Da sala reservada ao Bloom, o Portugal Fashion passou para o espaço mais imponente da Alfândega do Porto. Na Sala do Arquivo, uma passerelle imensamente branca foi o palco deste segundo dia de desfiles. Inês Torcato marcou-a, não só com uma coleção que desenvolveu numa lógica de continuidade em relação à que apresentou na última edição, mas mais objetivamente com as pegadas dos manequins. A apresentação, marcada para o início da noite de quinta-feira, ainda não tinha começado e já uma ma poça de tinta azul fazia prever que o desfile pintaria a sala, os sapatos e a roupa.

Aconteceu. Três coordenados em algodão orgânico, invulgarmente trabalhados com folhos, drapeados e rendas, fizeram as honras do desfile, confirmando que a tinta estava ali estrategicamente posicionada para que deixassem rasto. “Numa primeira interpretação, mais literal, estas pegadas remetem para a pegada ecológica. Mas também quis que elas nos transportassem para o que mais me entusiasmou quando vim para a moda. Estudei Belas-Artes e fiquei encantada por esta pluralidade que a moda engloba. Não é só roupa, nem só tendências. Para mim, é juntar fotografia, desenho, vídeo, tudo. Para aqui, trouxe a pintura”, explica a criadora ao Observador, minutos após o final do desfile.

Inês Torcato © Cristóvão Costa/Observador

Aos 28 anos, Inês Torcato começa a dispensar o rótulo de nome promissor da moda portuguesa. Ao longo dos últimos três anos, definiu uma identidade enquanto criadora e progrediu dentro das suas próprias linhas de jogo. Soube mantê-las suficientemente abertas para crescer e diversificar-se, ao mesmo tempo que as respeitou, garantindo assim o desenvolvimento de uma marca sólida e coerente. Afinal, esses são passos tão ou mais importantes do que apresentar silhuetas irrepreensivelmente construídas e peças de acabamentos perfeitos. Também o tem feito, imagine-se.

Nesta coleção em particular, assistimos a um desabrochar da jovem criadora, filha de Júlio Torcato, veterano da moda portuguesa de autor. Um desabrochar ou então a consolidação de um novo nível de complexidade. Se no primeiro momento do desfile, tivemos uma linguagem muito mais próxima daquilo a que Inês tem habituado o público — bastante centrada numa escala de brancos e cinzentos, atida aos preceitos da alfaiataria –, o segundo ato trouxe um conjunto de peças em ganga crua. A poça de tinta no meio do chão era, afinal, um prenúncio do azul que estaria por vir. Daí, partiu para a serenidade dos beges e brancos, tocou em rendas e folhos, fazendo a ligação, até aí pouco clara, com os três coordenados que abriram o desfile. Falamos de looks quase batismais. Quanto à velha alfaiataria, os elementos mais óbvios, como a risca de giz, podem ter ficado de fora, mas a construção está lá.

Inês Torcato © Cristóvão Costa/Observador

“Diria que toda esta coleção pode ser vestida por homens e mulheres”, admite. Inês Torcato haveria de chegar a este ponto, mais tarde ou mais cedo. A fluidez das silhuetas combinada com a androginia inerente ao fato sempre lhe permitiram ser portadora deste estandarte. Nos materiais, a natural e urgente preocupação com o ambiente. Falamos de uma coleção onde 90% dos materiais são reciclados, orgânicos, naturais ou vegetais, segundo explica a criadora. Entre eles, duas novas fibras, uma obtida de resíduos de plástico retirados do mar, a outra exclusivamente feita a partir de garrafas de plástico. À semelhança do criador David Catalán, a partir desta quinta-feira, há uma seleção de peças da nova coleção de Inês Torcato à venda na Wrong Weather.

Abrandar, reciclar e recordar: os caminhos de Carla Pontes, Estelita e Catalán

Coube a Carla Pontes abrir o segundo dia da 45ª edição do Portugal Fashion. Sem desfile, a criadora preparou uma instalação num dos corredores da Alfândega do Porto. No início, ainda se especulou sobre de onde viriam as manequins. Mas até essas foram substituídas, neste caso, por três cubos de luz. O formato foge ao glamour de um desfile convencional, certamente aguardado por muitos, mas sublinha a mensagem: Carla Pontes está a abrandar.

Carla Pontes © Cristóvão Costa/Observador

“Esta instalação tem a ver com a necessidade de tempo para o processo criativo e com a preocupação de fazer um tipo de moda mais lento. A intemporalidade das peças foi sempre importante para mim, desde as primeiras coleções, agora quis solidificar o produto que já tenho em vez de estar a fazer mais um desfile”, refere Carla, em conversa com o Observador. Através da exposição, a criadora quis mostrar o processo de desenvolvimento de uma peça, o que habitualmente não cabe no formato de desfile. Quanto à coleção propriamente dita, a designer revela estar a querer livrar-se da ditadura das estações. Neste caso, abrandar também passa por ter coleções permanentes e por apostar em peças versáteis.

Estelita Mendonça © Cristóvão Costa/Observador

A tarde foi ainda de Estelita Mendonça, que partiu de dois conceitos, à partida desconexos, para construir uma coleção que parece querer ir além da próxima estação quente (o criador chama-lhe um pre-fall 2020). Sustentabilidade e cultura de cancelamento foram os temas em cima da mesa. Daí, partiu para um guarda-roupa casual onde os pespontos brancos sobre tecidos escuros, as calças cargo e um tie-dye verde e lilás foram os elementos chave. Além da utilização de materiais naturais e reciclados, destaque para a parceria do designer com o Tintex e para os esforços em reduzir a pegada ambiental dos processos de tingimento.

David Catalán © Cristóvão Costa/Observador

Para David Catalán, o desfile desta quinta-feira foi um desfazer de malas. Depois de ter apresentado a coleção em Milão, em junho deste ano, o criador trouxe para o Porto a sua viagem até aos anos 90 do século passado. As experiências sobre ganga, o xadrez e o sportswear colegial marcam as propostas do designer para o próximo verão. Luís Buchinho, o grande nome deste segundo dia, também já tinha levado a antevisão a outras. Depois de Paris, num formato de apresentação, o desfile na Alfândega do Porto. Em “Turista Acidental”, o título da coleção, Buchinho esteve num balanço constante entre silhuetas invulgarmente soltas e aqueles que são os seus traços de assinatura. Entre plissados, cinturas bem marcadas, encaixes e camadas, este foi mesmo o momento mais poderoso da noite (e também o que mais gente levou à alfândega). Maria Miguel, uma das manequins portuguesas mais internacionais do momento encerrou o desfile.

Luís Buchinho © Ugo Camera

O dia encerrou com a estreia de Nicolas Lecourt. Ao jovem designer francês calhou uma sala a meio gás. Embora seja visto como uma promessa do design de moda — e que já vestiu Kendall Jenner — a coleção apresentada no Portugal Fashion revelou-se pouco coesa.

Open your Mind: 400 mil novos trabalhadores em dez anos

A meta é ambiciosa mas é o principal objetivo da nova campanha promovida pela Comissão Europeia e apresentada pela primeira vez esta quinta-feira, na Alfândega do Porto. Em causa está o crescimento e a inovação em quatro setores industriais — têxtil, vestuário, couro e calçado –, em seis países da União Europeia — Portugal, Espanha, Itália, Polónia, Roménia e Alemanha. Com a introdução de novas tecnologias a redefinir os métodos de produção, a campanha quer captar a atenção de jovens trabalhadores e assim garantir a longevidade destes setores da indústria transformadora europeia. Para isso, o projeto pretende angariar 400 mil novos trabalhadores ao longo da próxima década.

Os números falam por si. Se por um lado, o volume de negócios destes setores ultrapassa os 200.000 milhões de euros, empregando mais de dois milhões de pessoas em toda a Europa, por outra, o velho continente apresenta uma realidade muito própria, com uma média de dez funcionários por empresa (no total, são 225 mil) e com 20% dos trabalhadores acima dos 55 anos.

Para conectar jovens profissionais e indústria, a Comissão Europeia, através da EASME (Executive Agency for Small and Medium-sized Entreprises) e da DG GROW (Directorate General for Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs), vai além da campanha promocional, cujo o vídeo (lançado em sete idiomas) foi apesentado pela primeira vez neste segundo dia do Portugal Fashion. O projeto vai orientar a utilização estratégica das oportunidades de financiamento a nível nacional e europeu.

O trabalho será feito junto de parceiros estratégicos: empresas, entidades e instituições públicas e centros de investigação e educação, preenchendo lacunas entre as necessidades da indústria em termos de conhecimentos técnicos e a formação existente, mostrando a atratividade destes setores no que toca a oportunidades de carreira, fornecendo metodologias inovadoras de educação e formação, promovendo e melhorando a mobilidade transnacional em termos de formação e emprego, também através de ferramentas já existentes na UE, como o Erasmus+ e as Alliances for Traineeships, e estabelecendo uma cooperação estratégica a longo prazo entre os principais parceiros regionais, nacionais e europeus.

No total, serão realizados 72 eventos em 60 locais. Esta não é a única frente. Num esforço para fomentar a economia europeia, a Comissão Europeia desenvolve, em simultâneo, ações noutros setores, como é o caso da indústria automóvel, da construção e do turismo. Não foram especificadas quaisquer medidas do projeto “Open your Mind” a serem aplicadas em Portugal, da mesma forma que não foi revelado o investimento feito pela Comissão Europeia na nova estratégia.

O Portugal Fashion continua esta sexta-feira, na Alfândega do Porto. A partir das 17h, esperam-se os desfiles de Nycole, Diogo Miranda, Sophia Kah, Hugo Costa, Pé de Chumbo e Miguel Vieira. Para já, veja as imagens dos desfiles que marcaram este segundo dia, na fotogaleria.

O Observador viajou para o Porto a convite do Portugal Fashion.