Quente: Tony Blair e as críticas a Tony Blair

Quando é Tony Blair quem elegemos como a estrela de rock desta quarta-feira, fica tudo escrito sobre as temperaturas do dia. No Altice Arena — com exceção para o painel em que participou o conselheiro legal de Julian Assange, Juan Branco — pouco ou nada aqueceu durante a conferência. O dia mais frio da Web Summit foi o do meio e nem a visita empolgada de António Costa nos fez tirar o casaco e o cachecol (por falar nisso, acho que ficámos doentes). A maior conferência de empreendedorismo e tecnologia está cada vez mais política e mais vale assumirmos: se é a um ex-primeiro-ministro britânico de 66 anos que temos de entregar o microfone para que o espetáculo continue, então ele que o agarre e que o leve.

Num apelo expresso à intervenção dos governos na tecnologia, Blair não hesitou em dizer que a política do Ocidente estava “depressiva” e que “a tragédia do Brexit” mostrava que os países estavam a distrair-se daqueles que são os grandes desafios da atualidade. Pouco depois, foi Juan Branco, o advogado de Julian Assange (responsável pelo Wikileaks) a exaltar os ânimos, com críticas explícitas a Tony Blair, a Emmanuel Macron e à própria Web Summit:  “É preciso pagar 1.500 euros para estar aqui. Conseguimos perceber o quão absurdo… Num país em que o salário médio é quase metade desse preço. E isso, claro, é provocado por esta ideologia de globalização”, disse. E desta não estávamos à espera.

Morno: Costa faz périplo de selfies e startups

As temperaturas estiveram tão frias que não foi preciso muito para aquecermos durante a tarde — bastaram as selfies e os passeios de António Costa para nos fazer tirar as mãos dos bolsos. Entre pitches de empresas como a Microsoft e gracejos com Tiago Brandão Rodrigues sobre os voluntários da Web Summit. “Há 21 anos, lembramo-nos todos do que foi a Expo 98. O senhor ministro da Educação, que foi aqui voluntário na Expo 98. E foi não porque a Expo estivesse aqui a explorar, mas porque quis viver por dentro esta experiência que a Expo lhe proporcionou (…) E fez-lhe bem”. Não sabemos se os voluntários — que têm parecido um pouco desorientados nesta edição da Web Summit — sentiram o mesmo, mas por via das dúvidas, pensem positivo: se calhar daqui a duas décadas estão em São Bento, a ter a palavra final sobre Paddy, o governo e o legado de Costa.

Gostávamos de salientar algo mais dos palcos da Web Summit, mas, no principal, quase adormecemos. E nos restantes, perdemo-nos com as indicações erradas que os voluntários nos deram. Não chega para tudo.

Frio: Estes momentos com a robô Sophia já estão a ser estranhos

Vamos ser honestos: já ninguém aguenta a robô Sophia. Tudo bem, ela de facto é um robô que fala como um humano. Sim, tudo bem, é impressionante ver dois robôs a interagirem em palco. Mas quando a cena se repete uma e duas vezes, o divertido passa só a estranho — como naqueles momentos em que a small talk acaba no elevador com alguém que não temos grande vontade de conversar. Não é só porque é aborrecido, é porque a tecnologia não é, de todo, perfeita (nem está perto disso). E aquilo que poderia ser um bom momento para assistirmos a uma das principais evoluções tecnológicas dos últimos tempos — e que mais impactos vai ter no nosso dia a dia —acaba por ser apenas uma constatação de que podemos ir todos dormir descansados esta noite: a Sophia não nos vai entrar pela casa dentro e assombrar ou, à boa maneira do “Exterminador Implacável”, matar. Excesso de marketing afasta quem não gosta de ver as suas expectativas defraudadas.

E se há repetições que são boas, esta, se calhar, era escusada. Até porque a ausência às vezes é boa — nem que seja para criar saudades. Quem é que não gostaria de dizer: dizer “Ahh, que bom que era quando a Sophia vinha à família Web Summit”. Esse dia não é hoje, nem amanhã, nem depois. Mas, amanhã, este termómetro volta a medir temperaturas pela última vez este ano.