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Sustentabilidade

“PIB submete sociedades a um aumento contínuo da produção”, avisa Rede Decrescimento

A organização Rede para o Decrescimento que a importância do PIB "submete as sociedades (...) a um aumento contínuo da produção", um "automatismo" e uma "cegueira (...) extremamente perigosa".

NUNO VEIGA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

A organização Rede para o Decrescimento disse à Lusa que a importância do Produto Interno Bruto (PIB) “submete as sociedades (…) a um aumento contínuo da produção”, um “automatismo” e uma “cegueira (…) extremamente perigosa” num tempo de “emergência ambiental”.

De acordo com um dos coordenadores da rede, Jorge Leandro Rosa, o PIB “mede a produção de bens e serviços”, mas “não toma em conta a natureza desses bens nem desses serviços” e “não a articula nem com o contexto da sociedade nem com o pensamento do bem-estar dos cidadãos”.

“O PIB tem vindo a ser cada vez mais um indicador abstrato, e, de alguma forma, submete as sociedades a esta ideia abstrata de um aumento contínuo da produção de bens e serviços”, disse Jorge Leandro Rosa à Lusa.

Um dos responsáveis pela Rede para o Decrescimento em Portugal considerou também, referindo-se à “espécie de automatismo em que a nossa sociedade caiu de que é necessário crescer a todo o custo”, que “a cegueira do próprio sistema que tudo absorve” lhe parece “extremamente perigosa”.

“E ela é tanto mais perigosa hoje quando nós estamos numa situação, como todo o cidadão sabe, de emergência ambiental, em que o meio ambiente é esmagado por este aumento constante de produtividade, que envolve outras dimensões, como por exemplo as da extração de matérias primas”, afirmou o responsável.

Jorge Leandro Rosa referiu à Lusa que o “extrativismo, a produtividade e o consumo” fazem parte de um “ciclo constante (…) cada vez mais desligado de uma perspetiva de bem-estar e justiça, para estar cada vez mais a funcionar em círculo fechado”.

Para o membro da Rede para o Decrescimento, “há muitos exemplos de como o índice de topo do PIB não corresponde muitas vezes a sociedades mais justas e mais igualitárias”, dando o exemplo dos Estados Unidos, “um caso gritante”.

Contudo, Jorge Leandro Rosa não deixa de referir que “é preciso um certo nível de riqueza” nas sociedades, “mas esse nível de riqueza deve ser não o máximo possível mas o suficiente, o bastante”.

Quando o nível de riqueza é o suficiente, as próprias sociedades “se reorganizam”, afirmou, orientando “as suas prioridades para a redistribuição” e “para formas de aproveitamento de recursos”, como a reciclagem, de acordo com o responsável.

Para Jorge Leandro Rosa, a preponderância do PIB na sociedade está ligada aos recursos energéticos e à vulgarização do seu acesso, proveniente das revoluções industriais sustentadas em fontes como “o carvão, no século XIX, e o petróleo, sobretudo, no século XX”.

“Estes ciclos [energéticos] obviamente que fizeram disparar os indicadores económicos, mas eles têm uma base concreta, uma base material, que é essa disponibilidade energética extremamente abundante e extremamente barata (…), que hoje já não o é tanto”, considerou.

Jorge Leandro Rosa afirmou que no início do século se atingiu “o pico do petróleo”, que “as sociedades não estão a pensar nessa questão”, e que se fazem “abordagens simplistas” de uma passagem imediata do uso do petróleo para energias renováveis.

“Não se pensa é que as energias renováveis não servem para o mesmo tipo de sociedade. Eu acho que não servem para uma sociedade de crescimento infinito”, afirmou.

“Não há orçamento carbónico” para alargar aeroporto de Lisboa

O coordenador da Rede para o Decrescimento Jorge Leandro Rosa afirmou que “não há orçamento carbónico” para “o aeroporto de Lisboa (…) alargar a disponibilidade aeroportuária”, e louvou o exemplo da ativista Greta Thunberg, que não viaja de avião.

“O aeroporto de Lisboa está a alargar, digamos assim, a disponibilidade aeroportuária”, mas “não há, de facto, orçamento carbónico para isso”, disse à Lusa um dos coordenadores da Rede para o Decrescimento, organização crítica do atual conceito de crescimento económico.

Jorge Leandro Rosa afirmou que a rede não contesta “apenas a localização do Montijo” para o novo aeroporto, cujas preocupações partilha, mas também “qualquer alargamento, neste momento, da atividade aeroportuária em Portugal e em toda a Europa”.

O responsável afirma que “é uma contradição absoluta” Portugal avançar para a construção do novo aeroporto no Montijo e para a ampliação do Humberto Delgado, em Lisboa, quando o país “assinou os objetivos de Paris [acordo da cimeira COP21, contra as mudanças climáticas, em 2015]”.

“É verdade que Paris não inclui os meios aéreos no acordo, e também não inclui o transporte marítimo, que são dois dos maiores produtores de [dióxido de] carbono, e de uma forma muito má, ecologicamente”, mas em termos de, por exemplo, gases CFC (clorofluorocarboneto), “o diagnóstico é hoje muito pior do que (…) desde o tempo da cimeira de Paris”, afirmou.

“Portanto, eu diria que não a mais aeroportos em Portugal, e não ao alargamento dos aeroportos existentes”, afirmou Jorge Leandro Rosa, apelando ainda para que se siga “o exemplo da [ativista sueca] Greta Thunberg”, que “coerentemente” não viaja de avião por causa do elevado nível de emissões carbónicas.

Questionado pela Lusa sobre se um semelhante movimento poderia surgir em Portugal, Leandro Rosa considerou que “faria todo o sentido”.

“Eu sei que esse movimento tem alguma expressão nos países nórdicos, cerca de 20% ou mais [pessoas], o que é bastante para estas coisas, declara não viajar em avião ou reduzir substancialmente [as viagens]”, lembrou.

No entanto, o responsável disse que o assunto da redução das viagens de avião não deve ser excessivamente moralizado.

“Há uma dimensão ética, não se trata aqui tanto de um moralismo, mas muito mais de uma racionalidade. (…) Não se trata de zero voos, mas trata-se de uma redução substancial, para termos um futuro”, afirmou.

Jorge Leandro Rosa considera que os voos lúdicos, “a maioria dos voos na Europa, (…) poderiam muito bem ser substituídos por outro tipo de percurso, por um alargamento do uso do comboio, que é um meio razoavelmente menos carbónico”.

“Isto é uma ironia, porque Portugal é um dos países onde o comboio está mais marginalizado há décadas”, acrescentou.

“Eu lembro-me sempre de o comboio ser primeiro ultrapassado pela euforia do automóvel – nós temos praticamente duas autoestradas paralelas entre Lisboa e Porto — e agora pela euforia dos meios aéreos”, recordou.

A título pessoal, disse não encontrar “qualquer justificação” para a existência de voos domésticos do tipo Lisboa – Porto, com uma distância de 300 quilómetros entre si, considerando a “moda” dos voos de curta distância “um novo-riquismo”.

“Se houvesse vontade política para isso, não custaria demasiado termos comboios a 300 km/h entre Lisboa e Porto”, concluiu.

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