Nova Iorque — e candidato presidencial às primárias do Partido Democrata — Bill de Blasio também alegou que é “demasiado conveniente” que Epstein morra antes de poder incriminar outros. “O que muitos de nós querem saber é: o que é que ele sabia? Quantos milionários faziam parte das atividades ilegais em que ele participava?”, afirmou Blasio aos jornalistas. “Essa informação não morreu com Jeffrey Epstein. Isso tem de ser investigado também.”

Cúmplices, indemnizações, confisco de bens. A investigação a Epstein morre aqui?

As autoridades judiciais concordam com De Blasio no ponto que diz respeito à investigação, com o procurador do distrito sul de Nova Iorque a garantir que o caso não será esquecido: “Para aquelas jovens corajosas que já se chegaram à frente e para as muitas outras que ainda não o fizeram, deixem-me reiterar que continuamos comprometidos com mantermo-nos ao vosso lado e a nossa investigação continua”, afirmou Geoffrey Berman, de acordo com o New York Times.

Se Epstein já não pode ser judicialmente condenado, quaisquer co-conspiradores que estejam vivos podem sê-lo. A CNN explica que, apesar de Epstein ter sido o único acusado neste caso, há provas na investigação que apontam para três empregados do milionário que ajudariam a facilitar as “massagens” dadas por menores de idade — e que, invariavelmente, redundavam em atos sexuais.

Há toda uma rede que permitiu que isto ocorresse e está na altura de todos aqueles que faziam parte dela responderem perante a Justiça”, reivindicou Kimberly Lerner, advogada da vítima Jennifer Araoz.

Uma dessas três pessoas pode mesmo já ser conhecida. De acordo com o Washington Post, os testemunhos das vítimas apontam para Ghislaine Maxwell, braço-direito do milionário que terá ajudado a recrutar as jovens que eram depois violadas e a encobrir os crimes de Epstein. A (também) milionária, contudo, vive atualmente fora dos Estados Unidos e pode ser difícil acusá-la formalmente, explica o mesmo jornal.

O círculo íntimo de Epstein ao longo dos anos incluiu figuras de renome como os já mencionados presidentes Donald Trump e Bill Clinton, mas não só. Também o príncipe André (filho da Rainha Isabel II), o ex-governador do México Bill Richardson e outros notáveis da sociedade norte-americana como o cientista Marvin Minsky, o advogado Alan Dershowitz e o agente de modelos Jean-Luc Brunel foram apontados como sendo participantes nas festas do milionário. A especulação sobre se algum deles estaria envolvido nas atividades sexuais ilegais de Epstein está agora ao rubro, embora oficialmente todos afirmem desconhecer a prática de crimes.

Certo é que os advogados das vítimas já confirmaram que irão avançar com outro tipo de processos, nomeadamente com o pedido de indemnizações. “Preferíamos que ele estivesse vivo para enfrentar a Justiça. Os nossos casos civis contra o património dele vão avançar. As vítimas merecem ser recompensadas pelo dano para a vida toda que lhes foi causado”, afirmou a advogada Lisa Bloom. Outros advogados confirmaram entretanto à agência Reuters que pretendem fazer o mesmo.

Mas as investigações criminais a Epstein e aos que o rodeiam podem vir ainda a assumir outra forma: segundo o New York Times, os procuradores e o FBI estarão a investigar crimes financeiros relacionados com a prática de tráfico sexual, como o branqueamento de capitais. Isso significa que o património de Epstein pode vir ainda a ser confiscado e vendido. De acordo com o jornal, o dinheiro pode ser usado para compensar as vítimas sexuais do milionário.

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