Estrategicamente pousada ao lado da máquina de costura está aquilo que à primeira vista parece uma boneca vudu. “Isto é o que o burel faz às agulhas”, diz Rita Faria enquanto mostra uma almofadinha em forma de rinoceronte cravada de hastes metálicas. As ditas agulhas estão espetadas, mas ao mesmo tempo corcundas. A força do tecido dobrou-as e deixou-as redondas como colheres.

“Trabalhar o material não é fácil”, mas é isso que faz a Carapau, e é isso que lhe dá um lugar único: a partir do burel, um tecido tradicionalmente usado nas capas dos pastores da serra da Estrela, Rita Faria e Tiago Couto constroem animais de três dimensões. Entre girafas, coalas, elefantes, ursos e preguiças, já são mais de 30 bonecos diferentes. Recheados com espuma, são tão robustos que há quem já tenha perguntado – no caso das baleias – se podem ser usados como pufes.

A foca é praticamente em tamanho real. © Carapau

“Queríamos uma marca ligada à decoração que aliasse ao mesmo tempo o fabrico artesanal, a tradição e a sustentabilidade, tudo isto com um design contemporâneo”, diz Rita, de 40 anos. Daí veio o burel, “um tecido muito especial”: “É 100% natural e 100% lã, mas como é fervido depois de ser tecido no tear, fica muito compacto e torna-se impermeável”, explica a designer gráfica. “Para além disso, o processo de fabrico é muito artesanal e é um tecido raro, porque há apenas dois ou três países que têm zonas altas com uma tradição semelhante. E depois há a qualidade: isto não ganha borboto, é muito resistente.”

Em Portugal, a raridade também se aplica e já só há duas fábricas a produzi-lo, uma delas parceira da Carapau desde o início, a Burel Factory. “Eles criaram um catálogo inspirador com mais de 40 cores e as tintas que usam nos tingimentos não têm químicos”, diz Rita. A par do burel, a marca usa também linho português – outro material natural –, neste caso com padrões originais criados pela dupla (que fundou e mantém o seu próprio gabinete de design gráfico) e estampados em serigrafia, no atelier.

Todos os animais têm um nome próprio. O crocodilo, por exemplo, chama-se Matt.

É no pequeno espaço, numa garagem do Porto, que os animais ganham vida do princípio ao fim. Normalmente, e ainda antes das primeiras tesouradas, tudo começa com um desenho original, desenho esse que tem de ser transformado num molde para cortar no tecido – às vezes a maior dor de cabeça. “Demorei uma semana só para perceber como fazer a foca”, exemplifica Rita. Sem qualquer formação em costura, antes da Carapau a ilustradora já fazia animais em tecido “por brincadeira, para os sobrinhos”, e foi sempre autodidata.

Hoje em dia, uma costureira ajuda também da parte da manhã, para dar resposta às encomendas, maioritariamente do estrangeiro. O mercado mais importante é o europeu – França, Alemanha e Suíça –, mas também há animais a voar para o Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Austrália. “Soubemos desde o início que tínhamos de nos lançar lá fora porque em Portugal não há tanto poder de compra”, diz Tiago. Não por acaso, desde há três anos, praticamente desde o início, a marca tem marcado presença na feira de decoração Maison et Objet, em Paris, a mais importante do setor.

Na penúltima edição, em janeiro, Zifa foi o centro das atenções. Com um metro e 60, é uma senhora girafa e também a maior criação da marca até à data. Peças decorativas “e não peluches ou brinquedos”, normalmente os animais são vendidos em três tamanhos (pequeno, médio e large), com algumas exceções a poderem ir até ao XXL. Preço médio? Entre os 35 e os 145 euros na loja online. Com aula de zoologia incluída.

Porque os animais da Carapau não são uns animais quaisquer. “Criamos espécies específicas”, diz Rita. “Por exemplo, os elefantes. Temos quatro: o indiano, o do Sri Lanka, do Bornéu e de África, e o africano é o que tem as orelhas maiores.” Elefante ou tubarão, crocodilo ou canguru, cada espécie é batizada com um nome próprio da região de origem e inclui sempre um cartão ilustrado com o nome científico da espécie, uma pequena descrição e o estado de conservação. O ouriço Luigi, por exemplo, não é uma preocupação. Já o cachalote Jo está vulnerável e o rinoceronte branco Momo quase em extinção.

Cada animal é acompanhado por um cartão ilustrado com o nome científico da espécie, uma pequena descrição e o estado de conservação. © Carapau

“A Carapau acaba por ser educativa e nós próprios aprendemos no processo de pesquisa”, diz Rita, referindo-se aos dias em que, para além da máquina de escrever, o barulho de fundo do atelier inclui documentários do National Geographic. Envolvida na defesa dos animais que cria, a marca doa três por cento das vendas a organizações de conservação da vida selvagem. “Neste momento estamos a trabalhar com três e a falar com outras duas, porque doamos consoante os animais que vendemos, para ajudar aquela espécie específica. No caso dos africanos doamos à African Parks, tudo o que tem que ver com oceanos vai para a Oceania.”

E não, apesar do nome, ainda não há nenhum carapau no catálogo. Quem sabe num próximo episódio deste Burel Vida Selvagem.

Nome: Carapau
Data: 2016
Pontos de venda: loja online
Preços: De 35€ a 145€

100% português é uma rubrica dedicada a marcas nacionais que achamos que tem de conhecer.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº3 – especial família (março de 2019).