Portugal não ficou de fora: cerca de 30 localidades aderiram à greve climática, inspirada pela ativista sueca, Greta Thunberg, que se tornou o rosto desta luta. Também há portugueses entre os milhões de manifestantes que esta sexta-feira seguram cartazes e gritam em megafones, numa mobilização à escala global pelo combate contra as alterações climáticas.

Em Lisboa, ativistas da Extinction Rebellion Portugal sentaram-se na Avenida Almirante Reis, junto ao Banco de Portugal, montaram tendas e ameaçam não sair dali, preparados para ficar toda a noite. O protesto pacífico acabou pelas 21h30, mas elementos da PSP tiverem, no entanto, de retirar os manifestantes à força. Uma pessoa foi mesmo detida “porque não acatou as ordens e resistiu à polícia”, disse fonte do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa à agência Lusa.

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A PSP tinha ordenado aos ativistas que permitissem a reabertura da via. Os manifestantes, porém, permaneceram sentados na estrada e recusaram cumprir a ordem. Assim, os elementos do corpo de intervenção da PSP retiram os manifestantes um a um, puxando-os pelos braços e, quando necessário, arrastando-os para os passeios. Os manifestantes não reagiram com violência, mas continuaram a recusar obedecer à ordem para abandonarem o local.

Antes da decisão de desimpedir a via à força, o comissário Serra, do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, tinha explicado à agência Lusa que a PSP estava em negociações com os manifestantes para permitir a circulação rodoviária, tendo para isso feito retirar algumas das tendas. O comissário lembrou ainda que o direito à manifestação “não pode colidir” com o direito à circulação e que, como tal, estavam a negociar com os manifestantes para irem para os passeios e desimpedirem a via.

Esta concentração seguiu-se ao final da grande manifestação, que começou às 15h30 no Cais do Sodré. O protesto conta com milhares de pessoas que protestam contra as “políticas falhadas” dos decisores políticos, explicou à agência Lusa Sinan Eden, um dos responsáveis pela organização do evento. “Nós somos o plano B”, declarou à Lusa, durante a manifestação cujo slogan mais proclamado é “não há planeta B”.

Os jovens continuam a ser a maioria no protesto em Lisboa, que arrancou por volta das 15h30 e que tem como destino final a praça do Rossio, num cortejo que junta jovens de várias nacionalidades e idades: idosos, várias famílias, grupos de amigos, pais e filhos.

[Em Lisboa, no Porto e em 170 países. As imagens de um protesto que pôs o mundo na rua]

Mais de mil jovens marcharam até à Avenida dos Aliados, no Porto

No Porto, cerca de 1.500 jovens reuniram-se na Praça da República, onde estiveram a ensaiar cânticos. “A floresta arde, mas o ministro é cobarde”, cantam. A marcha arrancou com uma hora de atraso. Os manifestantes avançaram depois em direção à Rua de Santa Catarina, para chegar à Avenida dos Aliados.

À semelhança do que acontece em Lisboa, a maioria dos manifestantes são jovens, mas também há pessoas de todas as idades e famílias. Pedro Macedo trouxe a mãe, de 77 anos e os dois filhos de 4 e 8 anos, porque “este passo de vir à rua e de exigir mudança é algo que foi sempre necessário na história”. A viver no Porto, já estiveram na manifestação de Maio que percorreu o mesmo percurso na invicta: da Praça da República rumou à Rua de Santa Catarina e terminou nos Aliados. “Acima de tudo temos de deixar de investir nos combustíveis fósseis e parar a ampliação dos aeroportos. Esse tipo de investimento não é coerente com a neutralidade carbónica que queremos atingir”, disse ao Observador o habitante do Porto de 40 anos.

Como segunda medida, aponta o que já se faz, mas em “pequena escala”: “Não é preciso inventar a roda, há soluções que já foram encontradas como as energias renováveis, na mobilidade, por exemplo. Enquanto houver jatos privados por todo o lado mas numa manifestação destas haver imensos problemas em parar o trânsito, está tudo mal”.

“As avós vieram à greve. E tu? Vais ficar a fazer croché?” desafiava um cartaz que a idosa Emília Gonçalves ajudava a segurar, plena das suas convicções, lamentando à Lusa que “houve demasiado tempo gente desatenta a este assunto.” “Nós estamos a dar o exemplo (…) para que os mais velhos entrem também nisto, neste mundo novo”, acrescentou a sénior que se afirmou “muito preocupada com o planeta” que vai deixar aos bisnetos, culpando a “falta de informação” para justificar o facto da sua geração “não ter agido há 20 anos”. Ainda assim mantém-se otimista: “acho que ainda vamos a tempo”.

Trezentas pessoas marcharam pelo planeta em Faro

Cerca de 300 pessoas marcharam esta tarde pelo clima, em Faro, numa caminhada de dois quilómetros pela cidade, onde reivindicaram o que consideram ser essencial para ainda se salvar o planeta. “Justiça climática Já!”, “Não te cales!”, “Todos juntos por um futuro melhor” ou “A Terra esgotou a paciência e nós também”, foram algumas das frases que se puderam ler nos cartazes empunhados pelos manifestantes, enquanto se ouvia, “Senhor ministro explique-me por favor, porque é que no inverno ainda faz calor!”

Com 15 anos, Raquel Rodrigues seguia no topo da marcha, juntamente com Margarida Roxo, duas das mentoras das manifestações pelo clima que se realizaram na capital algarvia. A jovem revelou à Lusa não ser “fácil mobilizar as pessoas” havendo menos pessoas a participar desde a primeira manifestação, mas afirmou não ter perdido a força e “continuar a insistir nesta causa, porque é o nosso futuro!”.

Após ter organizado três marchas pelo clima, disse que as pessoas têm medo da mudança, “mas é isso que é preciso” e mantêm a esperança que as mobilizações e as manifestações a nível nacional e mundial “sirvam de pressão de grupo para que as coisas vão mudando”.

João Melo é outro dos adolescentes que estava na frente da marcha, de máquina fotográfica em punho, para dar “uma contribuição no audiovisual” e porque “se não forem os jovens, ninguém vai fazer nada para mudar o estado do clima”. Com 14 anos, o jovem contou que dentro da escola já se notam alterações de hábitos “com a utilização das palhinhas de bambu, menos pessoas a usarem copos de plásticos e mais a utilizarem a bicicleta, por exemplo”. A marcha sobe e desce as ruas farenses e, apesar de nas filas da frente as caras serem acima de tudo jovens, é possível observar manifestantes de diversas idades e até de diferentes nacionalidades.

Ditmar, de 79 anos, marchou ao lado dos jovens nas ruas de Faro e revelou ser o dióxido de Carbono que o movimenta. “Há CO2 a mais no mundo e se nada se fizer são eles [jovens] que, daqui a 50 anos, não têm o que respirar”, afirmou à Lusa, enquanto se congratula por ver a juventude a manifestar-se.

Foi pelo seu futuro e “de todos os jovens” que levou Maeva Ferrandis, de 17 anos, a juntar-se a este movimento. “Se você acreditar é capaz de fazer a mudança necessária para mudar o mundo”, afirmou à Lusa revelando que, juntamente com os amigos vão fazendo a sua parte “no dia-a-dia” para que haja essa mudança.

Quase no final da marcha o Jardim Manuel Bívar serviu de palco para alguns discursos, intervalados pelo cântico do tema Bela Ciao: “Se não pararmos de queimar carvão, Terra tchau, Terra tchau, Terra tchau, tchau, tchau. Menos conversa e mais ação, nós somos a revolução”.

Cerca de 40 pessoas pedem em Braga medidas “urgentes e eficazes”

O protesto pelo clima juntou em Braga cerca de 40 manifestantes “mais miúdos que graúdos”, que exigiram medidas “urgentes e eficazes” contra as alterações climáticas e a “possibilidade de terem um futuro”. “Nós merecemos um futuro”, cantarolava um grupo de jovens, entre os 16 e os 20 anos:

Somos a última geração que pode salvar o planeta, eu sei que isto já é quase um ‘cliché’, mas é um facto. Se nos acomodarmos e não nos levantarmos do sofá os nossos netos não vão ter planeta para viver”, explicou à Lusa, Luis Amândio, 18 anos.

Os cartazes eram poucos, as vozes ecoavam pela Praça da República, entre os olhares curiosos de alguns turistas que acabaram por se juntar ao protesto: “Não sabíamos do protesto, mas estamos solidários com esta juventude. A nós, pessoalmente é um tema que não afetará muito, já passamos os 70 anos e não temos filhos. Mas temos essa consciência”, referiu Phill Maining, inglês.

A meio do protesto “em jeito de festa”, embora lembrando que as alterações são “coisa séria”, os manifestantes calaram-se quando se depararam com a líder nacional do Bloco de Esquerda, Cataria Martins que se juntou ao protesto. “Ter aqui uma líder partidária dá-nos visibilidade, mas isto não é uma ação política. É uma ação pela Humanidade”, referiu Patrícia Carvalho, 23 anos, estudante da Universidade do Minho.

Entre os pedidos deixados “aos grandes”, os jovens pediram “medidas eficazes e urgentes” e não apenas “propaganda”. “Temos pouco interesse em que este seja um tema da campanha [eleitoral], que sejam prometidos mundos e fundos e depois nada seja feio. Algo tem que ser feito”, salientou Luis Amândio.

Um outro grupo lembrou que “só Portugal pouco pode fazer”, mostrando agrado pela adesão que o protesto está a ter pelo mundo. “Somos muito poucos aqui, uns milhares em Lisboa, no Porto e nas restantes cidades não sabemos. Mas sabemos que por todo o mundo há gente que saiu à rua. Tenho esperança que seja o início do caminho para que não haja um fim para o nosso mundo”, finalizou Patrícia Carvalho.

Crianças, jovens e alguns adultos desfilam em Évora em defesa do planeta

Várias dezenas de crianças e jovens e alguns adultos desfilaram pelas principais ruas do centro histórico de Évora. A iniciativa arrancou com uma concentração junto à Igreja de São Antão, na Praça do Giraldo, considerada a sala de visitas da cidade, seguindo-se uma marcha por algumas ruas do centro histórico, que culminou junto ao edifício da câmara municipal. Durante a concentração, cerca de quatro dezenas de jovens colocaram-se na escadaria da igreja, com cartazes e palavras de ordem, tendo um deles, João Fanha, de 17 anos, lido um manifesto com as principais reivindicações.

É um manifesto com aquilo que resume todas as ideias que nós tivemos para esta ação e esperamos que o Governo oiça algumas delas. Estamos aqui a fazer barulho por causa disso”, afirmou João Fanha, em declarações à agência Lusa.

Estudante na Escola Gabriel Pereira, uma das três secundárias da cidade, João Fanha tinha nas mãos um cartaz em que se podia ler a mensagem: “- carro + caminhar, – plástico + mar, é hora de acordar”. “Não há planeta b”, foi uma das frases mais vezes entoadas pelos estudantes, ao mesmo tempo que seguravam cartazes com frases como “A terra esgotou a paciência”, “Em 2050 haverá mais plástico no mar do que peixes” e “É hora de acordar”.

João Fanha disse à Lusa estar a participar no protesto por entender que a alegada degradação do planeta é uma questão que o afeta e que “vai afetar os que vierem a seguir”. “Tenho de lutar, não só por aquilo que é meu, mas por aquilo que vem a seguir para os meus que eu espero ter um dia. Eu quero que os meus filhos tenham um futuro semelhante (…) àquilo que eu estou a ter”, acrescentou. O jovem de 17 anos referiu que esta foi a terceira manifestação deste género a realizar-se em Évora e prometeu que haverá “tantas quantas foram necessárias” até o Governo ouvir as reivindicações.

Protestos repetiram-se por todo o país

Em Coimbra, o protesto começou na Praça D. Dinis e segue para a Câmara Municipal. Em Ponta Delgada, a manifestação realizou-se nas Portas da Cidade. Em Leiria, também houve manifestações: