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Giambattista Valli pode não ser um colosso do mundo da moda (sobretudo se pensarmos que a H&M já colaborou com casas como Versace, Balmain, Lanvin, Roberto Cavalli e Margiela), mas traz consigo um toque de alta-costura que, há anos, deixa transparecer mesmo nas suas coleções de pronto-a-vestir. Em maio, o seu nome foi anunciado no âmbito da coleção de autor anual da cadeia sueca. Uma escolha surpreendente? Nem por isso. Regra geral, depois de um nome que explora o lado mais divertido da moda, caso de Jeremy Scott, vem sempre um visual com um quê de formalidade.

Ainda assim, Valli deu a volta ao texto. Quem esperava um batalhão de silhuetas de tule esculpido, terá agora de lidar com um pequeno desgosto. A peça emblema da criatividade do designer italiano está lá — um vestido vermelho de decote profundo e saia assimétrica — mas é o único da sua espécie (no total, a coleção tem 16 vestidos). A linha feminina abre espaço a estampados e bordados florais, inspirações eduardianas e à informalidade do streetwear, através de hoodies e sweatshirts trabalhadas com brilhos e pérolas.

Oslo Grace, a manequim transgénero que faz parte do lookbook da coleção e um detalhe dos acessórios © Dovulgação

“Criei uma espécie de abecedário do estilo Giambattista Valli, uma seleção de peças intemporais para misturar e combinar ao sabor do estilo de cada um. Mais do que moda, é uma questão de estilo”, explica o criador, em entrevista ao Observador. O primeiro desafio foi adaptar o seu registo à fast fashion, sobretudo quando é reconhecido pelos vestidos voluptuosos e pelas sedas estampadas por padrões florais repletos de detalhes. “Escolhi diferentes elementos de assinatura da marca, como o tule plissado e os bordados de flores e cristais, bem como silhuetas chave, e reinterpretei-os para os clientes da H&M. A coleção transmite o espírito Giambattista Valli, mas é produzida com técnicas que permitem adaptá-lo às necessidades de um público muito maior”, reforça.

Não é só o maior espectro de clientes que foge ao habitual contexto de trabalho deste designer radicado em Paris. Pela primeira vez, aventurou-se no vestuário masculino e o resultado está à vista. Os looks são consideravelmente mais desportivos do que os femininos, uma aproximação ao streetwear que representa o lado mais surpreendente da coleção. Ainda assim, o designer é o primeiro a admitir que foram elas o principal ponto de partida para idealizar os primeiros homens de Giambattista Valli. “Foi um novo território para mim e optei por abordá-lo ao contrário. Em vez de ser a mulher a trazer peças do armário masculino, o que acontece com frequência, explorei a ideia dos homens irem buscar peças, padrões e tecidos ao guarda-roupa delas”, refere.

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Com a feminilidade num altar, como se de um valor sacrossanto se tratasse, foi dela que derivaram vários elementos da linha masculina — as flores em camisolas e camisas, o blazer de lantejoulas, o rosa bebé como tonalidade base. “Também há padrões animais, um fascínio pelo punk e um glamour militar… é uma visão muito eclética do estilo masculino”, completa. O “Valli Voy”, como lhe chama, é apresentado ao mundo envolto em capricho e excentricidade, seja coberto de leopard print e de fato de treino, seja a vestir uma casaca bordada.

Além do intercâmbio de elementos, há um desafiar dos códigos de vestuário. Para protagonizar o lookbook da coleção, Valli escolheu, entre outros manequins, Olso Grace, modelo transgénero que se apresenta como não binária. “Estou muito orgulhoso por ter desenhado para homens pela primeira vez, embora sempre tenha criado peças para personagens, independentemente do seu género. A liberdade de expressão é o derradeiro luxo, não é o valor marcado na etiqueta”, admite. Postas sob esta perspetiva, várias peças acabam por se relevar bem mais versáteis. Para a sessão, o designer voou até á sua terra Natal, Roma. Kyle Weeks fotografou, o styling esteve a cargo de Giovanna Battaglia Engelbert.

Giambattista Valli e Giovanna Battaglia Engelbert durante a sessão fotográfica da coleção © Divulgação

O percurso de Giambattista é o de um designer em busca da independência. Em 2005, criou a sua própria marca, depois de ter passado pela Fendi, pela Capucci e pela Ungaro. Numa entrevista ao Observador, em abril do ano passado, falou sobre esse passo decisivo. “Foi mais do que difícil. Corri um grande risco, mas fi-lo de uma forma inconsciente, completamente cega, como quando se dá um salto. É claro que, agora, olhando para trás, foi completamente louco, mas nunca é para questionar muito, é para fazer”, revelou. Em 2011, juntou a alta-costura à equação. Com duas coleções anuais, as suas criações já foram usadas por estrelas como Rihanna, Kendall Jenner (que protagoniza a campanha da nova edição), Anne Hathaway e Zendaya. Inspirado pela cultura e pela própria curiosidade, Valli continua a ser o CEO da marca que criou. E, como símbolo de uma identidade forte e independente, continua a usar o seu colar de pérolas que, com o tempo, já se tornou uma imagem de marca.

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