O rumor começou a circular no domingo, apenas um dia depois da derrota do Sporting frente ao Rio Ave em Alvalade: Marcel Keizer tinha o lugar em risco no comando técnico dos leões menos de um ano depois de ter chegado ao clube. No entanto, ficava só por isso mesmo: um rumor. Porque o presidente, Frederico Varandas, estava ausente do País. Porque a prioridade nas horas seguintes passava por fechar os negócios de entradas e saídas já alinhavados antes do fecho do mercado. No entanto, o rumor era mais do que isso e o holandês está mesmo em fim de linha na formação verde e branca. A rescisão, que ficou fechada de forma amigável, começou por ser anunciada ao início da tarde à CMVM. Leonel Pontes, que orientava os Sub-23, será o sucessor.

“A Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD (adiante Sporting SAD ou Sociedade) vem, nos termos e para efeitos do cumprimento da obrigação de informação que decorre do disposto na alínea c) do nº 1 do artigo 359º, na alínea a) do nº 2 do artigo 361º e do artigo 248º, do Código dos Valores Mobiliários, informar o mercado que, na presente data, existiu uma manifestação de interesse para cessação do contrato de trabalho do treinador Marcel Keiser [Keizer]”, esclareceu.

“Entendemos que hoje se fecha um ciclo. Marcel Keizer entrou no Sporting em novembro de 2018. Lembramo-nos muito bem de como estava o clube naquele momento, lembramo-nos que quase nenhum treinador queria vir para o Sporting no momento em que o clube se encontrava. Marcel Keizer teve a coragem de o fazer. Cumpriu a missão com distinção, esteve cerca de um ano no Sporting, venceu dois títulos. O Sporting está agradecido pelo que Marcel Keizer fez. Fecha-se um ciclo. Foi sempre um grande senhor, até na saída foi um senhor”, referiu Frederico Varandas, nas primeiras declarações após o “divórcio” à chegada à Cimeira de Presidentes da Liga, que se realiza esta tarde no Parque dos Poetas, em Oeiras.

Apesar da entrada de rompante no comando da equipa, com uma série de sete vitórias consecutivas com uma média de quatro golos por jogo, a escolha de Keizer não foi consensual em Alvalade – foi, isso sim, na estrutura que comanda o futebol verde e branco, com Frederico Varandas à cabeça além de Hugo Viana e Beto. O próprio presidente leonino, numa entrevista quando cumpriu os primeiros 100 dias na liderança do clube, explicou essa opção defendendo a “independência” na altura de decidir o melhor para o projeto desportivo verde e branco. “A escolha de Keizer define muito o que é esta direção. Não pode haver algo que dê mais força a quem tenha de decidir do que ter independência. Não tivemos de agradar a nenhuma fação. Decidimos com independência, sem ter a preocupação de tomar decisões por causa do mandato e de eleições”, destacou à Sporting TV.

“Para mim a aposta não teve risco nenhum. E disse isto antes de ele fazer o primeiro jogo. Era a opção que me dava mais tranquilidade. Muito se fala dele hoje e merece, é um grande treinador, um grande senhor. Nem ele próprio acreditava que ia correr assim tão facilmente. Quando lancei o nome dele muita gente ficou em pânico. Vamos pensar pelas nossas cabeças. Há algum tempo que reparei em Keizer, no futebol do Ajax. Depois, houve oportunidade de o conhecer melhor. Sou uma pessoa racional mas sigo sempre o mesmo instinto. Em conversas com ele, vi como as equipas dele jogavam, a forma como lidera um grupo, trocámos informações sobre jogadores e a sua forma de ser. Todas as peças para ter o mínimo risco possível. E depois tínhamos uma estrutura preparada para receber Keizer. Dificilmente trocava esta estrutura por qualquer outro clube, e não falo apenas de Portugal. Sei o que quero para um treinador, para um grupo, para o departamento médico, etc. Tive a sorte de conseguir trazer estas pessoas e não é preciso ter muito dinheiro”, explicou na mesma entrevista, em dezembro.

Se no Campeonato os resultados nem sempre foram os melhores, a conquista da Taça da Liga e da Taça de Portugal, em finais com o o FC Porto decididas nas grandes penalidades, acabaram por colorir uma temporada descrita por muitos, incluindo pelo próprio número 1 leonino, como a melhor dos últimos 17 anos. “Este ano, partindo das piores condições possíveis, o Sporting realizou em termos de títulos a melhor época dos últimos 17 anos. E isso deveu-se sobretudo ao mérito dos jogadores , do treinador e da sua equipa técnica, de uma estrutura invisível e altamente profissional, mas também devido a um ambiente de estabilidade, rigor e exigência que permite extrair o melhor dos nossos jogadores”, advogou na receção na Câmara de Lisboa, depois do triunfo na Taça de Portugal no final de maio que encerrou a temporada de 2018/19.

No entanto, e apesar de ser uma aposta “de projeto”, Keizer não tinha um ambiente que refletisse essas mesmas conquistas nos primeiros meses em Alvalade e vários pequenos episódios ou acontecimentos foram começando a mudar a perceção que existia em relação ao treinador: a pré-temporada sem uma única vitória e apenas um só jogo ao nível esperado (no empate nos Estados Unidos com o Liverpool); as opções táticas e o descontrolo emocional coletivo da equipa na goleada sofrida frente ao Benfica na Supertaça; as declarações que foi tecendo sobre a possibilidade de Bas Dost sair. A derrota caseira frente ao Rio Ave, que acabou com muita contestação das bancadas ao holandês (e também a Varandas) acabou por ser a última gota nesta espiral.

De acordo com informações recolhidas pelo Observador, já no domingo a saída de Keizer era um cenário entre o possível e o provável. Aliás, o próprio técnico tinha noção de que muito dificilmente voltaria ao banco dos leões depois da interrupção para os compromissos das seleções nacionais – e para isso bastava perceber a reação no final do encontro com o Rio Ave, apenas uma semana depois de estar na liderança do Campeonato, o que não acontecia no Sporting há quase dois anos. Da parte da SAD verde e branca, que nunca tomaria nenhuma decisão sem Varandas em Portugal (como não estava, tendo falhado o último jogo em Alvalade por ter ficado no estrangeiro após marcar presença no sorteio da fase de grupos da Liga Europa), houve o cuidado de assumir uma opção deixando claro que nada tinha a ver com a contestação ao treinador após a derrota de domingo. No final, prevaleceu a ideia de que Keizer não teve a adaptação necessária e desejável à realidade nacional e do clube.

Em paralelo, a hipótese de Leonel Pontes subir da equipa Sub-23 para o conjunto principal foi a única ponderada pela SAD do Sporting, pelas características do antigo adjunto de Paulo Bento e tutor de Cristiano Ronaldo em Alvalade. E mesmo que seja apresentado de forma interina, a intenção é promover de vez o treinador que, após ter sido número 2, assumiu como principal o Marítimo, o Panetolikos (Grécia), o Ittihad (Egito), o Debrecen (Hungria) e o Jumilla (Espanha). Nos Sub-23, o Sporting é líder da classificação só com vitórias nas cinco partidas realizadas, com 19 golos marcados e apenas dois sofridos.

A intenção de revogação de contrato entre Sporting e Marcel Keizer foi oficializado pouco depois das 15 horas, com a rescisão a ser conseguida de forma amigável sem que fossem anunciados os valores que foram acordados entre as duas partes para a quebra do vínculo até 2021. Fica ainda por saber quantos elementos ficarão na estrutura técnica que passará a ser liderada por Leonel Pontes, nomeadamente a provável permanência do adjunto Rodolfo Correia e do técnico de guarda-redes Nelson Pereira. Roy Hendriksen, holandês que funcionava como número 2 de Keizer, vai também deixar Alvalade. O antigo timoneiro leonino ainda orientou o treino desta manhã, com a ausência de vários internacionais, seguindo depois para a SAD leonina.

De referir que a rescisão de Marcel Keizer surge num dia onde estava marcada uma manifestação junto à rotunda do Pavilhão João Rocha contra Frederico Varandas, a partir das 18 horas. “A palhaçada chegou a um ponto demasiado ridículo. Queremos o nosso Sporting de volta!”, anunciava o evento criado nas redes sociais. No entanto, tudo aponta para que esta iniciativa junte apenas um número residual de elementos, à semelhança de outras que já tinham sido tentadas no último ano. No último jogo em Alvalade, a derrota frente ao Rio Ave por 3-2, a maioria do Estádio manifestou-se contra Keizer com lenços brancos mas houve uma franja de adeptos a virarem as críticas para o presidente leonino, sobretudo no topo Sul das claques.

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