Brittany Kaiser, ex-diretora e denunciante do caso Cambridge Analytica, foi uma das principais oradoras desta terça-feira na Web Summit. A mulher responsável pela divulgação do maior caso de uso indevido de dados — a Cambridge Analytica utilizou 87 milhões de perfis do Facebook para influenciar eleições — não foi mansa nas palavras. Num ataque direto às decisões de Zuckerberg sobre a sua rede social, disse: “Agora, tudo o que sai da boca de um político é considerado digno de notícia e, portanto, não será tido em conta nos mesmos padrões a que nós somos, nem mesmo das leis que já temos”.

Numa conferência de imprensa que decorreu esta tarde, Kaiser continuou a narrativa que tem tido desde o documentário “Nada é Privado – O Escândalo Cambridge Analytica”: o mal é das tecnológicas, principalmente de Mark Zuckerberg. E é este mal que faz com que campanhas como a de Jair Bolsonaro tenham “tido táticas parecidas com as que foram usadas na campanha de  DonalTrump”, acusa.

Mark Zuckerberg fez outro discurso, para falar sobre o quanto investiu para nos proteger contra a intervenção estrangeira nas eleições, o que é obviamente muito necessário e muito louvável, mas o que ele não reconheceu é que a maior ameaça às nossas democracias não é estrangeira, mas sim doméstica”.

“Táticas de comunicação foram usadas para dissuadir mulheres e minorias como eu de irem às urnas, mostrando-nos desinformação e informações que não podiam ser facilmente verificadas e que o Facebook não tinha uma solução tecnológica para identificar e parar”, afirmou Kaiser. Segundo a delatora, atualmente, por mais promessas que o Facebook faça, “ainda estamos incrivelmente desprotegidos”.

Não temos muitas das soluções tecnológicas necessárias para rastrear os nossos dados, para ter total transparência sobre onde estes terão consentimento”, conta.

A solução para este problema podia passar por regulações como um RGPD (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados europeu) expandido nos EUA. Contudo, para tal funcionar, era preciso ser “ao nível federal”.

“Já vimos isso e alguns estados, o estado de Wyoming e o estado de Minnesota, têm a jurisprudência que mostra que os dados são  propriedade das pessoas e que os ativos digitais são propriedade pessoal intangível”. Contudo, para não acontecer nas eleições presidenciais norte-americanas em 2020 o que aconteceu em 2016, é preciso legislar-se rapidamente, defendeu.

Acho que as grandes organizações e empresas de todo o mundo podem decidir tomar a decisão ética de ter um relacionamento mais transparente com seus consumidores”, pediu Kaiser.

O que muda na vida de um delator depois da denúncia? “Se és um denunciante, significa que estiveste envolvido em algo para denunciar”

“Este foi o ano e meio mais difícil da minha vida”, assumiu Kaiser aos jornalistas relativamente à decisão de ter revelado os segredos nefastos do trabalho em que estava envolvida na Cambridge Analytica. “O que muitas pessoas não percebem é o que é preciso para decidir se tornar um denunciante. Se és um denunciante, significa que esteve envolvido em algo para denunciar”, assumiu com pesar.

“Portanto, tendo essa reação emocional de culpabilidade e assumindo que estava envolvido, é preciso decidir ajudar legisladores e reguladores em todo o mundo a reconhecer as falhas na lei”, referiu a ex-trabalhadora da Cambridge sobre o seu caminho para redenção. “Agora, este é o meu propósito para o resto da vida para proteger as pessoas e garantir que não tenhamos que lidar com isto no futuro”, assumiu.

Brittany Kaiser trabalhou na primeira campanha de Barack Obama para a Casa Branca. Foi ela que ajudou a criar o perfil de Facebook do antigo presidente norte-americano. A 17 de abril de 2018, Brittany Kaiser foi ouvida no Parlamento britânico por causa do trabalho que desenvolveu para a empresa de análise de dados e consultoria política.

A Web Summit arrancou oficialmente no final desta segunda-feira e vai decorrer até 7 de novembro. Nesta terça-feira, o palco principal da Altice Arena vai recebeu nomes como Brittany Kaiser (ex-analista na Cambridge Analytica) ou Rohit Prasad (o “pai” da Alexa da Amazon).