(artigo atualizado às 12h05)

“Porque um desejo não muda nada, mas uma decisão consciente pode mudar tudo.” A frase consta na capa do primeiro livro da psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva — “Dar a volta” –, obra que pretende explorar o conceito da mudança. Porque nem sempre é fácil mudar e perceber que estamos à beira da necessidade de escolher e fazer diferente.

O livro da editora Matéria-Prima procura ser um guia prático à mudança e é motivo de conversa. Em entrevista ao Observador, Filipa Jardim da Silva explica como “muitas pessoas morrem aos 30 e são enterradas aos 80” porque criam aversão à mudança e adotam comportamentos compensatórios não são conscientes. A psicóloga deixa ainda claro como, por vezes, certas decisões não são tomadas por medo de falharmos e, também, por receio de sermos bem sucedidos, motivo pelo qual estamos mais preparados para um dia-a-dia razoável do que verdadeiramente feliz. Fica o lembrete: a felicidade, mesmo que contrariamente ao que nos foi dito, não é uma mera utopia, “à qual não nos devemos agarrar porque é só para alguns, ‘os afortunados'”.

O livro “Dar a volta” é da editora Matéria-Prima

Que sentimentos negativos podem existir associados à mudança?
Pode existir uma certa aversão. Estamos equipados com um sensor “anti-mudança” por não querermos abraçar o desconhecido. Existe medo e resistência e, muitas vezes, ficamo-nos por aí. Quando começamos a fazer escolhas por medo, começamos a acumular mal-estar e desconforto. Isso tem faturas. Adotamos comportamentos compensatórios que não são conscientes: seja pela via da alimentação emocional, seja por evitarmos algumas pessoas. Isso começa a matar bocadinhos de nós e pode acontecer a qualquer altura. Muitas pessoas morrem aos 30 e são enterradas aos 80 anos.* Se aos 30 fechamo-nos e criamos aversão à mudança, a partir de certa altura vamos apenas sobrevivendo…

De onde vem esta aversão à mudança?
Quando nos introduzimos no sistema escolar, entramos na cultura da avaliação, dos quadros de honra. Parece que temos de fazer tudo bem à primeira, não se aplaude o erro. Isto propaga-se. As dificuldades que temos com as grandes decisões… Se vamos cultivando aversão ao errar, vamos criando resistência ao que é diferente.

Como podemos identificar se precisamos realmente de mudar?
O nível de energia e os pensamentos que surgem ao acordar servem como barómetro. Acordar com pensamentos de pesar, com falta de entusiasmo ou de energia pela manhã é sempre um indicador a ter em conta. Se estamos num dia-a-dia desalinhado com o que gostamos, desgastamo-nos. Outro dos sinais pode passar por esta ideia que se vive dia após dia: se alguém perguntar porque fazemos o que fazemos, e não se tivermos resposta, talvez seja sinónimo de que não há apropriação de um projeto de vida.

Temos resistência a mudar por medo de falhar e por medo de sermos bem sucedidos?
Sim, por ambos. Há muitas pessoas que não querem expor-se à falha por a encararem como uma falta de valor pessoal, como uma premissa para o insucesso. Aprenderam a temer o erro e assim vivem condicionados na sua zona de conforto. Todavia, esta mentalidade tende a gerar mais falhas e mais perceção de pouco valor, gerando um padrão perpetuante. Assim, aos poucos, percebemos que há um medo maior que se esconde: o medo de sermos bem sucedidos. Porque é uma realidade desconhecida, porque a maioria das pessoas tem mais dificuldade em lidar com elogios do que com críticas, porque nos preparamos mais para a queixa do que para o discurso de vitória.
O medo de falhar e o medo do sucesso são dois bloqueadores à mudança que precisam de ser, primeiro, reconhecidos, depois legitimados e compreendidos, para então serem desconstruídos e reciclados.

Acha que somos educados para o sofrimento? Moldamo-nos melhor ao comodismo do que à luta pela felicidade verdadeiramente merecida?
Sim, somos mais facilmente preparados para vivermos um dia-a-dia insatisfatório ou razoável do que para vivermos bem e muito bem. A felicidade, de resto, é muitas vezes apresentada como sendo uma utopia à qual não nos devemos agarrar porque é só para alguns, “os afortunados”. São muitos e redobrados os cuidados de pais e professores para que as expetativas de uma criança e de um jovem não sejam excessivas. Essa boa intenção de proteção acaba com frequência por destruir sonhos, por quebrar a capacidade de imaginar e ousar, por alimentar medos. Se crescermos a acreditar que a verdadeira felicidade não existe, então não lutaremos por uma mera utopia. E é assim que nos moldamos e resignamos a um conforto desconfortável, ao “vai-se andando”, ao “assim-assim” conhecido e cómodo ainda que, ao mesmo tempo, limitativo e esvaziante.

Tomar uma decisão importante é reclamar o poder sobre a nossa própria vida?
Sem dúvida. Tomamos decisões todos os dias. Não nos podemos apropriar de todas as decisões, mas é importante apropriarmo-nos de algumas. Outro indicador é o foco de atenção — há pessoas cujas decisões parecem ser orientadas por fatores externos, e isso é um indicador de que podemos não estar a apropriar-nos da nossa vida.

Não sabemos como mudar? Afinal, o que é preciso para mudarmos?
Primeiro precisamos de nos pacificar com a ideia de que mudar é natural, tal como a respiração. Podemos respirar melhor ou pior, podemos aprender a mudar com mais mestria ou abandonar as rédeas das nossas escolhas. A aceitação pode tornar-nos mais curiosos. A qualidade da atenção é fundamental para mudanças bem conseguidas. É importante perceber qual é o tipo de foco que colocamos em nós, se vamos tomar decisões focadas no ruído à nossa volta, desapropriadas dos nossos valores, ou se vão ser decisões conscientes. Isso vai definir a qualidade da atenção.

Quais os erros mais comuns neste contexto?
Precipitação. Muitas vezes avançamos demasiado rápido para uma ação. Urgência nas situações sem as entendermos primeiramente é claramente mau. Depois há as crenças, isto é, aquilo que acreditamos sobre nós próprios, a forma como nos vemos, o valor que nos atribuímos. Isso vai estar sempre a interferir nas escolhas que vamos tomar. A auto-estima desempenha um papel muito importante. Escolhemos orientados para aquilo que achamos que merecemos… Quando acreditamos que não somos bons o suficiente, vamos tomar decisões orientadas para aquilo que merecemos, isto nas relações, no trabalho, etc.

É um bom principio questionarmos aquilo que pode ser o óbvio. A ótica do autocuidado — como cuido do meu sono, da minha alimentação, dos níveis de descanso, se paro para meditar, se pratico ou não atividade física, se faço ou não coisas que me dão prazer — é importante e dá pistas que podem ser interessantes explorar.

© DR

Que outros alarmes internos existem e nos tentam avisar de que é preciso mudar?
O nosso corpo fala sempre, precisamos é de estar atentos e disponíveis a escutá-lo. Alguns alertas podem passar por:
– acordarmos sem energia ou com pouca energia, sem vontade de nos levantarmos da cama, em que tudo constitui um esforço;
– alterações de apetite ou de sono, sem que existam quadros de saúde física a justificá-las;
– dores de cabeça persistentes, ritmo de cardíaco acelerado, dor no peito, desconfortos digestivos e/ou intestinais, alergias de pele e/ou acne;
– passarmos o dia por entre tarefas em piloto automático, com alguma inquietação nas breves pausas e um pensamento acelerado o tempo todo;
– sentirmos dificuldade em experienciar prazer e alegria, como se estivéssemos um pouco anestesiados;
– colocarmos o foco em fatores externos e perdermos de vista o propósito do que fazemos e da nossa liberdade de ação.

O auto-conhecimento é mesmo uma rampa de lançamento para a mudança? Como nos podemos conhecer melhor?
Através da desconstrução, de parar para pensar, ao sermos curiosos e ponderarmos o que nos leva às nossas escolhas… São questões elementares da nossa existência. Isso é, no fundo, conhecermo-nos melhor.

O desconforto é mesmo um catalizador para o crescimento pessoal?
O desconforto é um dos principais catalizadores para o crescimento pessoal. É quando a balança do conforto se desequilibra que somos impelidos à necessidade de fazer diferente. Uma coisa é saber que não estamos bem, a nível abstrato e teórico. Outra é experienciarmos esse mal-estar na pele, é a vida colocar-nos numa posição de aperto em que precisamos mudar, é ficarmos sem tapete.

Caímos no erro de tentar reunir o máximo de informação possível antes de tomarmos uma decisão? Afinal, que informação é mesmo importante obter antes da mudança?
Caímos em dois erros muito frequentes: saltarmos a etapa de recolha de informação e análise diretamente para a ação (de forma precipitada) ou ficarmos emaranhados numa busca excessiva por informação. Para fazermos escolhas conscientes e alinhadas com os nossos valores, precisamos primeiro de nos comprometer que vamos realmente dar o nosso melhor. Não chega dizer que vamos tentar. É necessário um compromisso sério de que faremos tudo para vivermos a vida feliz que merecemos. Depois valerá a pena recolher informação intercalando-a com experimentação. Há que sedimentar a informação recolhida, há que transformar a informação em compreensão, ajustada a nós na realidade presente. Assim, com compromisso, informação, compreensão e atenção temos os ingredientes chave para mudarmos com sustentabilidade.

Mas precisamos sempre de mudar? Às vezes não basta tolerância à frustração?
A mudança é inerente à vida mas tal não significa que tenhamos de promover mudanças disruptivas e significativas a todo o momento. Há que procurar prazer e, ao mesmo tempo, treinar alguma tolerância ao desconforto. Queremos abraçar as complementaridades da nossa existência com flexibilidade e curiosidade. Mudar sim, de forma ponderada e sustentável. Mudar simplesmente para fugir ao desconforto? Não.

Como é que o ambiente de onde viemos pode influenciar as nossas decisões?
Aprendemos a olhar para nós mesmos de uma determinada forma em função das pessoas à nossa volta, sobretudo numa primeira infância. De igual forma, cultivamos algumas crenças consoante as verdades do contexto onde crescemos. Os modelos que adotamos como referência também nos servem de guias. Se vivemos num ambiente em que se cultiva uma mentalidade rígida, conservadora, em que o sucesso dos outros é visto como uma ameaça e em que errar é um pecado capital, naturalmente esse mindset tenderá a impactar-nos. Pelo contrário, quando nos movimentamos por entre pessoas com uma mentalidade mais flexível, que perspetivam as conquistas dos outros como inspiração e em que falhar é necessário para aprender e rumar ao sucesso, então essas lentes tenderão a colar-se às nossas. Quando estamos mergulhados num dia-a-dia acelerado, frenético e de multitasking naturalmente que esse ritmo e falta de atenção impactarão também na nossa capacidade de tomarmos decisões.

Como saber se podemos confiar em nós próprios para tomar decisões?
Quando fazemos o nosso trabalho de desenvolvimento pessoal, quando aprendemos a escutar e a dialogar com o nosso corpo. Assim, a tranquilidade, presença e conexão experienciadas aquando de uma decisão tomada de forma inteira traduzirão confiança. Por oposição, quando não nos conhecemos bem, quando não conseguimos diferenciar a nossa voz das vozes de outros e não temos um músculo de atenção suficientemente treinado, é mais difícil confiarmos em nós a cada decisão.

E quando é que a opinião dos outros é nociva?
Quando se sobrepõe à nossa, quando retira espaço para escutarmos a nossa voz, quando é dada sem respeito pela liberdade do outro, quando é rígida e absoluta.

* Inspirado em “O clube das 5 da manhã”, de Robin Sharma