Durante meia hora, Portugal conseguiu mostrar frente à Eslovénia o salto competitivo gigante que deu no panorama do andebol: ganhava ao intervalo por um de diferença, podia ter uma vantagem mais larga e teve só dois períodos de jogo menos conseguidos. No segundo tempo, ou nos últimos 17 minutos, Portugal caiu. Ou melhor, sentiu as dores de um crescimento que pode ser sustentado mas que não pode ser feito de uma forma instantânea. A derrota no terceiro encontro da main round do Europeu afastou a Seleção Nacional do sonho de poder bater à porta das meias-finais mas as partidas seguintes do grupo abriram uma janela de oportunidade para fazer mais história.

Com o esperado triunfo da Noruega frente à Islândia (31-28) e a surpreendente vitória da Suécia diante da Hungria (24-18) – não tanto pela valia das equipas mas pela margem do resultado –, Portugal continuou a depender de si para conseguir terminar o grupo II da segunda fase no terceiro lugar, o que valeria o passaporte para o encontro de decisão do quinto e sexto lugares e a melhor participação de sempre num Europeu (superando a sétima posição de 2000). E como estavam as contas? Em caso de empate ou derrota da Islândia com a Suécia, a Seleção precisava só de vencer os magiares; em caso de triunfo dos islandeses no duelo escandinavo, teria de ganhar por cinco golos para assegurar vantagem no confronto direto. Mais uma vez, difícil mas não impossível.

Os aspetos que teriam de ser melhorados face à derrota com a Eslovénia estavam também identificados. No final do encontro, Paulo Pereira revelou parte. “Não vou falar de arbitragem porque ainda dizem ‘Este gajo só fala disto nas derrotas’ e não quero isso”, atirou antes de dizer também que “a diferença é que Bombac [primeira linha e uma das grandes referências da Eslovénia como central ou lateral esquerdo] pode marcar golos a fazer passos mas se fosse o Miguel Martins…”. “Perdemos o controlo do jogo na segunda parte e desta vez estou arrependido de ter jogado 7×6″, confidenciou. Entre os jogadores, mais duas ideias: por um lado um normal desgaste físico de seis jogos intensos do ponto de vista físico e emocional; por outro, uma “normal” falta de maturidade para gerir tempos de jogo em comparação com equipas mais rodadas e com elementos nas melhores equipas europeias.

Era neste contexto que Portugal entrava em campo na Malmö Arena para o primeiro encontro da última jornada da main round do grupo II do Europeu, à mesma hora em que as já qualificadas Espanha e Croácia decidiam entre si quem passava às meias no primeiro lugar do grupo I no Wiener Stadthalle, na Áustria (jogo que terminou com um empate a 22, favorecendo assim os espanhóis que acabaram como líderes). E a Seleção voltou a estar ao melhor nível, somando a quarta vitória na prova (34-26) – o dobro do antigo registo máximo em fases finais que valeu também a melhor participação com um quinto ou sexto lugar, numa decisão contra a Alemanha.

O encontro começou com uma surpresa e duas grandes figuras. Por partes: depois da experiência nada conseguida com a Eslovénia, Paulo Pereira arriscou desde início o 7×6 com Salina e Luís Frade como pivôs; no entanto, Alfredo Quintana e Roland Mikler tiveram um arranque de partida demasiado inspirado, com eficácia acima de 50% até no caso do luso-cubano que continua a encher a baliza (e que até com a cabeça conseguiu travar remates, como quando foi “atingido” por Zsolt Balogh e ficou visivelmente irritado com o adversário). O resultado ou andava empatado ou tinha os magiares na frente por um mas com um número de golos menor do que é habitual.

António Areia, após um roubo de bola na defesa com contra-ataque, colocou pela primeira vez Portugal na frente, o que funcionou quase como um boost de confiança para a Seleção em termos ofensivos que ia funcionando cada vez melhor em 7×6 e com melhores soluções para isolar primeiras e segundas linhas. Já a Hungria conseguia sempre manter a vantagem máxima nacional em dois golos (8-6, 9-7 e 10-8) com Balogh a funcionar como uma espécie de “novo Laszlo Nagy”, o antigo lateral de Barcelona e Veszprem que está hoje como adjunto da formação magiar. Ao intervalo, Portugal ganhava por 16-14, um resultado que se explicava também pelo bom rendimento da equipa em inferioridade numérica (nas exclusões de Miguel Martins e Alexandre Cavalcanti empatou esses dois minutos 1-1) e pela eficácia de Belone Moreira nos sete metros (cinco golos noutras tantas tentativas).

O segundo tempo voltou a trazer nova surpresa e muita crença de Paulo Pereira: o selecionador abdicou do 7×6, voltou ao sistema normal com André Gomes, Miguel Martins e Belone Moreira na primeira linha e nem mesmo quando os húngaros partiram para a defesa individual ao lateral portista houve mudança, com o técnico a acreditar que a equipa conseguiria ultrapassar as dificuldades iniciais. Arriscou e ganhou – com dois pontas eficazes (em especial António Areia) e os pivôs (sempre a rodar entre Alexis Borges, Luís Frade e Salina) irrepreensíveis, a vantagem subiu para quatro golos com 18-14, ainda caiu para apenas dois golos em alguns momentos mas chegou ao 26-20 com um parcial de 4-0 à entrada dos últimos dez minutos com Alexis em plano de destaque.

Com uma enorme paciência em termos ofensivos para explorar as melhores opções de remate, Portugal foi depois gerindo da melhor forma essa margem no resultado com um ataque (e uma eficácia, acrescente-se) de luxo entre laterais, pontas e pivôs, bem como uma defesa que colocava grandes problemas às ações magiares e que de quando em vez conseguia também dar início a contra-ataques concretizados por Branquinho e Areia. Até Humberto Gomes, veterano guarda-redes que entrou para o lugar de Quintana, teve a intervenção decisiva que “carimbou” o histórico resultado (34-26) que coloca Portugal também no torneio pré-olímpico qualquer que seja o resultado do encontro de sábado (15h) com a poderosa Alemanha, já apurada para essa fase de apuramento.