No prefácio de Drácula, Bram Stoker deu a entender que o romance que tinha acabado de publicar tinha sido baseado em factos verídicos. A prática era recorrente naquela altura — também Mary Shelley, no prefácio do seu Frankenstein, disse, citando o “Dr. Darwin e alguns dos escritores fisiológicos da Alemanha”, que os acontecimentos relatados por si não eram totalmente improváveis — talvez, algures nas montanhas do leste da Europa, um cientista louco estivesse naquele preciso momento a criar um monstro a partir de cadáveres humanos. Essa busca de Stoker pela verdade na ficção era ainda mais evidente num primeiro prefácio de Drácula censurado pelo seu editor na Archibal Constable & Company, Otto Kyllman, que temia que as palavras do escritor irlandês gerassem o pânico entre os leitores.

Nesse texto, Stoker dizia que a “misteriosa tragédia” que se descrevia era “totalmente verdadeira em todos os seus aspetos”, que tinha apenas omitido alguns pormenores e alterado o nome das pessoas e locais envolvidos. De resto, segundo ele, o manuscrito tinha permanecido “inalterado, em deferência para com os desejos daqueles que consideraram ser seu dever apresentá-lo aos olhos do público”. “Estou bastante convencido de que não restam dúvidas de que os eventos aqui descritos ocorreram de facto, por inacreditáveis e incompreensíveis que possam parecer à primeira vista. E estou convencido, também, de que deverão permanecer sempre, em certa medida, incompreensíveis”, escreveu o autor que, sem saber, estavas prestes a oferecer ao mundo uma das personagens mais populares de sempre.

É desta premissa — que os eventos relatados em Drácula foram inspirados em factos verídicos — que parte o romance Dracul, recentemente publicado em Portugal pela Topseller. Escrito pelo sobrinho-bisneto do próprio Bram Stoker, Dacre Stoker, e por J.D. Barker, autor de Forsaken, o livro narra a infância e juventude de Stoker nos arredores de Dublin, na Irlanda, e como, em adulto, teve de enfrentar o monstro do seu próprio romance, Drácula. Misturando factos com ficção, Dracul serve também uma porta de entrada para o mundo do criador de Drácula, dando a conhecer as suas aspirações e inspirações e alguns pormenores menos conhecidos, mas fundamentais, da sua vida.

Dracul foi publicado no ano passado. Chegou agora a Portugal, pela Topseller

Esta tem sido, aliás, uma das lutas de Dacre Stoker, que desde que mergulhou a fundo na biografia do seu “famoso familiar”, irmão do seu bisavô, George Stoker, tem corrido o mundo para apresentar a palestra Stoker on Stoker, durante a qual tenta separar o mito da verdade. “Grande parte da motivação passa por deixar que as pessoas saibam quem foi o Bram e por chamar a atenção para as informações mais recentes e precisas sobre a sua pesquisa e escrita de Drácula”, disse, numa entrevista concedida por email, ao Observador. Ao longo dos anos, Dacre, que fez parte da equipa canadiana de pentatlo e que participou nos Jogos Olímpicos de 1988, na Coreia do Sul, foi percebendo que “a maioria dos fãs de Drácula não fazem ideia” de quem o seu autor “realmente era ou o que e que o inspirou a escrever” a sua obra.

Apesar de sempre ter sabido quem era o seu tio-bisavó, Dacre Stoker, natural de Montreal, no Canadá, mas atualmente a residir nos Estados Unidos da América, só ganhou verdadeiro interesse pela história de Stoker quando, há mais de dez anos, decidiu escrever uma sequela de Drácula. “Drácula, O Morto-Vivo foi a minha introdução ao mundo do meu famoso familiar e à sua criação gótica. Foi assim que percebi o quanto gosto de pesquisar sobre a vida de Bram e sobre o seu processo de escrita”, explicou o canadiano, de 61 anos, ao Observador. Publicado em 2009, o romance (editado em Portugal pela Planeta), que começa onde o seu precedente acaba, foi escrito em conjunto com Ian Holt e não teve as melhores críticas. Um crítico descreveu-o como “tentador o suficiente para ler e mau o suficiente para ser controverso, alcançando um equilíbrio entre o sensacionalismo e a mediocridade”.

Drace Stoker não se deixou abalar pelas críticas negativas, e decidiu voltar à história do seu tio-bisavó mais uma vez. Melhorou muitos dos aspetos que tinham sido criticados no livro anterior e criou um romance que está muitos furos à frente do seu antecessor. Material não lhe faltava: “Fiz muitas outras pesquisas sobre a vida do meu tio-bisavó e a escrita de Drácula desde que Drácula, o Morto-Vivo foi publicado. Senti que tinha uma história muito especial para contar, que Bram Stoker tinha boas razões para acreditar que os vampiros eram reais e que Drácula era um aviso sobre a sua presença”. Na opinião de Dacre, Stoker teria “conhecimento dos relatos de vampiros que existiam um pouco por toda a Europa, no século XVIII, e também em New England, nos Estados Unidos da América, no século XIX”, e acreditaria que eram reais. “O que Bram fez de forma muito eficaz foi colocar esta história em lugares reais e recorreu e eventos verídicos que tornaram a história muito realística”, considerou.

Bram Stoker nasceu nos arredores de Dubil, na Irlanda, em 1847, e morreu em Londres, em 1912. Publicou Drácula, o seu grande sucesso literário, aos 50 anos (© Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images)

Vlad Tepes, a inspiração para o Conde Drácula? “Existem provas”, garante Dacre Stoker

Um ponto que continua a gerar discussão é o da figura que terá dado origem ao vampiro de Bram Stoker. Vlad Tepes, conhecido como Vlad, o Empalador, pelo seu gosto por assistir a empalamentos, príncipe da Valáquia, uma região da atual Roménia, é geralmente apontado como a figura que terá inspirado o escritor irlandês. A principal razão é que, além de cruel, Vlad III era conhecido como Dracula, que significa “filho de Dracul”, expressão que deriva da palavra latina draco, ou seja, “dragão”. O príncipe pertencia à Ordem do Dragão, uma ordem de cavalaria fundada em inícios do século XV pelo rei da Hungria. Esta ligação entre o Drácula romeno e o Drácula do romance foi estabelecida pela primeira vez em 1972, por dois professores da Boston College, em Massachusetts, nos Estados Unidos da América, Raymon McNally e Radu Florescu, no livro Drácula — o príncipe de muitos rostos. A sugestão de McNally e Florescu é discutível, uma vez que não existem, nas notas de Stoker, indícios de que o escritor tenha usado Vlad Tepes como modelo.

Dacre acredita, no entanto, que “existem provas” e que essas estão nos livros que Stoker usou para fazer a sua pesquisa: “Encontrámos dois livros que usou na sua pesquisa. Um está na Biblioteca de Londres e outro na Biblioteca de Whitby”, contou. Stoker visitou a localidade, na costa litoral de Inglaterra, em 1890, sete anos antes da publicação de Drácula. O local tem sido associado desde então à história e é palco de uma cena importante em Dracul, que reconstitui os episódios que levaram à escrita de Drácula. “[Os livros] dizem exatamente quem era Vlad Dracula III [outro dos nomes pelos quais era conhecido] e ambos dizem que Vlad era conhecido como O Demónio”, garantiu o sobrinho-bisneto do escritor.

As notas de Bram Stoker foram um dos vários materiais que Dacre Stoker e J.D. Barker consultaram para Dracul, que segue a mesma estrutura de Drácula — a história é contada a partir de cartas, diários e outros documentos escritos pelas personagens, para dar aos leitores “a sensação de os dois romances estarem ligados”, explicou o sobrinho-bisneto do escritor. Os diários de Stoker foram também importantes. Estes foram publicados pela primeira vez em 2012, depois de terem sido descobertos pelo bisneto do escritor, que vive em Inglaterra, no sótão. “Ele permitiu que eu e a Dr. Elizabeth Miller os publicássemos, juntamente com um comentário acerca dos tópicos sobre os quais Bram escreveu. Trabalhar dois anos nesses diários, primeiro tentando decifrar a caligrafia e depois procurando perceber quem eram as pessoas e lugares que ele referia, ajudou-me a ter uma boa compreensão da vida do jovem Bram, enquanto crescia em Dublin. Tornou-se mais fácil caracterizá-lo quando estava a escrever Dracul”, explicou Dacre.

Vlad Tepes, príncipe da Valáquia, uma região da atual Roménia, tem sido apontado como a inspiração para a figura do Conde Drácula de Bram Stoker

Os dois bisnetos de Stoker também desempenharam um papel fundamental, sobretudo porque Dracul relata a infância do escritor nos arredores de Dublin, marcada por uma doença desconhecia que o impedia de sair do seu quarto, e a sua juventude. “Tenho a sorte de manter o contacto com os dois bisnetos do Bram, que foram criados pelo filho dele, Noel. Ajudam-me muito quando preciso de saber alguma coisa sobre a vida dele.” Irving Noel Stoker é o único filho do criador de Drácula e da irlandesa Florence Balcombe, que viveu para ver a primeira adaptação cinematográfica do romance do marido, “Nosferatu” (1922), para processar os seus responsáveis e para ficar famosa por isso. Balcombe morreu em 1937, seis anos depois do “Drácula” com Bela Lugosi, uma produção da Universal Studios, ter estreado nos cinemas. Tinha 78 anos.

O Drácula islandês é o manuscrito perdido?

Uma obra que parece ter inspirado a escrita de Dracul é Makt Myrkranna. Makt Myrkranna, que significa “Poderes da Escuridão”, é uma versão de Drácula publicada na Islândia entre janeiro de 1900 e março de 1901, no jornal Fjalkonan, que pertencia a Valdimar Ásmundsson. Ásmundsson foi responsável pela tradução do romance de Stoker da língua inglesa para a língua islandesa e, aparentemente, por ter alterado o texto original. Isto porque, o Drácula que foi publicado na Islândia, não é igual ao que foi publicado em Inglaterra. “É mais violento, mais sexual, e tem algumas personagens que não se encontram na versão publicada em Londres em 1897”, resumiu Dacre Stoker, que decidiu aproveitar algumas dessas personagens, nomeadamente a da condessa Dolingen von Gratz, para Dracul. Desconhecem-se as motivações do diretor do Fjalkonan — o romance, publicada em livro em 1901 na Islândia, e traduzida pela primeira vez para o inglês em 2017, permanece, até hoje, um mistério. Mas Dacre tem a sua própria teoria: “Acredito que seja uma primeira versão do Drácula que conhecemos”.

Antes de Drácula ser publicado a 26 de maio de 1897, Stoker fez inúmeras alterações ao manuscrito inicial por insistência do seu editor, Otto Kyllman. Além das mudanças no texto propriamente dito e do encurtamento do epílogo original, as primeiras 101 páginas foram retiradas. O que lhes aconteceu, ninguém sabe. Dacre acredita que foram removidas “por Bram ou pelo seu editor para reduzir o tamanho do romance”. Uma parte do que desapareceu pode ser encontrada, segundo o sobrinho-bisneto do autor, no conto “Dracula’s Guest”, “publicado dois anos depois da morte de Bram”. Na opinião de Drace, indícios de como seria o Drácula original poderão igualmente ser encontrados em Makt Myrkranna, que terá tido o manuscrito inicial, enviado por Stoker a Ásmundsson, do romance como ponto de partida. Esta é, pelo menos, a sua teoria.

O que é certo é que passados 122 anos da publicação de Drácula, o romance de Bram Stoker, um rapaz doente que ninguém acreditava que pudesse chegar à idade adulta, com todas as suas interrogações e enigmas, continua a ser tema de conversa e a inspirar leitores no mundo inteiro. Se o seu autor estivesse vivo, o que é acharia da popularidade do seu vampiro? “Acho que ele acharia divertido [com as muitas adaptações] e ficaria orgulhoso por saber que a sua criação teve um impacto tão grande na cultura popular e na literatura.” Esse impacto estende-se a Dacre, que não tenciona deixar a história do seu tio-bisavó em paz tão cedo. Ao Observador, o canadiano admitiu estar a “desenvolver mais algumas histórias relacionadas com Drácula”. Está também a trabalhar em adaptações cinematográficas de alguns contos de Stoker.