Num jogo sem golos, a melhor notícia foi Zlobin, o miúdo que se portou como um czar (a crónica do Benfica-V. Guimarães)

Num arranque da Taça da Liga sem golos, Lage fez oito mudanças e estreou Zlobin, que foi mesmo a melhor notícia para os encarnados. O Benfica precisou de lançar Rafa e De Tomás para procurar o golo.

i

Filipe Amorim

Filipe Amorim

A vida de um treinador é ingrata. No início desta temporada, a opinião dos adeptos do Benfica sobre Bruno Lage era simples e quase consensual: o técnico era quase um Messias no Estádio da Luz, depois de ter aparecido no meio do nevoeiro para recuperar uma equipa ferida por maus resultados e orfã de Rui Vitória. A derrota com o FC Porto em casa, num jogo em que os encarnados não conseguiram implementar nenhuma das ideias que habitualmente demonstram, trouxe muitas críticas a um Bruno Lage que era até aí praticamente intocável; a equipa que apresentou a meio da semana passada contra o RB Leipzig, mais do que o resultado final, originou muitas dúvidas quanto ao tamanho da ambição do treinador para esta equipa do Benfica; e o encontro com o Moreirense, no sábado, podia ter sido a gota de água para que uma mancha de adeptos começasse a contestar o técnico. A reviravolta em Moreira de Cónegos, já nos últimos minutos, silenciou a situação.

Na antecâmara da receção ao V. Guimarães, esta quarta-feira, Bruno Lage prometeu desde logo que iria fazer várias alterações ao onze inicial, de forma assumida, aproveitando a Taça da Liga para fazer descansar alguns dos habituais titulares. Com Pizzi fora dos eleitos e a assistir à partida desde a bancada, o treinador oferecia a estreia absoluta ao guarda-redes Zlobin, que aparecia no lugar de Vlachodimos, colocava os jovens laterais Nuno e Tomás Tavares em vez de Grimaldo e André Almeida, lançava Caio Lucas no onze e ainda Jardel, Samaris e Jota, que surgiam onde têm estado Rúben Dias, Fejsa e Raúl de Tomás. No banco, para além do avançado espanhol e de Rafa, estava Gabriel, que regressava às opções encarnadas.

Mostrar Esconder

Ficha de jogo

Benfica-V. Guimarães, 0-0

Fase de grupos da Taça da Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Rui Costa (AF Porto)

Benfica: Zlobin, Tomás Tavares, Jardel, Rúben Dias, Nuno Tavares, Caio Lucas (Raúl de Tomás, 81′), Gedson, Samaris (Gabriel, 65′), Taarabt, Seferovic, Jota (Rafa, 60′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Grimaldo, David Tavares, Ferro

Treinador: Bruno Lage

V. Guimarães: Douglas, Sacko, Venâncio, Pedrão, Florent Hanin, Mikel Agu (André Pereira, 66′), Poha, Rochinha, André Almeida (Evangelista, 58′), Davidson, Bonatini (Edwards, 72′)

Suplentes não utilizados: Miguel, Tapsoba, Lucas, Pêpê

Treinador: Ivo Vieira

Golos: nada a registar

Ação disciplinar: cartão amarelo a Davidson (56′), Taarabt (74′), Sacko (75′)

No arranque de uma Taça da Liga onde o Benfica caiu nas meias-finais na temporada passada, perante o FC Porto, os encarnados encontravam uma equipa cujo momento e historial de resultados recentes corresponde em quase tudo aos do conjunto de Lage. Além de, tal como o Benfica, também ter vencido para a Liga no fim de semana, o V. Guimarães também perdeu para as competições europeias a meio da semana. Se os encarnados foram derrotados em casa pelo RB Leipzig para a Liga dos Campeões — aquela que é, teoricamente, a equipa mais forte do grupo em que estão inseridos –, a equipa de Ivo Vieira foi à Bélgica perder com o Standard Liège no início da Liga Europa — aquela que é, teoricamente, a equipa mais acessível do grupo em que estão inseridos.

Numa primeira parte que não chegou a ser morna porque nenhuma das equipas se fechou no próprio meio-campo defensivo com o objetivo de segurar o resultado, a verdade é que tanto Benfica como V. Guimarães tiveram algumas dificuldades em manter a posse de bola durante longos períodos de tempo ou superiorizar-se ao adversário de forma constante e consistente. Ainda que os encarnados tenham sido os primeiros a dar sinais de querer chegar à vantagem, com um remate de Jota à malha lateral (3′), a equipa de Ivo Vieira depressa mostrou que podia criar perigo pelo corredor direito do ataque, onde Caio Lucas nem sempre ajudava Nuno Tavares a fazer as dobras e o jovem lateral sofria com as subidas de Sacko, as incursões de Mikel Agu pela ala e as tentativas de Rochinha pelo espaço entre ele e Jardel.

O primeiro sinal apareceu pouco depois da tentativa de Jota, com Davidson a atirar em jeito para o poste mais distante (6′), e depois foi Rochinha a receber de Sacko já na grande área e a rematar na diagonal para Zlobin defender com os olhos (9′). O Benfica reagiu com uma oportunidade de Jardel, que cabeceou ao lado depois de um cruzamento de Taarabt (17′), mas principalmente com alterações estratégicas: a dada altura, Gedson passou a jogar mais perto de Seferovic, de forma a encurtar o espaço entre a linha intermédia e a mais avançada, e a verdade é que o Benfica conseguiu começar a construir de forma cada vez mais apoiada. O jogo caminhou para o intervalo com pouco discernimento e muito dividido a meio-campo, com as duas equipas a cometerem alguns erros que acabavam por comprometer a saída para o ataque e o aproveitamento do espaço que estava a ser deixado nas costas por ambas as defesas. O lance mais perigoso do primeiro tempo surgiu mesmo em cima do intervalo, com Zlobin a evitar o golo em cima da linha, Pedrão a acertar na trave na insistência e Davidson a rematar ao poste na recarga (45′), mas as equipas foram mesmo para os balneários ainda sem golos marcados.

Na segunda parte, Davidson — em clara evidência na frente de ataque vimaranense — voltou a beneficiar de duas oportunidades claras para inaugurar o marcador e Bruno Lage percebeu que era necessário mexer na equipa: até porque, numa altura em que Ivo Vieira já tinha lançado Lucas Evangelista, o Benfica chegou ao fim do quarto de hora inicial do segundo tempo sem qualquer remate enquadrado com a baliza de Douglas (enquanto que o V. Guimarães já levava seis). Na hora de mudar, o treinador lançou o abre-latas do costume, Rafa Silva, e tirou um Jota que continua sem justificar por inteiro as oportunidades de que vai beneficiando. Seguiu-se Gabriel, que voltou aos relvados depois de se ter lesionado na Supertaça com o Sporting, e o Benfica recuperou um ímpeto ofensivo que tinha faltado na primeira metade da segunda parte.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-V. Guimarães:]

Se, até às entradas de Rafa e de Gabriel, o V. Guimarães estava a colocar a primeira linha de construção praticamente no meio-campo e obrigava os encarnados a procurar as bolas longas e a profundidade, os dois jogadores conseguiram empurrar os vimaranenses para o próprio meio-campo e assumir o controlo da linha intermédia, num ponto que foi chave para que os laterais se arriscassem a subir no corredor, algo que praticamente não aconteceu durante a primeira parte. Já nos últimos dez minutos, Bruno Lage trocou Caio Lucas — que não deixou grandes indicações — e colocou em campo Raúl de Tomás, para tentar chegar ao golo da vitória. Em dois lances construídos com regra e esquadro por Tomás Tavares, que voltou a estar em evidência e a mostrar que é alternativa para as laterais da defesa encarnada, Seferovic cabeceou por cima e Venâncio evitou a finalização de Rafa e o Benfica não conseguiu alcançar a vitória, empatando sem golos no arranque da Taça da Liga num jogo em que o resultado até poderia ter caído para o V. Guimarães.

Mesmo estando a jogar naquela que é, provavelmente, a última entrada na lista de prioridades do Benfica, as bancadas da Luz acusaram o nulo e a exibição menos conseguida a assobiaram a equipa durante alguns instantes após o apito final. Bruno Lage pediu calma aos adeptos mas a verdade é que esta quarta-feira, em casa, os encarnados voltaram a provar que dificilmente poderão lutar por vitórias sem os habituais titulares. Com Pizzi na bancada, o treinador não hesitou em lançar Rafa e Raúl de Tomás quando o tempo escasseava e Jota e Caio Lucas continuam sem ser alternativas reais para o ataque. Contas feitas e, para além das provas que já haviam sido dadas tanto por Nuno Tavares como por Tomás Tavares, a verdade é que a melhor notícia que o Benfica leva desta primeira jornada da Taça da Liga é Ivan Zlobin: o guarda-redes russo não acusou a pressão da estreia e não acusou a pressão da titularidade e esteve sempre seguro entre os postes, segurando até o nulo em diversas ocasiões, principalmente no primeiro tempo. E deixou claro que, talvez, por ventura, eventualmente, não tenha sido um drama tão grande assim o facto de o Benfica não ter conseguido contratar um guarda-redes no verão.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.