A equipa de Luís Montenegro bem tentou disfarçar e dizer que o jantar era dos 1o anos da liderança do PSD em Espinho e não de diretas no PSD. Mas, numa espécie de comício-zero, o próprio candidato à liderança do PSD decidiu assumir ao que ia e, a partir da Nave de Espinho — o mesmo pavilhão que consagrou pela última vez Passos Coelho como líder — falou aos jornalistas durante 16 minutos para colar Rui Rio ao PS, usar Cavaco como arma de arremesso  e avisar Centeno e Costa de que não contarão com o “seu” PSD para aprovar orçamentos do Estado. Já perto da meia-noite, quando chegou ao púlpito, também não disfarçou que não era só de Espinho que se falava e perante 600 pessoas disse: “Como é linda a minha terra, como é lindo o meu partido“. Citava Eurico de Melo, conhecido como “vice-rei do norte” no PSD, ele que foi uma espécie de “vice-rei” de Passos no Parlamento. Legado que não esquece, nem quer esquecer.

Um dirigente do PSD local comentava ao início da noite: “Está mais gente de fora, do que de Espinho”. Não era exatamente verdade, mas Luís Montenegro tinha trazido reforços. Embora nenhum apoio fosse surpreendente, havia presenças de peso. Havia líderes distritais do “grupo dos cinco” que tentou o impeachment a Rio em janeiro (Pedro Alves, de Viseu; Carlos Morais Vieira, de Viana do Castelo; Maurício Marques, de Coimbra, que já não é líder, mas tem peso na distrital. Havia antigos vice-presidentes que liderou na bancada como Carlos Abreu Amorim, Miguel Santos, Amadeu Soares Albergaria ou Nuno Serra, também ex-líder da distrital de Santarém. O antigo líder da JSD, Simão Ribeiro e os presidentes da câmara de Espinho (Pinto Moreira) e de Santa Maria da Feira (Emídio Sousa) compunham o elenco. E ainda chegaria uma surpresa.

Ainda as mesas estavam nos salgadinhos e na sopa, com as crianças a divertirem-se nos insufláveis e toda a gente a ignorar a parede de escalada, já Montenegro falava aos jornalistas. Foi quase uma segunda entrevista depois da que, a meio da semana, concedeu à SIC. E quis definir as linhas que vão marcar a diferença para Rui Rio: rutura total com o PS.

Centeno e Costa não contam com PSD de Montenegro para orçamentos

O afastamento do PS vai ser uma das tónicas de Montenegro. Disse-o ao início da noite e no púlpito, perto da meia-noite. “O PSD não pode ser o Partido Socialista número dois. Não pode defender o que o PS defende, tem obrigação de ser uma alternativa, para o país, para a sociedade”.  E não teve problemas em defender posições que o podem comprementer caso seja eleito líder. Até em matérias oramentais, onde diz que não dará, em circunstância alguma, a mão ao PS: “Quero ser muito claro sobre isto: comigo não há nenhum acordo com o PS. E isso integra inclusivamente não estar minimamente disponível como presidente do PSD para negociar orçamentos com o PS“, antecipa o já anunciado candidato.

Não há namoros com o PS, porque, para Luís Montenegro, os socialistas já estão casados. “O PS já fez o seu casamento parlamentar. Não quero saber se foi formalizado na igreja ou união de facto, o PS governa de braço dado com o BE e PCP. Portanto, não tem de se virar para o PSD à espera de nada”,  diz Montenegro como parceiro de regime ofendido que viu o PS fugir do Bloco Central nos últimos anos.  O antigo líder parlamentar admite queo país “ganhava muito” em que PSD e PS fizessem reformas estruturais, mas o PS já demonstrou que “não quer”. E, por isso, “não vale a pena insistir nisso”.

Aproveitando estar em Espinho, onde teve de ouvir antes da intervenção final o amigo Pinto Moreira a falar do “novo quartel dos bombeiros” ou de Espinho cidade que tem “mais gruas por metro quadrado” do país. Pinto Moreira, o único autarca presente em janeiro no CCB quando Luís Montenegro desafiou a liderança de Rio, gritou para todo o pavilhão: “Eu acredito!” Quase rebentou as colunas.

O comício-zero do candidato Montenegro e João Félix a abafar Hugo Soares

Afinal, isto era mesmo o comício-zero de Montenegro, que subiu ao palco com gritos de PSD e o vê de vitória que é o símbolo do partido. Hugo Soares chegou a meio do jantar, enquanto no palco chamavam João Félix. Não o jogador do Atlético Madrid, mas um militante que ajudou o PSD/Espinho nas autárquicas. Ainda assim o suficiente para ninguém dar pela entrada de Hugo Soares na sala. O braço-direito de Luís Montenegro entrou na sala sem querer falar de diretas, mas o seu amigo Luís já tinha assumido que esta noite também era dia de falar nisso.

João Félix foi chamado ao palco quando Hugo Soares entrou na sala

Hugo Soares ia dizendo: “Falamos disso para a semana”. E, a ferros, lá disse: “Não será surpresa para ninguém se eu apoiar Luís Montenegro“. Antes disso o antigo líder parlamentar e sucessor de Luís Montenegro tinha estado num jantar similar em Braga, mas fez centenas de quilómetros para “dar um abraço ao Pinto Moreira”. Para esse esforço, todos sabiam que não era só do amigo Pinto Moreira que se tratava, mas também do amigo Luís, candidato à liderança do PSD.

“É melhor é nem dar nota disso”

Quem estava numa das mesas era Henrique Araújo, braço-direito de Salvador Malheiro, e condutor do quando uma investigação do Observador apanhou o autarca a utilizar o veículo numa deslocação à sede nacional. Circulou recentemente por Aveiro que Henrique Araújo ficou sentido com Salvador Malheiro por não o ter defendido nas listas à Assembleia da República, para onde Pedro Coelho (líder do PSD/Ovar) o tinha indicado. Mas isso significa que apoia Luís Montenegro ou estava no jantar como “espião”.

Ao Observador, Henrique Araújo explica que nem uma coisa nem outra: “Recebemos um convite do PSD de Espinho e eu vim em representação do PSD/Ovar“. Não é apoio? “Não, não é apoio. Foi a um convite e estou pelo PSD/Ovar, é melhor nem dar nota disso”.

Montenegro usa Cavaco contra Rio e chama Maria Luís para a (sua) luta

Voltando à política, Luís Montenegro não teve problemas em subir a fasquia. Disse que um dos objetivos que tem é “ganhar as eleições autárquicas” e mobilizar depois o país para ganhar as legislativas. Como diria no palco, “é através das autarquias locais, que os partidos executam a ação de melhorar a vida das pessoas.”

O antigo líder da bancada parlamentar do PSD comentou ainda o artigo que Cavaco Silva publicou no Observador, aproveitando para visar Rio: “Só uma situação muito grave e muito importante para o futuro do PSD podia ter obrigado o professor Aníbal Cavaco Silva, que foi 10 anos primeiro-ministro e 10 anos Presidente da República, e que, como sabemos, não é propriamente uma personalidade que tenha intervenção partidária, a tomar a posição que tomou.” Montenegro tem ainda “a certeza que os militantes do PSD saberão não só compreender e interpretar, como projetar no seu comportamento aquilo que são as observações que ele faz relativamente ao futuro do PSD”.

Sobre o facto de Cavaco Silva falar em Maria Luís Albuquerque, Luís Montenegro comentou que “Maria Luís Albuquerque faz muita falta ao combate político do PSD” e que vai tentar “dar o contributo para cumprir o desiderato que está por detrás disso“. E acrescenta: “Se ela for candidata, é bem-vinda, mas creio que o melhor é esperar pela posição que ela vai tomar“. Luís Montenegro sugeria assim que até é capaz de convidar Maria Luís para a sua equipa, mas nas entrelinhas. É um trunfo que terá guardado para mais tarde.

No ataque a Rio, o antigo líder parlamentar disse ainda que é uma “desculpa esfarrapada” Rui Rio culpar os críticos pela derrota no domingo, já que o “PSD desde Sá Carneiro foi sempre um partido plural e isso não foi diferente com Rui Rio“. Disse ainda que nos últimos dez meses só apareceu para dar um contributo “humilde, muito humilde” na campanha das europeias e das legislativas. Luís Montenegro disse ainda acreditar que Rui Rio vai ser candidato, algo que aguarda “serenamente” e espera que aconteça para reforçar a sua vitória.

Luís Montenegro disse ainda que não voltará a ser candidato caso perca estas eleições: “Este é o meu tempo. O tempo em que me preparei para liderar o meu partido e lhe dar condições de recuperar a sua força, a sua ligação aos portugueses”.

Após os discursos o grupo Tekos foi para o palco, mas quando sugeria as pessoas que fossem um “pouquito para esquerda e um pouquito para a direita” já Luís Montenegro estava longe do púlpito. O mesmo aconteceu com o Despacito. O tempo é pouco para chegar à liderança do PSD.

O artigo foi atualizado ao longo da noite, com uma última atualização às 00h39 de sábado