“Estou livre de cancro. E isso é bom”. Foi com esta simplicidade que a juíza do Supremo Tribunal dos EUA, de 86 anos, aproveitou uma rara entrevista à cadeia de televisão CNN para anunciar que se sentia preparada para regressar ao trabalho, depois de se ter submetido a várias sessões de radioterapia com o intuito de combater o cancro do pâncreas, detetado em Julho de 2019, após umas análises de rotina.

O Partido Democrata respira agora de alívio depois de ultrapassado mais este revés no estado de saúde da magistrada, nomeada para a mais alta instância judicial por Bill Clinton, em 1993, e que decide sobre alguns dos temas fraturantes da sociedade norte-americana, como o aborto, a saúde, o casamento homossexual ou a discriminação de género.

É por isso vital, para a ala mais liberal da América, que Ruth Bader Ginsburg, nascida em Brooklyn a 15 de março de 1933, continue a ocupar uma das nove cadeiras que compõem o Supremo Tribunal de Justiça e impeça Donald Trump de nomear um terceiro juiz, deixando este órgão com uma maioria conservadora de seis contra três. E ninguém mais do que a própria temia esse cenário: “Lembro-me de um senador, o nome já esqueci, que ficou radiante quando soube que eu tinha cancro no pâncreas. Deu-me seis meses de vida. A verdade é que esse senador já morreu, mas eu continuo cá. E por muitos anos“.

Esta é já a quarta vez que Ginsburg, também conhecida por “Notorious RBG” (título inspirado no rapper “Notorious BIG”) se submete a tratamentos oncológicos. Em 2018, os médicos retiraram-lhe dois nódulos malignos do pulmão esquerdo. No ano de 2009, a juíza teve um primeiro diagnóstico de cancro pancreático e foi submetida a uma cirurgia. Dez anos antes, em 1999, foi tratada a um cancro do cólon sem nunca tirar um dia de folga. São histórias como estas, assim como o seu empenho em todos os dias praticar exercício físico de forma a manter-se apta para o cargo, que nos últimos anos lhe garantiram uma atenção mediática sem precedentes. Até a sua figura frágil — de cabelo apanhado num carrapito, toga e óculos de aros pretos, bem como alguns pormenores na forma como se veste, como as luvas de renda — saltou para as montras das lojas de máscaras no Halloween de 2018, competindo em popularidade com os super heróis ou qualquer outro ícone pop.