Torna-se difícil dizer que Simone Biles é a melhor ginasta do seu tempo. Não por não ser suficientemente boa, não por não ter títulos suficientes, não por não ter suficientes anos de carreira. Torna-se difícil dizer que Simone Biles é a melhor ginasta do seu tempo porque a norte-americana insiste em provar que essa afirmação é um eufemismo. Depois das quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio, depois de mudar o paradigma da ginástica internacional ao mostrar que as ginastas não são bailarinas e que um corpo atlético pode ser tão ou mais elegante que um corpo tradicionalmente artístico, depois de explicar as consequências e as nódoas negras que o escândalo Larry Nassar deixou, Simone Biles continua a fazer o que nunca havia sido feito. E vai insistindo em provar que não é a melhor ginasta do seu tempo — é a melhor ginasta de todos os tempos.

Durante o fim de semana, a ginasta competiu nos Campeonatos Nacionais dos Estados Unidos, naquela que é a primeira etapa mais a sério na preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, já no próximo verão. Depois de ter falado sobre o escândalo de abusos sexuais no interior da seleção olímpica — e de ter sublinhado e reiterado as marcas que Larry Nassar, o médico condenado a 175 anos de prisão, lhe deixou de forma permanente –, Simone Biles iniciou a corrida em busca de um sexto título nacional. Conquistou-o, tornando-se a primeira mulher a ser campeã nacional seis vezes em mais de 70 anos, e até teve margem de manobra para recuperar de um arranque morno que, sem esconder o perfecionismo, a obrigou a murmurar palavrões e protagonizar imagens que se tornaram rapidamente virais nas redes sociais.

Recuperou, arrasou a concorrência e deixou mais uma marca para o futuro. Durante o exercício de chão, tornou-se a primeira mulher na história a conseguir executar na perfeição um triple-double, um duplo salto mortal com três rotações. No final da performance, ciente de que tinha alcançado aquilo a que se tinha proposto e mais ainda, riu-se, festejou e não escondeu a alegria. Antes, na trave, já se tinha tornado a primeira ginasta de sempre, homem ou mulher, a conseguir uma saída perfeita de duplo mortal com dupla pirueta. Dito assim, tudo parece simples e quase sem significado: com as imagens, percebe-se que Simone Biles é um atentado à gravidade.

Esta segunda-feira, de forma expectável, os feitos da ginasta de apenas 22 anos estão em destaque na comunicação social norte-americana. Mas é o USA Today, através de um artigo de opinião, que melhor descreve o que significa para a ginástica aquilo que Simone Biles fez este fim de semana. “Imaginem Muhammad Ali no Rumble in the Jungle. O jogo em que o Michael Jordan estava com gripe. A vitória da Serena Williams no Open da Austrália enquanto estava grávida. O Michael Phelps a ultrapassar o Milorad Cavic para ganhar a sétima medalha de ouro nos Jogos de Pequim. Há noites (…) em que somos recordados de que estamos a ver grandeza à frente dos nossos olhos. E não é a grandeza de que se fala quando se trata de todos os atletas acima da média. A verdadeira grandeza é aquela que as pessoas vão recordar durante décadas, reproduzindo os detalhes como se tivesse acontecido apenas um ou dois anos antes”, escreveu Nancy Armour.

A menos de um ano daqueles que serão os últimos Jogos Olímpicos da carreira, segundo a própria, Simone Biles continua a acrescentar capítulos às já longas páginas que escreveu na história da ginástica. Não é a melhor do seu tempo, não é a melhor no chão, não é a melhor na trave: é a melhor de sempre.