De forma paralela mas com influência (in)direta, o Flamengo evoluiu. Melhorou. Deu o salto. Dentro de campo com reflexos fora de campo, fora de campo com reflexos dentro de campo. E tudo porque, tal como houve um investimento no plano desportivo com a contratação de jogadores que estavam na Europa como Rafinha, Filipe Luís ou Gerson, esse esforço fez-se acompanhar daquilo que em Portugal se começou a denominar de “estrutura”: como explicava esta semana o Globoesporte, o clube aumentou o número de viagens feitas de charter para evitar um maior desgaste nos jogadores (e com aqueles aviões com todas as regalias, entenda-se), passou a utilizar as zonas mais reservadas dos aeroportos para evitar assédios, deixou de voltar sempre ao Rio quando vai jogar fora uns dias depois e colocou o contacto com os fãs de forma mais ordeira na concentração.

Objetivos imediatos? Poupar ao máximo o plantel em termos físicos face à sobrecarga de jogos entre Taça dos Libertadores e Campeonato mas sem quebrar a ligação com os adeptos, um dos pontos tidos como fundamentais para potenciar ao máximo o bom momento desportivo e trazer daí reflexos para o crescimento do clube noutras áreas, seja através dos sócios-torcedores (que atingiu um número recorde), seja nos seguidores nas redes sociais. E foi isso que se viu em Fortaleza, em geral e num caso em particular tendo Jorge Jesus como referência: já depois de se ter deslocado à zona da bancada onde adeptos quase se esmagavam para tirarem uma fotografia com jogadores e treinadores após o último treino, o português recebeu a visita de Everton Mengão, um fã que fez 500 quilómetros para ter um autógrafo com o técnico e deixar algumas recordações, como a do Padre Cícero.

“Foi muito emocionante. Não é a toda a hora que se consegue encontrar um técnico destes. Ele falou algumas coisas, mas eu não entendi muito”, confessou o adepto natural de Juazeiro do Norte após o encontro com Jesus. Mas este foi apenas mais um capítulo da história do técnico português no Brasil, que atravessava a melhor fase desde que chegou ao Flamengo mas que teria um encontro complicado em Fortaleza antes do dérbi com o Fluminense (domingo) e a segunda mão da meia-final da Taça dos Libertadores com o Grémio (madrugada de quinta-feira). E complicado, sobretudo, pelas muitas ausências entre lesões e castigos que enfrentava.

Todas essas dificuldades foram confirmadas ao longo dos 90 minutos. Aliás, comparando os 13 últimos jogos para o Campeonato em que o Flamengo somou 37 em 39 pontos possíveis (12 vitórias e um empate), este foi aquele com menos oportunidades claras de golo e menor dinâmica ofensiva. No entanto, um lance no último minuto antes dos descontos resolveu tudo: Renê ia efetuar um lançamento lateral, o treinador saiu da sua zona técnica a apontar para colocar na área, uma segunda bola apareceu em campo aparentemente lançada por um apanha bolas da casa, o árbitro mandou seguir e, depois de um primeiro desvio, Reinier fez a reviravolta (2-1) para a festa dos quase 15.000 adeptos da equipa em Fortaleza. Jesus, esse, começou a correr pela zona lateral do relvado. O título ainda está longe mas este pode ter sido um momento fulcral para esse objetivo, mantendo os oito pontos de avanço sobre o Palmeiras que ganhou à Chapecoense aos… 90+9′ (1-0).

Depois de uma primeira boa saída dos visitados com um remate demasiado torto, Reinier ficou perto do primeiro golo na sequência de um canto (5′) antes de Nené Bonilha (antigo médio de Nacional e V. Setúbal) obrigar Diego Alves a uma defesa apertada para canto cinco minutos depois. E como um mal nunca vem só, Jesus foi obrigado a mexer na equipa com apenas um quarto de hora de jogo, com a saída de Lucas Silva – de novo colocado como ala direito, como tinha acontecido com o Athl. Paranaense – e a entrada de Piris da Motta que obrigou a que Gerson ocupasse espaços um pouco mais adiantados para que o suplente ficasse atrás de William Arão.

Se já estava complicado de furar a defesa do Fortaleza no Arena Castelão, a alteração forçada ainda veio trazer maiores dificuldades – a única oportunidade foi um cruzamento de Vitinho da esquerda que por pouco não enganou Felipe Alves (25′) –  e seria preciso esperar pelos últimos cinco minutos antes do intervalo para se assistir a um Flamengo mais autoritário que ficou perto de marcar por Piris da Motta (remate por cima da trave, 43′) e Reinier (corte de Paulão a substituir o guarda-redes perto da linha, 44′).

Com mais um jovem lançado na principal equipa ao intervalo (Vítor Gabriel) para o lugar de Gerson, o Flamengo entrou com linhas mais subidas e a tentar empurrar de vez os visitados para o seu meio-campo mesmo sem grandes chances mas acabou por ser traído numa das poucas saídas do Fortaleza: Tinga avançou bem pelo lado direito, viu o cruzamento ser cortado com o braço por Pablo Marí (o VAR confirmou que foi em cima da linha, numa decisão complicada de tomar…) e Bruno Melo inaugurou o marcador para os visitados (61′).

Pouco depois, o lateral direito João Lucas arriscou e muito ver o segundo amarelo e consequente vermelho mas nem mesmo 11×11 houve aquele Flamengo com a habitual dinâmica ofensiva, com algum desgaste físico à mistura a travar a tentativa do líder do Campeonato em chegar ao golo até que o empate acabou por cair do céu, de forma literal: na sequência de um canto, Quintero cortou a bola com o braço na área e Gabriel Barbosa celebrou da melhor maneira o regresso à equipa depois de ter estado na seleção com mais um golo que fez o 1-1 a sete minutos do final, antes de Reinier, que viu esta semana recusada pelo clube a possibilidade de integrar os convocados da seleção do Brasil para o Mundial Sub-17, consumar a reviravolta em cima do minuto 90.