Especialistas contactados pela Lusa alertam para a necessidade urgente de reformas estruturais em Macau perante o rápido envelhecimento demográfico, defendendo o reforço de profissionais especializados, o investimento em gerontecnologia, e a aposta na cooperação transfronteiriça.
Com previsão de duplicação até 2025 da população residente de Macau com 65 anos ou mais, um relatório publicado este mês pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) adverte que esta mudança demográfica terá impactos fiscais profundos, estimando que a despesa com segurança social e saúde possa subir de quase 9% do PIB em 2025 para cerca de 14% até 2031.
Jacky Ho Chong Kin, reitor da Faculdade de Ciências da Saúde e Ambientais da Universidade de São José em Macau, explica à Lusa que a aceleração do envelhecimento decorre, em parte, de políticas passadas do Governo de Macau, incluindo antigos regimes de imigração associados a investimento, que atraíram cidadãos já em idade avançada, acelerando a curva demográfica da região.
Ho lembra que o crescimento acelerado da população sénior apanhou a sociedade local “despreparada” para acomodar as novas exigências assistenciais.
“A situação da subida da população em envelhecimento é algo que começámos a prever, de certa forma, em 2007. Nessa altura, a população idosa de Macau rondava quase os 7,2%, o que é o início de uma população em envelhecimento, por assim dizer, em ascensão. Mas depois, num espaço de 20 anos, essa percentagem cresceu de forma inesperadamente mais rápida”, destaca à Lusa.
Por seu lado, Alex Cheng, vice-presidente da Sociedade de Segurança Social de Macau, alerta que Macau entrará na fase de “superenvelhecimento” nos próximos cinco a 10 anos, destacando o “nível dos cuidados de saúde e a escassez severa de prestadores de cuidados qualificados e de pessoal de enfermagem” como o “maior desafio absoluto” que a cidade enfrenta.
Os dois especialistas sublinham que a pressão sobre os hospitais públicos — onde os idosos já representam a maioria das admissões — exige o desenvolvimento de capacidade interna e de redes comunitárias.
Jacky Ho aponta lacunas estruturais na formação, “faltando sistemas de treino, instalações e instituições de formação sistemáticas que criem programas capazes de ajudar a treinar profissionais de saúde aliados”, incluindo fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais.
Face às limitações de recursos humanos, a tecnologia tem surgido como um instrumento auxiliar, principalmente no interior da China, que enfrenta também um envelhecimento populacional acelerado, com cerca de 23% da população com 60 anos ou mais, impulsionado por quedas recordes na taxa de natalidade e declínio populacional consecutivo.
Segundo Ho, a tecnologia “consegue ajudar a monitorizar, a detetar, a dar sentido aos dados e a emitir um alarme precoce para os problemas”, servindo para prevenir acidentes como quedas em lares, embora ressalve que a “tecnologia não consegue substituir por completo o pessoal de saúde ou o pessoal de apoio a idosos”.
Na vertente do apoio domiciliário e comunitário, Alex Cheng destaca que um “inquérito recente da Sociedade de Segurança Social de Macau mostra que 82% dos inquiridos preferem cuidados domiciliários”.
Para dar resposta a esta preferência, aponta exemplos na região vizinha, como a criação de equipas de enfermagem especializadas em Guangdong, garantindo padrões rigorosos de qualidade.
A integração na Grande Baía, região que engloba Macau, Hong Kong e nove cidades na província chinesa de Guangdong, é apontada por ambos os peritos como uma via essencial para aliviar as listas de espera locais.
Alex Cheng recorda que a deslocalização planeada de idosos para cidades na província poderia ser uma solução, mas avisa que a adaptação a “um novo ambiente não é fácil, e exige tempo e educação contínua para que os idosos em Macau aceitem a deslocalização”.
Entretanto, para garantir a sustentabilidade a longo prazo, Jacky Ho defende a canalização de receitas públicas para investimentos externos geradores de retorno financeiro para a área social.
Por seu lado, Alex Cheng conclui que as “futuras reformas e investimentos devem incidir sobre o Fundo de Pensões, a tecnologia inteligente de apoio a idosos e os serviços de cuidados digitais”, impulsionando a transição necessária para uma abordagem preventiva ao rápido envelhecimento da população.