— Senhor primeiro-ministro, tira uma selfie comigo?
—Claro.
— Alguma mensagem para o Bangladesh?.
— São bem-vindos em Portugal.

A certa altura, durante a visita de António Costa à Web Summit, até o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira — que o acompanhou nos pavilhões da FIL, juntamente com Tiago Brandão , ministro da Educação — segurava um telemóvel para tirar uma fotografia a alguém com o líder do Governo. As arruadas da campanha eleitoral podem ter acabado a 4 de outubro, mas o percurso de Costa e da sua comitiva pelos stands das startups, durante esta tarde, mostravam um líder que, para os estrangeiros que olhavam, estava em casa.

Mesmo rouco, Paddy Cosgrave recebeu o primeiro-ministro

A visita começou com Paddy Cosgrave, o fundador e presidente executivo da Web Summit, a receber António Costa à porta do Pavilhão Atlântico. Rouco (Paddy ficou ontem doente), falou um pouco com o líder português. “Há discussões importantes sobre o futuro da tecnologia (…) É importante saber o que fazemos para as gerações futuras“, falaram. Ao contrário do resto da visita, o momento com Paddy foi curto. Só no final da visita é que Costa iria falar sobre as taxação que defende para os “gigantes tecnológicos” e sobre os voluntários não remunerados no evento. Mal deixou Paddy, o socialista foi em direção ao pavilhão 1, onde tinha marcada visita ao stand da Google e da Microsoft, para falar sobre as parcerias com o Estado português.

No stand da Google, já Graça Fonseca, ministra da Cultura, esperava a comitiva do primeiro-ministro com Bernardo Correia, o responsável nacional da empresa para Portugal. O principal tópico foi a parceria do programa Google Arts & Culture, que preserva digitalmente milhares de obras portuguesas sob a manutenção e gestão da empresa norte-americana. A visita também aconteceu porque o Governo quer promover mais parcerias com a empresa. Prova disso foi o desafio deixado por Graça Fonseca: “Ter uma área [no site do projeto] para miúdos, para as novas gerações serem curadores do seu próprio museu”.

O primeiro-ministro ainda deixou uma sugestão espontânea: “Pode até ser um jogo. Peças a ver com os Descobrimentos”, sugeriu, antes de seguir para um stand próximo, o da Microsoft. A empresa de Redmond criada por Bill Gates tem inúmeras parcerias com o Estado, como demonstrou. Estas parcerias são principalmente na administração, Educação, Saúde e com o IRN. Como explicou uma responsável da empresa em Portugal, o objetivo desta venda de produtos ao Estado “é criar um serviço mais consistente no apoio ao cidadão”. Como se ouvissem a uma aula, a comitiva ouviu o pitch da Microsoft.

António Costa enquanto ouvia a apresentação da Microsoft juntamente com Alexandra Leitão, secretária de Estado Adjunta e da Educação

Depois, começou o passeio pelas startups, que só foi interrompida por passagens em empresas que trabalham com o Estado, como a Vinci — que mostrou a tecnologia na qual está a trabalhar para reconhecimento de passaportes nos aeroportos — e a Siemens — onde foi revelado um “investimento para fabricar carregadores na fábrica da empresa em Portugal”. Antes de a visita a acabar na concorrente da Siemens, a Nokia, houve um convite desta empresa alemã: “A Nokia esta sempre em concorrência, mas ficava orgulhoso que visitasse a Siemens”, disse Pedro Miranda, responsável na empresa.

Foi nas startups que Siza Vieira, Brandão Rodrigues e Costa, sempre juntos, aproveitaram mais a visita. Ao todo passaram pelas seguintes empresas (todas portuguesas): faniak, Inlife, HomeCarshare, Ripartrip, Ubirider S.A., Slync, Critec, Uptype, Doppio. Pelo caminho, startups como a Planning 4life ou a Huub aproveitavam a comoção para interromper o primeiro-ministro com um pitch (e mais uma selfie). Tal foi o à vontade dos líderes eleitos que, a certo momento, Tiago Brandão Rodrigues até tirou o seu iPhone do bolso para instalar uma das apps que procurava investimento.

António Costa num dos momentos com empreendedores

Até chegar ao stand da Startup Portugal, onde, ao lado de uma das líderes da Nokia, Ursula Soritsch-Renier, anunciou 100 novos empregos para “tecnologias de informação”, os ministros faziam perguntas aos empreendedores quase como se fossem os tubarões do programa de televisão “Shark Thank”. “Já estão no mercado ou arrancar agora?”, pergunta Costa. “Como é que estão a fazer a prestação de serviços?”, pergunta Siza Vieira. Até para ajudar numa coisa muito Web Summit, o networking, António Costa quis ajudar: “Precisa de falar com o vereador?” — virando para trás para a comitiva– “Ele não está por aí?”.

A visita aos pavilhões da FIL terminou com a Nokia: “Uma empresa com dois mil postos de trabalho em Portugal que vai abrir novo centro de excelência para mais postos qualificados”, disse Costa. No fim, depois de falar sobre os temas mais quentes da Web Summit, acabou a elogiar o evento que, em 2015, o anterior executivo anunciou que vinha para Lisboa: “Nesta quarta edição, sinto que há uma dinâmica maior neste nosso ecossistema. E mais estrangeiros virem a Portugal. A Web Summit é reconhecida internacionalmente”.

Costa e a taxação às “gigantes tecnológicas” e os voluntários que “também havia na Expo”

Foi apenas a respostas a perguntas a jornalistas que António Costa falou sobre um dos temas esperados para a visita à Web Summit: a taxação dos “gigantes digitais”. Esta terça-feira, em Praga, o primeiro-ministro já tinha avançado o tema e explicou melhor no final da visita: “A ideia não é cada governo avançar isoladamente. É a nível europeu que deve haver esse avanço. Isso permitirá criar novos recursos próprios para a própria União Europeia num momento em que o Reino Unido sai”.

O primeiro-ministro aproveitou o evento para falar sobre a nova aposta da Nokia

E continuou: “Aliás, está para breve uma iniciativa da própria OCDE para que possa haver essa taxação a nível global. Vimos aqui algumas das grandes empresas tecnológicas, mas vimos aqui também uma infinidade de micro, pequenas e médias empresas ou de startups que se propõem a ser isso”.

Para a concorrência, é muito desleal estas startups que aqui estão têm de pagar os seus impostos no país onde estão. Estas grandes tecnológicas acabam por não pagar impostos nos sítios onde produzem rendimento. Obviamente que é impossível taxar isoladamente em cada país. Em Portugal, torna-se mais fácil se o fizermos à escala da União Europeia e à escala da OCDE“, disse Costa.

Já relativamente a outros dos assuntos quentes que a Web Summit cria, os voluntários não remunerados que estão a trabalhar nos dias do evento, António Costa não deu relevância à questão e até chamou o seu responsável pela Educação e a Expo98 para a discussão. “Este evento, como parte dos eventos, vive de diversas formas”, disse. “Muitos deles [dos jovens] são voluntários que acham que é uma oportunidade para conhecer o evento por dentro e isso também contribui para a sua própria formação”.

 Há 21 anos, lembramo-nos todos do que foi a Expo 98. O senhor ministro da Educação, que foi aqui voluntário na Expo 98. E foi não porque a Expo estivesse aqui a explorar, mas porque quis viver por dentro esta experiência que a Expo lhe proporcionou”.

Em resposta, Tiago Brandão Rodrigues, que estava ao lado do primeiro-ministro, ainda respondeu: “Não o teria feito de outra forma”. E, concluiu, Costa gracejou: “E fez-lhe bem essa experiência de voluntariado”.