Rádio Observador

Liga dos Campeões

A viragem da China na Europa, onde se escreveu crise onde estava oportunidade (a crónica do FC Porto-Krasnodar)

126

Falhas individuais e coletivas, azar até no momento do 3-0 por Telles estar fora: o que podia ter corrido mal na primeira parte correu pior e FC Porto perdeu com Krasnodar (3-2), caindo da Champions.

O desânimo de Danilo, que voltou à equipa após problemas físicos, e Marcano: derrota afastou FC Porto do sonho da Champions

JOSÉ COELHO/LUSA

“Essa parece-me uma pergunta que é mais uma acha para a fogueira…”. A meio da conferência, um jornalista fez a questão sobre o atraso no treino e na chegada à sala de imprensa do Estádio do Dragão, cerca de uma hora e meia depois do previsto. E o técnico azul e branco explicou, deixando primeiro um “reparo” à pergunta. “Posso estar a ver um vídeo de 20 minutos que pode alongar-se por 40 minutos… Estivemos a trabalhar, não estivemos a brincar. Estivemos a preparar o jogo. Queríamos cumprir o que estava estipulado, o jantar estava marcado para as 19h30 mas são 19h10 e ainda estou aqui a falar com vocês. E queria ver o jogo do Vitória [de Setúbal] que vamos defrontar no sábado mas já não vai dar para ver o início”, disse Sérgio Conceição.

Não é propriamente a coisa mais normal haver este tipo de atrasos num encontro europeu mas também pode acontecer. E para isso basta, por exemplo, que uma palestra ou uma análise a um adversário se prolongue um pouco (ou muito) mais. Mas esta é também uma imagem que podia funcionar como espelho do que tem sido o arranque de temporada do FC Porto: com mudanças na espinha dorsal do conjunto, não só no corredor central com as saídas de Felipe, Éder Militão e Herrera mas também nas alas ofensivas onde deixou de haver um fantasista com as características de Brahimi, os dragões estão numa luta contra o tempo. Que ganharam na Rússia, que perderam na estreia na Liga, em Barcelos. E que não podiam perder com Krasnodar.

Não podiam mas perderam. E perderam porque, durante a primeira parte, a equipa foi somando erros atrás de erros frente a um conjunto do Krasnodar mais organizado em termos defensivos e mais capaz no plano atacante, que chegou ao 3-0 nos primeiros três remates enquadrados com a baliza de Marchesín. A derrota por 3-2 que ditou a saída da Liga dos Campeões (para a entrada na Liga Europa) não é o fim de um novo projeto com algumas novidades novas liderado por Sérgio Conceição nem é o fim de uma temporada que ainda vai em agosto. No entanto, muda por completo o paradigma. E se é verdade que existem lacunas no plantel azul e branco, bem visíveis nestes primeiros jogos, a abordagem ao mercado após perder 44 milhões de euros pelo possível acesso à fase de grupos da Champions mudou. Foi uma viragem da China na Europa. E da oportunidade nasceu uma “crise”.

Ficha de jogo

FC Porto-Krasnodar, 2-3 (3-3 nas duas mãos)

2.ª mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Marco Guida (Itália)

FC Porto: Marchesín; Saravia (Zé Luís, 37′), Pepe, Marcano, Alex Telles; Danilo, Sérgio Oliveira (Uribe, 49′); Corona (aboubakar, 86′), Luis Díaz, Nakajima e Marega

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Mbemba, Wilson Manafá e Romário Baró

Treinador: Sérgio Conceição

Krasnodar: Safonov; Petrov, Martynovich, Spajic, Ramírez; Kambolov, Cabella (Stotski, 80′); Tonny Vilhena, Suleymanov (Fjóluson, 65′), Wanderson e Marcus Berg (Ignatyev, 73′)

Suplentes não utilizados: Kritsyuk, Olsson, Kaio e Namli

Treinador: Sergei Matveev

Golos: Vilhena (3′), Suleymanov (13′ e 34′), Zé Luís (57′) e Luis Díaz (76′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Kambolov (39′), Vilhena (45′), Marega (53′), Uribe (61′), Stotski (82′), Spajic (90+5′) e Zé Luís (90+5′)

Com apenas dois golos e de bola parada (livre direto na Rússia, penálti em Barcelos) em 29 remates tentados nos dois primeiros jogos da temporada, Sérgio Conceição procurou outras soluções ofensivas com duas das caras novas que mais expetativas traziam no decorrer da pré-época, Luis Díaz e Nakajima. E não deixou de ser curioso perceber que 80% ou 90% (uma estimativa de cabeça que não andará longe dos números reais) dos adeptos azuis e brancos que foram sendo ouvidos antes do encontro pelo Porto Canal apontarem o japonês como autor de um dos golos. Em comum, a 100%, era a crença na vitória. 1-0, 2-0 ou 5-0, os visitados ganhavam sempre e não sofriam. Uma análise que demorou apenas três minutos a cair por terra.

No primeiro canto do jogo, que acabaria por dar o primeiro remate do jogo, o Krasnodar marcou e empatou a eliminatória: numa bola parada marcada no lado direito do ataque, o corte inicial ao primeiro poste acabou por sair incompleto e o holandês Vilhena, aproveitando um erro de marcação dos azuis e brancos, rematou sem hipóteses para Marchesín (3′). Sem que nada o justificasse ou fizesse esperar, a eliminatória voltava à estaca zero antes de dez minutos que viriam a marcar e muito esta eliminatória: com o FC Porto instalado no meio-campo adversário à procura de espaço para alvejar a baliza de Safonov (como Nakajima fez, à figura do guarda-redes russo), e com as bancadas cheias do Dragão a empurrarem a equipa para a frente, uma transição após ressaltos no meio-campo e com várias falhas posicionais foi aproveitada para isolar Suleymanov para o 2-0 (13′).

Se o golo de Vilhena tinha sido um dos mais rápidos de sempre sofridos pelos dragões em provas europeias, o 2-0 da única cara nova no onze dos russos acabou por ser mesmo histórico – nunca o FC Porto estivera em desvantagem numa partida da UEFA com este resultado dentro do primeiro quarto de hora. Como se de uma palavra chinesa se tratasse, isso poderia ser o equivalente a crise ou poderia ser o equivalente de oportunidade. Os minutos foram passando e provaram que era mais a primeira do que a segunda: com a defesa russa mais baixa do que em Krasnodar para retirar espaço para a profundidade de Marega, os azuis e brancos usaram e abusaram da meia distância (por Nakajima, Sérgio Oliveira e Luis Díaz) e acabaram por sofrer o terceiro golo em mais uma transição, com o pormenor de Alex Telles estar fora de campo a receber assistência médica e Suleymanov ter enfrentado 1×1 Luis Díaz antes de fletir para o centro e rematar de pé esquerdo puxado ao poste (34′).

Saravia, internacional argentino que custou mais de cinco milhões de euros ainda antes da Copa América, fazia a sua estreia mas saiu ainda antes do intervalo para a entrada de Zé Luís, ouvindo já alguns assobios que, mais do que uma reprovação do público no Dragão, representava o estado de ansiedade que se sentia na Invicta. No jogo em que a equipa não podia falhar, tudo o que podia correr mal corria ainda pior, não por ação de uma qualquer lei de Murphy mas porque eram demasiados erros individuais (nas transições sobretudo) e coletivos (na forma de abordar, mal, a defesa mais baixa do Krasnodar). E o intervalo chegou com as contas a apontarem apenas para um sentido: o FC Porto teria de desafiar o impossível para chegar à Champions.

Era preciso recuar quase 90 anos para se ver um encontro onde o FC Porto tinha recuperado de 0-3 para 3-3, no velho e extinto Campeonato de Portugal frente ao Belenenses. E era preciso recuar 25 anos para se registar uma reviravolta num jogo europeu a partir de um 0-3 (Werder Bremen-Anderlecht, 5-3). Um ponto era certo: nunca os dragões tinham saído a perder ao intervalo num encontro da UEFA em casa em 183 partidas. Mais do que uma segunda parte, mais do que 45 minutos, o FC Porto jogava uma parte significativa da temporada mas o muito que fez foi pouco perante os erros registados no primeiro tempo.

Já depois de uma grande ocasião de Berg, isolado na área, evitada com uma enorme intervenção de Marchesín, e com Uribe a fazer a estreia oficial pelos dragões depois da lesão de Sérgio Oliveira (que saiu de maca), Zé Luís conseguiu reduzir de cabeça após cruzamento da esquerda de Alex Telles e mudou as características do jogo (57′), que só não teve mais golos nos minutos seguintes porque Safonov travou as tentativas de Marega e Zé Luís – um terror para o Krasnodar que, entre Spartak Moscovo e FC Porto, marcou seis golos noutros tantos jogos. No entanto, por muito coração que a equipa fosse demonstrando, a cabeça já não era a mesma e as pernas não respondiam ao necessário. Com isso, os minutos iam passando com o 3-1.

Luis Díaz, num remate de fora da área, conseguiu ainda reduzir para 3-2 a pouco menos de 15 minutos do final da partida mas o FC Porto não mais conseguiria criar oportunidades flagrantes de perigo numa fase do encontro onde a maior frescura física dos russos acabou por fazer a diferença (começaram mais cedo a temporada e estiveram sempre em vantagem no marcador). De forma inesperada, os dragões perderam mesmo em casa pela segunda vez na história uma eliminatória em que partiam com um avanço de 1-0 conseguido fora, caindo assim para a Liga Europa no penúltimo passo antes da Champions.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)