Foi em 1816, o “ano sem verão”, que Mary Shelley começou a escrever aquele que viria a ser o primeiro romance de ficção científica da história. A ideia surgiu-lhe numa noite tempestuosa de junho, depois de um dos muitos serões passados em redor da lareira da Villa Diodati, uma mansão perto do Lago Lemano, em Genebra, que tinha sido alugada para o verão pelo poeta Lord Byron. Frankenstein, o livro, nasceu como Frankenstein, o monstro — entre trovões no salão de um antigo castelo. Mary tinha apenas 18 anos e, sem saber, tinha mudado o rumo da literatura.

Mas para perceber a história de Frankenstein, é preciso recuar dois anos, à altura em que Mary Wollstonecraft Godwin conheceu o poeta inglês Percy Bysshe Shelley na Escócia.

Em 1814, Shelley era casado com Harriet Westbrook, a filha de um taberneiro que tinha sido colega de escola das suas irmãs. Casados desde de 1811, os problemas entre os dois eram cada vez maiores. Shelley começou a acusar Harriet de ter aceitado casar com ele apenas por dinheiro e a procurar a companhia de outros intelectuais, passando cada vez mais tempo fora de casa.

Foi nessa altura que Shelley começou a frequentar a casa e a livraria do escritor William Godwin, pai de Mary Godwin. Cinco anos mais velho do que ela, foi amor à primeira vista. Reza a lenda que o primeiro encontro entre os dois aconteceu junto à campa da mãe de Mary, a feminista Mary Wollstonecraft (que tinha morrido durante o parto), no Cemitério de St. Pancras, em Londres. Ela tinha 17 anos, ele tinha quase 22.

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Mary Godwin (à esquerda) tinha 16 anos quando conheceu Percy Shelley (à direita)

Apaixonados, os dois decidiram fugir para França, deixando para trás a mulher de Shelley, que estava grávida do terceiro filho, Charles. Com eles, foi também uma das meias-irmãs de Mary, Claire Clairmont, que sabia francês e que tinha um caso com George Gordon Byron (Lord Byron), amigo de Shelley. Os três saíram de Inglaterra a 28 de julho de 1814, dando início a viagem que os levaria a Genebra, a Frankenstein e ao seu monstro. Uma viagem que parecia um “romance encarnado”, como descreveu Mary anos mais tarde.

Histórias de fantasmas à volta da fogueira

Depois de uma temporada em França, o casal mudou-se para a Suíça, em 1815. Em maio do ano seguinte, viajaram até Genebra com o filho de ambos, William, e Claire Clairmont, que pretendia passar o verão com Lord Byron, de quem estava grávida. Este juntou-se ao grupo a 25 de maio, estabelecendo-se numa mansão, Villa Diodati, junto ao Lago Lemano. Shelley alugou uma pequena casa não muito longe dali. Essa já não existe, mas a que Byron alugou ainda pode ser vista hoje, meio escondida entre as árvores que crescem junto ao lago.

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Apesar de ainda existir, a mansão onde esteve hospedado Lord Byron, atualmente nas mãos de um particular, não pode ser visitada

A separar os dois edifícios existia apenas uma vinha e os dois grupos costumavam juntar-se regularmente. Os dias eram passados a escrever ou, quando o tempo permitia, a dar longos passeios de barco. Porém, o mau tempo daquele “ano sem verão”, uma anormalidade climatérica provocada por uma série de erupções na Indonésia, obrigava-os muitas vezes a permanecer dentro de casa, conversando junto à lareira da Villa Diodati até altas horas da noite.

Este verão mostrou-se húmido e desagradável, e a chuva incessante obrigou-nos a ficar muitas vezes fechados em casa”, escreveu Mary Shelley em 1831.

No prefácio à edição de 1831 de Frankenstein, Mary relatou que, nesses serões à luz das velas, com a chuva a cair lá fora, era costume lerem histórias de fantasmas, traduzidas do alemão e do francês. Havia a história do jovem amante que, ao tentar abraçar a sua noiva, se viu nos braços de um pálido fantasma e a do homem cujo destino consistia em dar “o beijo da morte” a todos os descendentes da sua casa assim que estes alcançassem a adolescência.

Um desses serões foi retratado no prólogo de A Noiva de Frankenstein, a sequela de 1935 com Boris Karloff e Elsa Lanchester. O filme, realizado por James Whale, começa com os três amigos, Mary Godwin, que na altura já se apresentava como “Sra. Shelley”, Percy Shelley e Lord Byron, sentados à lareira a conversar sobre Frankenstein, enquanto uma terrível tempestade caía sobre o lago.

Numa dessas noites, Byron sugeriu que cada um inventasse a sua própria história de fantasmas. De acordo com Mary, ele próprio terá escrito “um conto, um fragmento do qual imprimiu no termo do seu poema ‘Mazeppa'” e Shelley terá começado uma história “baseada na experiência dos seus primeiros tempos”. O médico e escritor John William Polidori, que se encontrava hospedado na Villa Diodati, teve mais sucesso e foi capaz de criar um conto inteiro — “The Vampyre”, que apresentou pela primeira vez a personagem literária do vampiro tal e qual a conhecemos.

“The Vampyre” é considerado o antecessor de obras importantes que têm o vampiro como tema central, como o célebre Drácula, de Bram Stoker.

Mary, porém, parecia incapaz de inventar uma história só sua. “Entretive-me a pensar numa história — uma que rivalizasse com aquelas que nos haviam incitado a esta tarefa. Uma que falasse aos medos misteriosos da nossa natureza e despertasse horror arrepiante… Uma que fizesse com que o leitor receasse olhar à sua volta, lhe gelasse o sangue e lhe acelerasse as batidas do coração. Se não conseguisse estas coisas, a minha história de fantasmas seria indigna”, relatou no prefácio. Porém, todas as manhãs questionava-se: “Pensaste numa história?”. E todas as manhãs a resposta era a mesma: “não”.

16 de junho de 1816: nasceu o monstro

A inspiração acabou por chegar na madrugada de 16 de junho, depois de mais um dos serões em casa de Lord Byron durante o qual foram discutidas “várias doutrinas filosóficas” e “a natureza do princípio da vida e se existia alguma possibilidade de ele ser descoberto e comunicado”. O grupo deitou-se já depois da meia-noite e, enquanto tentava adormecer na escuridão do seu quarto, com a luz da lua a tentar entrar, Mary teve uma visão.

“A minha imaginação, sem ser solicitada, possuiu-me e guiou-me, ofertando-me imagens sucessivas que me surgiam no espírito com uma nitidez muito superior aos limites usuais dos sonhos.” Nessas imagens, Mary Shelley viu um “pálido estudante de artes profanas ajoelhado ao lado de uma coisa que acabara de juntar” e “um hediondo fantasma de um homem distender-se”. Graças a uma “poderosa máquina”, Mary viu o “fantasma” mexer-se e agitar-se. Aterrorizada com a sua própria visão, a escritora abriu os olhos. Tinha nascido Frankenstein.

Na manhã seguinte, Mary Shelley anunciou que tinha finalmente uma história de terror para contar. “Aconteceu numa noite sombria de novembro…”, começou por dizer, fazendo uma breve discrição da visão da noite anterior. O conto não era então muito diferente da história que Mary acabou por imortalizar num romance — um jovem estudante de medicina, Victor Frankenstein, decide criar um monstro a partir de cadáveres que roubava de cemitérios e hospitais. Graças a uma máquina por ele criada, consegue dar vida ao ser, que depois se revolta contra a sua triste condição, perseguindo o seu criador até à morte.

O potencial da história não passou despercebido a Shelley, que desde logo incentivou Mary, então com apenas 18 anos, a desenvolvê-la. No prefácio da edição de 1831, a autora admitiu que, se não tivesse sido por ele, talvez Frankenstein nunca tivesse passado de um mero conto de algumas páginas.

Rascunho daquele que viria a ser o quinto capítulo de “Frankenstein”. “Foi durante uma triste noite de novembro que contemplei o resultado do meu labor”, começa

O relato de Mary Shelley foi confirmado mais de 190 anos depois por Donald Olson que, juntamente com uma equipa de astrónomos da Universidade do Texas, procurou identificar a noite em que, “com o luar” a atravessar “as persianas corridas”, a escritora viu pela primeira vez Frankenstein e o seu monstro.

Em 2010, Olson e a sua equipa visitaram a Villa Diodati e descobriram que a visão de Mary aconteceu na madrugada de 16 de junho de 1816, entre as duas e as três da manhã, confirmado o relato da autora de que o grupo se terá retirado depois da meia-noite. Através da observação da lua, os investigadores descobriram também que Byron terá lançado o desafio das histórias de fantasmas uns bons dias antes, entre 10 e 13 de junho.

“Mary Shelley escreveu sobre a luz que entrava pela janela e, durante 15 anos, questionámo-nos se seria possível recrear aquela noite”, disse Donald Olson ao jornal The Guardian. “Recriámo-la. Não existem razões para duvidarmos do seu relato.”

Mary e Percy Shelley regressaram a Inglaterra em setembro desse ano. Em dezembro, a mulher do poeta, Harriet, foi encontrado morta e os dois puderam finalmente casar-se. A cerimónia aconteceu poucas semanas depois. Dois anos depois, Frankenstein viu a luz do dia. O livro tornou-se rapidamente num sucesso e foi elogiado por autores como Walter Scott.

Percy Shelley morreu apenas quatro anos depois (um mês antes de completar 30 anos de idade), afogado durante uma tempestade ao largo de Itália. Para Mary Shelley, Frankentsein e os tempos passados junto ao Lago Lemano transformaram-se numa lembrança de “dias felizes, quando morte e sofrimento eram simples palavras que não achavam verdadeiro eco no meu coração”, como fez questão de referir no prefácio de 1831. “As suas várias páginas falam de muitos passeios, de muitas viagens e de muitas conversas quando eu não estava sozinha e o meu companheiro era alguém que, neste mundo, nunca mais voltarei a ver“.

A folha de rosto da primeira edição de “Frankenstein”, de 1818 (à esquerda), e da edição de 1831 (à direita), onde surge pela primeira vez o prefácio de Mary Shelley escrito a pedido dos editores da Standard Novels

A popularidade de Frankenstein não se ficou pelo século XIX. Ao longo das décadas, foi adaptado vezes ao cinema, tornando-se numa das histórias de terror mais populares, a par de Drácula. A adaptação mais famosa é a de 1931, com Boris Karloff no papel do monstro maldito. A esta, seguiu-se a sequela de 1935, A Noiva de Frankenstein, com Elsa Lanchester no papel de noiva e Karloff novamente no papel do monstro. Apesar de só aparecer durante uns curtos segundos, a noiva de Frankenstein, com o seu cabelo ondulado e madeixa brancas, tornou-se numa das imagens mais icónicas da história do cinema.

O fascínio de Frankenstein vai muito além do facto de ser uma história de terror, e é por isso que a sua popularidade continua. Como toda a (boa) ficção científica, o livro aborda questões éticas que ainda são atuais, como o uso do conhecimento, que está no centro da obra, ou a criação de vida artificial, tema que seria abordado mais tarde por outros autores como Philip K. Dick, autor de Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (que tem edição portuguesa agendada pela Relógio d’Água para este mês de junho), que serviu de base ao filme Blade Runner, de Ridley Scott.

Imagens: Wikimedia Commons