Os 57 trabalhadores já previam que este dia chegasse há alguns meses, mas não esperavam chegar a vivê-lo. Os “rumores” passaram a verdade e esse dia chegou: “Segunda-feira estejam todos aqui às 8h00, que vamos comunicar qualquer coisa”. Foi assim que a administração da Helsar —  histórica fábrica de calçado em São João da Madeira — informou os trabalhadores que o fim estava a chegar, contou ao Observador António Assunção, um dos funcionários.

Esta segunda-feira, o advogado da Helsar informou o staff que a empresa vai entrar em processo de insolvência. António Assunção e mais 56 reclamam agora o subsídio de Natal, os dias de férias não gozados e têm noção que podem não receber os salários de dezembro e janeiro. “Foi-nos dito que isso já não era problema da empresa”, adiantou ao Observador. O próximo passo é aguardar pela nomeação de um gestor judicial, mas esse processo pode levar meses. “Entretanto, ficamos sem qualquer tipo de rendimento”, lamenta.

A Helsar abriu portas em 1979. Ao longo destes anos, chegou a calçar a irmã da duquesa de Cambridge e até teve direito a aparecer nas páginas da revista Forbes. António faz sapatos naquele local ao lado da mulher há 30 anos. As relações familiares são algo comum na fábrica. Juntos, têm dois filhos menores para criar. “Estamos aqui os dois. Assim, não entra nenhum salário em casa”, sublinha o operário.

Os quase 60 funcionários estão sem trabalho e sem rendimentos. Mas, para a Segurança Social e para o centro de emprego, ainda não são desempregados. E tudo porque o reconhecimento do processo de insolvência ainda não foi assinado. Os trabalhadores reclamam essa assinatura, mas nem a administração nem o advogado da empresa respondem. Sem esta assinatura, os trabalhadores não podem seguir em frente, procurar outros empregos, inscreverem-se no centro de emprego. 

A assinatura? Não querem, não fazem porque não querem fazer. Simplesmente porque não querem. E estamos neste impasse. O centro de emprego não nos pode reconhecer como desempregados neste momento, a Segurança Social também não. Ninguém nos reconhece. Estamos aqui numa terra do nada. Nem é uma coisa nem é outra: nem somos empregados, nem desempregados. Não somos nada neste momento”, lamenta António Assunção ao Observador.

Cerca de 40 trabalhadores protestaram esta terça-feira à porta da fábrica, com o objetivo de pressionaram a administração para a assinatura do processo de insolvência. Querem uma saída “digna”, afirmou António. O ambiente que se viveu em São João da Madeira foi “pesado e de indignação”, mas os trabalhadores insistem em pedir uma saída “digna”.

António Assunção reconhece que, nos últimos meses, a fábrica estava a diminuir a produção e que a situação se “agravou”. “Fomos parando secções, não havia matéria prima para as encomendas. Fomo-nos apercebendo, dia após dia, que a intenção da administração era deixar de produzir”, lamenta.

Ao lado dos trabalhadores, esteve o Sindicato dos Operários da Indústria de Calçado. O anúncio do fecho de portas também apanhou Fernanda Moreira de surpresa. A dirigente sindical pedia mais “respeito por pessoas que trabalham na Helsar há 20 e 30 anos”.

O futuro imediato destes trabalhadores não vai ser nada bom. Por um lado, não se conseguem inscrever no centro de emprego para começarem a receber subsídios de desemprego. Por outro lado, enquanto não forem despedidos, não podem começar a procurar emprego noutro lado. No final do mês, os funcionários não vão poder receber de lado nenhum: nem da empresa, nem da Segurança Social”, reforça a dirigente sindical.

Fernanda Moreira acrescenta que resta esperar pela nomeação do gestor judicial e garante que, pelo meio, o sindicato vai apoiar legalmente todos os funcionários da Helsar.