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"4 Gerações em Lisboa". Um século em fotos pela lente da família Benoliel

O volume traça a história da capital através das imagens de Joshua Benoliel, Judah Benoliel, Joshua Benoliel Ruah e Clara Ruah, quatro gerações de um clã de profissionais e amadores da fotografia.

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A praça do Comércio por Joshua Benoliel (1873-1932) nos anos 20 do século passado © Arquivo Municipal Fotográfico

A praça do Comércio por Joshua Benoliel (1873-1932) nos anos 20 do século passado © Arquivo Municipal Fotográfico

Foi sempre mais veloz que um flash, cruzando o Chiado como uma seta no encalço de um boato por tirar a limpo ou ao serviço do rei D. Carlos. Mas até as regras de um fotógrafo competente têm a sua exceção e guardam a sua mágoa. Naquele 1 de fevereiro de 1908, Joshua Benoliel (1873-1932) falhou o único disparo possível depois do tiro que mudou o destino do século: não foi a tempo de gravar para a posteridade o assassinato do rei e do príncipe herdeiro. “Com a pressa, seguiu um caminho mais curto, diferente do percurso previsto para o coche real e perdeu a oportunidade de tirar a fotografia de um acontecimento de repercussões históricas”, descreve a jornalista Maria Júlia Fernandes, que assina o texto que acompanha “4 Gerações em Lisboa”.

O volume traça a história da capital através das fotografias dos autores Joshua Benoliel, Judah Benoliel, Joshua Benoliel Ruah e Clara Ruah, quatro gerações da mesma família que testemunham de forma visual as transformações vividas pela cidade e pelas suas gentes, desde o final da monarquia até ao século XXI. Geralmente infalível, o assassinato do rei não é o único cliché que escapou a Benoliel, antigo despachante da Alfândega e precursor do fotojornalismo que trabalhava para O Século. O azar foi superior ao estrago do astro rei numa câmara escura: estava doente nesse 13 de outubro de 1917 em que “o sol bailou”. O jornal não quis faltar à chamada e Benoliel encomendou o serviço a um sobrinho, encarregue das fotos na Cova da Iria que correram mundo. “Ironia das ironias, foi um judeu quem primeiramente divulgou imagens desse fenómeno religioso chamado Fátima”, recorda Maria Júlia.

Outra ironia rivaliza com a anterior: “Com muita graça diz-se que é o primeiro fotojornalista português mas ele era inglês. Nasceu em Portugal em 1873 mas quando os pais vieram de Gibraltar para Portugal eram ingleses e ele morreu inglês. Trabalhou no entanto sempre em Portugal, e por interesse pessoal começou a dedicar-se à fotografia”, enquadra Joshua Gabriel Benoliel Ruah, neto de Benoliel, e mentor deste volume. Alfacinha era a pátria das imagens ímpares que o seu avô deixou de Lisboa, muitas delas à guarda do depratamento fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa, em parceria com o qual esta obra viu a luz do dia, apenas uma gota do enorme património legado.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, Joshua Benoliel e família; Judah Benoliel, Joshua Benoliel Ruah e Clara Ruah

Benoliel começou a publicar em revistas de desporto. Em 1906, tornou-se freelancer d’O Século e desenvolveu do ponto de vista gráfico a Ilustração Portuguesa, célebre revista de tipo cor de rosa. Passou a ser correspondente de jornais no estrangeiro, do ABC a títulos franceses. “Morreu em 1932, oito anos antes de eu nascer, e deixa um grande acervo de fotografias que estava em nossa casa”, recorda o neto sobre espólio que ao longo de anos habitou o célebre quarto andar da Rua Ivens, a morada da família ao longo de décadas.

Esse arquivo com milhares de chapas acabou por ser oferecido ao Século em 1971 quando Joshua Ruah prestava serviço no Ultramar, na qualidade de cirurgião. “Andou em bolandas com o 25 de abril mas conseguimos salvá-lo através de um doente meu, homem dos jornais, o senhor Machado, diretor do Jornal de Comércio. Dali foi saneado no 25 de abril e depois nomeado para a comissão de extinção d’O Século. Foi o que valeu para salvar o arquivo que hoje está na Torre do Tombo. Em última análise foi também salvo por Teresa Siza, irmã de Siza Vieira, que era diretora do arquivo de fotografia que estava na antiga cadeia do Porto”, descreve o médico, que resume numa frase simples a mais eficaz definição. “A fotografia é uma coisa do nosso dia a dia”.

Joshua Ruah não ia além dos quatro anos quando recebeu a primeira máquina fotográfica, “um caixote” oferecido por um amigo de casa, com o qual começou por fazer retratos de família. Seguiu-se um exemplar de fole da Baldafix, que chegara ao mercado nacional na década de 50. Na hora de escolher a via profissional optou por outra tradição no clã, a especialidade de urologia, à semelhança do que pai trilhara. Nascido em Lisboa, em 8 de setembro de 1940, licenciou-se em Medicina em 1967 na Faculdade de Medicina da Universidade Clássica de Lisboa, especializando-se em Cirurgia Geral e em Urologia. O encontro entre a bata branca e a imprensa, que corre no ADN da família, surgiu de forma natural. Foi médico d’O Século, rendendo na função o falecido Ruben de Carvalho, pai de Ruben de Carvalho, histórico dirigente do PCP. Desempenhou ainda as mesmas funções, ao longo de mais de 30 anos, no Sindicato dos Jornalistas.

Praça do Comércio, 2011 © Joshua Benoliel Ruah (n. 1940)

As lentes e o gosto, esses, acompanharam-no em todas as expedições. E nem quando montou um hospital de campanha em Angola, em plena guerra colonial, deixou o equipamento para trás. “Levei tudo comigo. Encontrei lá uma freira alemã que sabia de medicina e era maluca por fotografia. No final ofereci-lhe tudo, exceto as máquinas e as fotos que tinha feito. Mas tive tanto azar que adoeci e fui evacuado para Lisboa. Com o entusiasmo de ir ao encontro do meu pai acabei por me esquecer de tudo numa ambulância. Nunca mais vi nada. Foi um prejuízo”.

Lisboa, anos 40 e mais além

Essa década de 40 em que Joshua veio ao mundo desfila diante da objetiva de um outro Benoliel. O traçado da Baixa pombalina, eterna perdição para objetivas desde o prodigioso advento da fotografia, é fixado nos registos do seu tio Judah (1890-1968), outro dos nomes que observou as mudanças urbanísticas e o crescimento da cidade. O acervo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa permite o contacto com o trabalho do antigo repórter fotográfico no Diário Popular, realizado entre 1942 a 1968. Filho de Joshua Benoliel, parte das imagens da figura patusca que usava gravatas no lugar de cintos e dispensava atacadores nos sapatos, surgem numa coleção associada a um conjunto fotográfico do seu pai. “As fotografias foram incorporadas na Instituição através de vendas parcelares, de 1943 a 1964, feitas pelo próprio à Câmara Municipal de Lisboa”, esclarece Paula Cunca, numa nota do Arquivo Fotográfico, à guarda do qual se encontram várias imagens tiradas pelo pioneiro do clã.

“O meu tio Judah dedicou-se muito a fotografar Lisboa, tal como o pai. Fotografou as grandes transformação da cidade no pós-guerra. A partir dos ano 50 a capital modernizou-se. É nessa altura que as fotos são quase todas vendidas pelo meu tio à Câmara”, explica Joshua Ruah.

Judah Benoliel não escapou ao destino comum a vários descendentes diretos de pródigos: habitar a sombra paterna e ser muitas vezes confundido com o original. E no entanto, por contraste com o estilo paterno, revela um outro ponto de vista quando fotografa a cidade, privilegiando vistas aéreas, demolições, construções e outros episódios das malhas urbanas. “Das muitas imagens da cidade de Lisboa (…) destaca-se um conjunto de fotografias panorâmicas habilmente executadas, de formato 6×18 cm, em suporte de nitrato de celulose, gelatina e prata”, caracteriza o Arquivo Municipal.

Praça do Comércio, anos 50 © Judah Benoliel (1890-1968)

O cruzamento de registos permite compor as evoluções de uma série de cantos e recantos históricos. Na esquina da familiar Rua Ivens com a Rua Garrett, por exemplo, teve porta aberta quase um século a tabacaria Estrela Polar, fornecedor oficial de charutos da Casa Real. Nos anos 60 do século XX aqui funcionara a Casa da Sorte. Atualmente, são os doces da Alcoa que forram as vitrinas. Se as fotos de Judah Benoliel revelam uma cidade  tranquila, livre de pressas, as imagens de Joshua Ruah descentralizam a agulha e chegam até ao bulício da Feira da Luz.

Profissional ou amadora, sempre Lisboa

“Sou apenas uma curiosa”, admite Clara Ruah em “4 Gerações em Lisboa”. Nascida em 1968, cursou Relações Públicas, ponderou ser terapeuta da fala, e confessa que nunca se imaginou uma profissional da fotografia, apesar desse ponto que une diferentes idades do mesmo sangue, e que de alguma forma justificou a concretização do projeto.

Foi depois de um encontro em abril com Catarina Vaz Pinto, vereadora da câmara de Lisboa, que a obra ganhou forma. “Não queria fazer propriamente um livro de fotografia. Queria fazer um livro de admiração de quatro gerações da mesma família à cidade de Lisboa, o percurso familiar dentro de uma cidade. Uma família que veio para Portugal no século XIX. Sobre os meus bisavós, um veio de Londres outro de Marrocos, com todas as vicissitudes para a comunidade judaica da época”, define Joshua Ruah, pai de Clara, que recupera ainda a semente deste livro.

Na sua origem está um trabalho realizado em 2004 em parceria com Maria Júlia Santos para assinalar o centenário da Sinagoga de Lisboa, e da Comunidade Israelita de Lisboa. “Fiz uma tentativa de recolha de fotos na Torre do Tombo, e consegui umas 120 imagens da comunidade e da minha própria família que não conhecia. Foi uma pesquisa complicada. Apenas 8 mil fotos estavam digitalizadas na altura. Durante um verão consegui ver quase todas”. Seguiu-se uma exposição e o incentivo de Maria Júlia para prosseguir o trabalho, agora materializado neste livro, apresentado em Lisboa no dia 17 de dezembro.

Praça do Comércio, 2013 © Clara Ruah (n. 1968)

Por esta altura, claro, já Joshua Ruah descobrira a inclinação natural da filha do meio. “Comecei a ver que as fotos dela tinham muito do meu avô. Gostava de fotografar pessoas na rua, e achei piada. Comecei a ver com mais atenção e até lhe disse para se dedicar à fotografia a tempo inteiro, mas ela não teve coragem. Fotografa quase sempre a preto”. Em matéria de registos, Ruah recorda como a agenda jornalística movia o seu avô Benoliel, que em paralelo captava com um tempo mais distendido o pulsar de uma cidade pequena, “que ia até ao Rato e pouco mais”. Do tio Judah, testemunha do nascimento das grandes avenidas, guarda o aprendizado das técnicas de laboratório. “Eu próprio revelava os meus negativos e fazia as impressões em casa. Aproveitava um quartinho”.

E porque quem gosta de fotografia “gosta também de máquinas” não há smartphone que vença a inteligência natural das suas Nikon. “Eu só fotografo com máquinas. A minha filha usa o telemóvel também para fotografar, mas eu nunca usei nada que não fosse próprio para tirar fotos. Para mim o telemóvel é para falar ao telefone e pouco mais. Aos 79 anos ainda fico de boca aberta quando a máquina faz um retrato. A magia do boneco e a diferença que existe sempre quando duas pessoas diferentes fotografam a mesma coisa”.

O livro “4 Gerações em Lisboa” estará disponível nos vários equipamentos do Arquivo (Bairro da Liberdade, Arco do Cego, Videoteca e Fotográfico) e encontra-o também nas Lojas BLX (35 euros)

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