Paris consegue ser, simultaneamente, uma metrópole esmagadora e um postal romântico. Na noite de quinta-feira, em plena semana da moda, três designers portugueses apresentaram as suas coleções para a próxima estação quente na Praça Vendôme, símbolo do luxo que se respira na cidade, prova de que, por mais charmoso que seja o postal, a sua monumentalidade pode também ser intimidante. Foi ali, num segundo andar, entre lustres, cortinas de veludo e papéis de parede com relevos, que a modesta comitiva portuguesa — composta pelos criadores de moda Luís Buchinho, Katty Xiomara e Luís Carvalho — recebeu os seus convidados. Não foi um desfile, não foi uma instalação, foi uma festa.

Luís Carvalho não apresentava em Paris há mais de dois anos. Na altura, em junho de 2017, estreava-se na cidade luz apenas com propostas masculinas. Agora, em resultado do trabalho conjunto entre Portugal Fashion e ModaLisboa, regressou com os vestidos longos e fluidos que já o caracterizam. Inspirado pelos anos 20 do século passado, sobretudo pela art déco, se bem que com uma pitada de loucura à mistura, ocupou a sala com um grupo de manequins estáticos. Ver as peças de perto e tocá-las foi possível, o criador fala num “sonho concretizado”. “De repente, a marca está à vista de mais gente, torna-se possível conhecer novos buyers, imprensa internacional. Sei que sou mais um no meio de mil, mas acredito que há sempre alguém atento e que acaba por reparar”, explica ao Observador, enquanto a apresentação ainda recorria.

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Com peças para homem e mulher, a marca Luís Carvalho cresce em dois eixos na coleção proposta para o verão de 2020 — se por um lado os vestidos de festa continuam a ser a face mais conhecida do criador, por outro, há uma parte do guarda-roupa feminino que se apropria cada vez mais das peças tradicionalmente usadas por homens. Falamos de fatos e dos cortes, cores e texturas próprios da alfaiataria. Parece que a emancipação feminina foi outra das referências trazidas para a passerelle. Visto de fora, parece só que homens e mulheres começam a partilhar o mesmo closet. “Também já fiz peças unissexo, mas não é isso que está aqui. Falo de looks que são muito idênticos, com a mesma silhueta, até porque já trabalho praticamente os mesmos materiais em ambos”, afirma.

Retas e fluidas, as silhuetas variam entre a leveza da seda, a exuberância de plumas e lantejoulas e a sobriedade de blazers que viram vestidos. O homem surgiu delicado e, no caso específico de dois dos coordenados, o género dilui-se num cor-de-rosa pálido e num detalhe das calças. Ali, entre o Ritz e o atelier da maison Schiaparelli, Luís Carvalho revelou apenas uma pequena parte do verão de 2020. No dia 13 de outubro, o designer apresenta a coleção completa em mais uma edição da ModaLisboa.

A sala ao lado foi ocupada por Katty Xiomara. As manequins comportavam-se como um grupo de amigas —  segredavam, sorriam e viam o telemóvel. À naturalidade da pose juntaram-se mudanças de roupa. Versáteis, algumas peças eram usadas de diferentes maneiras e tudo foi encenado de forma a que isso ficasse bem claro. “Porque não dar uma maior utilidade às peças?”, questiona a criadora. “Porque não tentar que as pessoas percebam que não têm de ter um guarda-roupa gigantesco para terem versatilidade de looks?”, continua.

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A coleção “After Now” é um ponto de viragem para a designer e para a marca rumo à sustentabilidade. A chamada slow fashion já faz parte das boas práticas da casa, a começar pela ausência de stocks. Ainda assim, o caminho é longo, tal como o passo dado com este verão de 2020. “O peso de pertencer a esta indústria é grande e começámos a senti-lo cada vez mais. Houve um trabalho de estudo por trás da modelação das peças, então há peças que se transformam”, explica. Da engenharia das próprias peças ao aproveitamento da matéria-prima, nenhuma frente foi deixada ao acaso. Um poncho pode ser usado de três formas diferentes, uma saia revela-se também um vestido. Duas das peças foram feitas sem qualquer desperdício de tecido, ao passo que os moldes foram pensados para diminuir a quantidade de tamanhos —  “Não temos fechos, apenas numa peça mais justa. O resto é tudo com trespasses, dobras e volumes”, continua.

Aos poucos, Katty Xiomara volta-se também para materiais com menos impacto no meio ambiente, como é o caso do algodão e do poliéster reciclados. “[Este último] por ser reciclado, permite-nos continuar a estampar, isso faz parte do ADN da marca. Enveredámos pelo eco design mas não queremos que o ADN desapareça. Se repararmos nas marcas que têm uma bandeira sustentável, a maior parte é pouco colorida, tem mais intemporalidade. Tentámos ter alguma, mas também temos de ter algum pormenor mais marcante”, refere a criadora, que regressa a Paris depois de nos últimos anos ter apresentado coleções durante as semanas da moda de Nova Iorque e Milão. No Porto, Xiomara apresentará em outubro a coleção completa, durante a edição nacional do Portugal Fashion.

De uma forma ou outra, o sentimento de mudança é algo comum a qualquer um dos protagonistas da última quinta-feira. Luís Buchinho, um habitué do calendário do Portugal Fashion em Paris, prescindiu do desfile, momento que lhe é tão caro, para testar o novo formato. Enquanto as manequins permaneceram duma ponta da sala, enquadradas por painéis de luz, criador ficou do outro lado. A adrenalina que costuma esconder nos bastidores, aqui, esteve à frente de toda a gente. “Acho que as mudanças também podem ser encaradas de uma maneira positiva. Aqui, estamos mais próximos do formato de um lookbook, com uma proximidade muito grande em relação ao que se está a apresentar. O público quase toca nas peças, interage muito comigo, que costumo estar lá atrás”, afirmou o designer.

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Embora a testar um formato diferente, não abdicou de dar uma imagem completa da coleção. Foram 47 coordenados, muitos deles distantes do que entendemos como universo Buchinho. Peças leves, fluidas, praticamente sem cinturas marcadas — ao mesmo tempo que descontraiu a silhueta, o criador trabalhou intensivamente os materiais. “Fui ao meu stock de tecidos. Tinha lá matérias-primas excelentes que, de repente, só porque já tinham sido utilizadas, estavam completamente encostadas. Tinham um letreiro a dizer “morto”, mas dei-lhes um olhar novo — fiz prints em cima de prints, renovei padrões, peguei em tecidos lisos e transformei em plissados e com riscos”, explica o criador, que também já tem desfile garantido na edição nacional do Portugal Fashion.

Ao espírito relaxado da coleção, Luís Buchinho acrescentou laivos de crítica — das t-shirts com referências ao Porto aos lenços estampados, as referências aos souvenirs remetem para uma cidade à pinha, onde o turismo cresce a um ritmo galopante. “Tem muito a ver com o que tem acontecido comigo, a nível individual e como empresário — a sustentabilidade, a gentrificação, o turismo exacerbado. Quis retratar isso com algum humor e com muita seriedade ao mesmo tempo”, explica. No que toca à questão ambiental, mais uma vez, o verão de 2020 é só o começo de uma mudança maior. O designer já fala em repensar as relações com fornecedores — “em vez de pedir tecidos a sete fornecedores diferentes, ter só dois para haver menos transportes” — e em atingir o tão desejado desperdício zero. “São ações muito pequenas, mas se todos as fizermos, a iniciativa individual vai mudar o coletivo”, termina.

O Observador viajou para Paris a convite do Portugal Fashion.