Júlio Penela lembra-se perfeitamente do primeiro molde para injeção feito na fábrica, de um Carocha: “O meu tio conta que foi um desafio lançado pelo meu avô, que queria fazer o carro em brinquedo, e que foi uma dor de cabeça.” Foi nos anos “50 e qualquer coisa”, na família já se faziam brinquedos desde a década de 1920 mas o bestseller da Volkswagen marcou uma nova era, quando se começou a usar a primeira máquina de injeção de plástico com alavancas para fazer réplicas exatas dos automóveis originais – houvesse moldes para servir de referência.

“Quando saiu o Renault 5 quisemos logo fazer o carro em brinquedo também”, continua Júlio, “e também foi uma festa quando conseguimos. Sempre primámos pela perfeição. Também sempre fomos obrigados a perceber de tudo. Lavávamos as mãos e íamos para o escritório”.

Júlio foi trabalhar para a fábrica aos 16 anos, hoje tem 52 e é a quarta geração à frente de um negócio de família que começou em 1921 e que um século depois continua a fazer sair de Alfena táxis, jipes, cães com rodas, cornetas, gruas, balanças e fogões de brincar, em plástico e lata.

Desde o volante aos pneus, passando pelo para-brisas, as jantes e os capacetes, são precisos pelo menos 16 moldes para fazer o jipe. © Luís Ferraz.

Os primeiros brinquedos eram feitos em madeira e folha de flandres, um tipo de chapa de ferro e aço, o plástico veio depois. “O meu avô só tinha a terceira classe, mas metia-se em aviões para a Alemanha e trazia os modelos da marca Gama para reinterpretar cá”, conta Júlio, enquanto mostra a camioneta de carga JAJ, de 1954, a ambulância Chevrolet e o bólide Mercedes dos anos 40 – “autênticas relíquias” guardadas na fábrica, numa sala-museu logo à entrada. JAJ eram as iniciais do avô que também trouxe o Carocha para as mãos das crianças portuguesas – José Augusto Júnior –, e a primeira designação da marca que entretanto passou a chamar-se JATO e depois PE-PE (de Penela e Penela, os dois irmãos que ficaram com o negócio nos anos 70, filhos de José Augusto Júnior, um pai e outro tio de Júlio). Pelo caminho ficaram os brinquedos em madeira, para desgosto de um funcionário chamado Manuel Rocha Ferreira, que continuou a fazer ciclistas, pombinhas, andarilhos e carros de bois em pinho por sua conta, depois de lhe serem oferecidas as máquinas necessárias.

Nos primórdios da marca, até os baldes de madeira eram feitos em madeira. © Luís Ferraz

Nos tempos áureos, a fábrica ocupava dois mil metros quadrados e empregava 90 pessoas. Num dia era possível cortar 147 400 eixos do Renault 5, como se lê num caderno de registos guardado pela família (neste caso referente ao dia 28 de abril de 1986). Hoje são quatro pessoas na equipa e desde o início dos anos 2000 começou-se a dividir o espaço e o negócio, que atualmente funciona maioritariamente como fornecedor de peças em plástico para a indústria e inclui também uma oficina de automóveis e um parque temático para crianças (onde
já têm acontecido workshops dos brinquedos tradicionais). Segundo Júlio Penela, o negócio ressentiu-se muito com “as crises do novo milénio, a concorrência dos produtos chineses e o aparecimento das normas da CEE” que obrigam mesmo a que muitos dos produtos da marca sejam vendidos com um autocolante onde se lê: “artigo de artesanato não recomendado a menores de 10 anos”.

Os moldes onde nascem os brinquedos foram todos feitos na fábrica. © Luís Ferraz

Em 2011 o grupo chegou a declarar insolvência. Um ano depois, Júlio e o filho Bruno Penela, de 27 anos, compraram os ativos aos antecessores e fundaram a BruPlast, a empresa de fabricação de plástico que atualmente representa 80% das vendas – os restantes 20 são os brinquedos clássicos “que nunca deixaram de se fazer”, mas que se fazem por teimosia e saudosismo. “Se pensarmos em números quase não dá lucro, porque continua a ser um processo muito manual”, diz o sócio e herdeiro. “Fazemos por paixão, porque gostamos muito e para não deixar morrer.”

De Alfena saem cerca de três mil brinquedos por ano, procurados sobretudo por revivalistas e lojas como A Vida Portuguesa, grande impulsionadora do negócio quando ele estava quase a morrer. O que dita a produção são as encomendas: “Fazemos os que mais se vendem”, diz Bruno. Entre os bestsellers estão a carrinha pão de forma, o carro dos bombeiros, o táxi, a máquina de costura, a balança, o fogão e a tábua de passar a ferro.

A balança em miniatura é um dos bestsellers. Ah, e a agulha mexe. © A Vida Portuguesa.

Brinquedos com latas de cerveja por dentro

“A parte da indústria é automática, nos brinquedos não mudou nada, é tudo feito como antigamente”, começa por explicar Júlio Penela antes de carregar no pedal da máquina a que chama balancé, de cortar e estampar chapa e nessa tarde usada para fazer o para-choques cromado do velhinho táxi preto e verde da Mercedes. Nos tempos do bisavô e do avô do atual gerente usava-se folha flandres para fazer gaitas de asa e rocas de bebé (com pedrinhas apanhadas no rio da aldeia lá dentro), mas com a Segunda Guerra Mundial e a consequente falta de material foi preciso começar a reaproveitar latas velhas encontradas em litografias e sucatas. O hábito manteve-se e os artesãos da PE-PE tornaram-se exímios em esconder a parte estampada e deixar apenas a lisa e brilhante visível nos brinquedos, até hoje. A graça é que se alguém se der ao trabalho de abrir um carrinho, por exemplo, pode muito bem descobrir que no interior do chassis está uma antiga lata de cerveja Cristal ou Sagres.

A chapa é reaproveitada, o que explica que dentro de um brinquedo pode estar a marca de uma cerveja. © Luís Ferraz

A par das velhinhas máquinas de cortar e moldar a chapa, algumas com 80 anos, parte dos brinquedos nasce nas quatro máquinas modernas de injeção e sopro de plástico, também usadas para fazer embalagens, godés, escantilhões, réguas, peças para automóveis e máquinas de café, e até blisters de comprimidos. O industrial e o saudosista convivem nas mesmas engrenagens e na máquina de sopro onde nascem as garrafas de plástico de guardar lixívia, nascem também os foles dos martelos de São João e a bola pequena vendida no pack do balde de praia. Já nas máquinas de injeção tão depressa se tiram os pequenos volantes do jipe militar como pegas para caixas de vinho. Haja moldes, como no Carocha.

Quando foi para a fábrica, Júlio Penela ficou com essa área e aprendeu tudo com o tio, mestre da serralharia. “Lembro-me que para fazer o feitio do cabelo dos bonecos era com uma talhadeira e um martelozinho”, conta, um trabalho minucioso que deu origem a uma coleção de “cerca de mil moldes” em aço, parte deles alinhados numa parede com vários metros de altura e identificados por números. “Todos os moldes foram desenhados por nós e feitos cá, em máquinas próprias como o serrote mecânico de serrar o aço”, conta Júlio. Alguns podem chegar a pesar 600 quilos e por isso mesmo há um carrinho, também feito na fábrica, só para os transportar.

Os moldes todos alinhados numa parede. © Luís Ferraz

Muitos dos moldes são os mesmos dos anos 50 e em termos técnicos o processo também não mudou muito: primeiro escolhe-se aquele que se quer colocar na máquina de injeção, e nessa altura coloca-se também o plástico em grão, com a cor escolhida obtida previamente através de um pigmento. Com o calor (“300 a 400 graus”), o plástico derrete e é injetado líquido no molde, enchendo a superfície esculpida. No mesmo molde, noutro sistema de canais, entra também água fria, que serve para arrefecer o plástico e garantir que a peça sai sólida. E não, um molde não equivale a um brinquedo, muito longe disso. No caso do jipe militar são precisos pelo menos 16: um para o para-brisas, outro para o volante e outros ainda para a grelha, os bonecos, os capacetes, as jantes, os pneus, os tampões, a chave de dar à corda, os próprios componentes da corda, a carroçaria, o chassis, a antena, o canhão e o jerrycan. Um autêntico puzzle que continua a ser montado à mão e que faz as delícias das visitas de estudo de escolas da região e até dos estrangeiros que aparecem através da Câmara Municipal de Valongo.

Antes de montar cada brinquedo, Isabel, a funcionária mais recente da fábrica, dispõe as peças todas na bancada. Os braços, as pernas, os olhos e a cabeça da boneca fazem uma composição anatómica quase mórbida, mas o cenário é sempre colorido e ao lado há caixas e caixinhas com o stock. Algumas são transparentes, outras têm o conteúdo escrito a marcador. “Asas do ferro com patinho todas as cores”, lê-se numa.

As várias partes dos brinquedos são montadas manualmente. © Luís Ferraz

As cornetas ficam prontas depois do puzzle, mas há brinquedos mais elaborados – como a carrinha pão de forma da Volkswagen – que têm de ser pintados manualmente: à pistola, com um stencil cortado previamente, ou mesmo com um pincel, no caso dos detalhes mais minuciosos.

Apesar de uma importante fatia dos compradores serem colecionistas, estes brinquedos não são para estar numa vitrina. Como mostra Isabel no teste final, antes de os guardar na respetiva caixa e de seguirem para as lojas, os carrinhos andam, a balança pesa e a máquina de costura mexe as agulhas.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº3 – especial família (março de 2019).