O antigo produtor de cinema Harvey Weinstein queixou-se numa entrevista ao jornal New York Post que o seu trabalho “foi esquecido” na sequência das acusações de dezenas de mulheres que, dando origem ao movimento #metoo, imputaram ao antigo executivo de Hollywood crimes que vão de assédio sexual a violação. 

Na entrevista, a primeira de Harvey Weinstein em mais de um ano, o antigo produtor de cinema afirmou: “O meu trabalho foi esquecido. Fiz mais filmes realizados por mulheres e sobre mulheres do que qualquer outro produtor de filmes — e estou a falar de há 30 anos, não de agora que isso está em voga. Fi-lo primeiro, fui pioneiro”.

Sem nunca comentar especificamente as acusações de que foi alvo — mais de 70 mulheres vieram a público denunciar casos em que se sentiram violentadas e assediadas sexualmente pelo antigo todo-poderoso dos filmes indie de Hollywood —, Harvey Weinstein referiu-se a uma das atrizes que o denunciaram publicamente, Gwyneth Paltrow. O antigo produtor de cinema recordou as boas condições salariais que concedeu à atriz, dizendo que em “Altos Voos”, filme de 2003, esta foi “a atriz mais bem paga num filme independente, ganhando mais do que qualquer homem”. A atriz, como lembra o The New York Times, acusou Weinstein de a ter “seduzido” e levado até um quarto de hotel quando tinha 22 anos, referindo ainda que o antigo produtor de Hollywood tentou dar-lhe uma massagem. O seu depoimento foi aliás crucial para a acusação.

Gwyneth Paltrow foi “crucial” para acusar Harvey Weinstein no movimento #MeToo

“Esquecido? Será lembrado como um predador sexual”

As reações à entrevista de Harvey Weinstein não tardaram. Um grupo com 23 mulheres e alegadas vítimas do antigo produtor de cinema publicou uma declaração conjunta que atribui a Weinstein uma “tentativa de manipular e iludir a sociedade novamente”. “Diz numa nova entrevista que não quer ser esquecido. Bom, não será. Será lembrado como um predador sexual e um abusador que não se arrepende do que fez, que tirou tudo e não merece nada. Vai ser lembrado pela vontade coletiva de incontáveis mulheres que se levantaram e disseram que já chega. Recusamos deixar este predador reescrever o seu legado de abuso”, lê-se ainda na declaração, citada pelo jornal inglês The Guardian.

Entre as mulheres que assinaram a declaração conjunta estão as atrizes Rosanna Arquette, Ashley Judd e Rose McGowan. Nas redes sociais, estas alegadas vítimas também comentaram a entrevista. Rose McGowan, por exemplo, publicou a seguinte mensagem no Twitter: “Não me esqueci de ti, Harvey. O meu corpo não se esqueceu de ti. Quem me dera que tivesse esquecido. Recusei-me a assinar um acordo de confidencialidade depois do que aconteceu porque sabia que iria atrás de ti. E assim foi. Tudo isto é sobre parar um violador inveterado. Tu”. Já Patricia Arquette escreveu, segundo o The Guardian: “Nunca me vou esquecer quando tu, Harvey Weinstein… quando me disseste que estava a cometer um grande erro e eu disse-te que nunca seria ‘essa’ rapariga”.

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O julgamento dos crimes de que Harvey Weinstein está acusado foi agendado para o dia 6 de janeiro. O antigo produtor de cinema de Hollywood tem-se reclamado inocente nos tribunais apesar das acusações de mais de 70 mulheres. Entre as acusações mais graves estão uma de violação — de uma mulher cuja identidade foi mantida sob segredo, mas que garante ter sido violada por Weinstein num hotel em março de 2003 — e uma acusação de uma antiga assistente de produção, Mimi Haleyi, que garante ter sido forçada a permitir que Weinstein lhe fizesse sexo oral num apartamento que tinha em Manhattan, em 2006.  

Há uma semana, o jornal The New York Times avançou que Weinstein terá chegado a acordo com mais de 30 atrizes e antigas funcionárias que o acusam de crimes sexuais. O acordo previa alegadamente uma indeminização a estas vítimas no valor de 25 milhões de dólares, pagos pela empresa Weinstein Company. Em troca, isentava o antigo produtor de Hoollywood de admitir má conduta ou de ser o próprio a, pessoalmente, indemnizar as queixosas.

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