Seja qual for o destino, o objetivo é ganhar asas, voar alto e mais longe. É só escolher a data e reservar voo. Ser um Early Bird é ganhar mundo e encetar aprendizagens duma vida. Seja a ajudar trabalhadores locais no Vietname a carregar pedras debaixo de um temporal, ou a visitar um dos maiores bairros de lata no mundo, em Kibera, no Quénia. Ou a aprender com as “grannies”, as avós que ficaram a tomar conta dos netos porque os pais morreram de SIDA, na África do Sul. “Nenhum jovem vem igual de uma viagem destas e já temos repetentes”. Quem o diz é Catarina Anastácio, fundadora da Early Bird, que após 20 anos de carreira jurídica, decidiu abraçar sonhos a tempo inteiro, os seus e os dos outros. Viajar e educar eram duas grandes paixões, e, hoje, não há nada que chegue ao “privilégio de viver estas viagens e assistir a estes momentos com os que vão daqui e os que estão lá, todos ganham, só há vantagens”, confessa a jurista.

Mãe de três filhas e defensora de uma educação experiencial e aberta ao mundo, viu-se aflita para encontrar para as filhas, em Portugal, algo parecido com o que acabou por criar, em 2017. “Tudo começou com a minha filha Beatriz, para quem andei meses a pesquisar uma experiência de voluntariado internacional”, conta. Acabou por ir com uma amiga trabalhar com crianças de rua no Equador, e o ano passado, já maior de idade, aventurou-se três semanas sozinha na Zâmbia.

Aos 14, foi a sua outra filha Mariana a experienciar a Costa Rica. Na altura, integrou o grupo de 11 adolescentes – entre os 13 e os 17 anos – que durante duas semanas, viveram na selva e nas praias de Manuel António, com atividades de voluntariado com crianças carenciadas, onde aprenderam sobre a língua, a cultura e o quotidiano local. Valeu-lhes ficar alojados em casas de família, com quem ganharam “laços para a vida”. Quanto a Mariana, o impacto da viagem foi tal que regressou agora ao país para terminar o secundário em Santa Ana, ao abrigo do United World College of Costa Rica, um programa de estudo internacional.

Bali

Foi Catarina Anastácio que organizou essa viagem inesquecível para a filha, e no regresso a casa, já não fazia sentido voltar para os escritórios como jurista da Autoridade da Concorrência. Fundou a Early Bird com a missão de proporcionar experiências educativas, inovadoras e impactantes através de diversas atividades para estimular nos jovens o desenvolvimento de soft skills, ferramentas tão importantes quanto os graus académicos nos currículos. Autonomia e responsabilidade, comunicação, relacionamento, trabalho em equipa, curiosidade, pensamento crítico, resolução de problemas e resiliência, alicerces para a felicidade, sucesso e pegada no mundo. E mais importante que tudo, empatia. Catarina explica. “A empatia tem uma importância extraordinária e os jovens que vivem em ambientes tão confortáveis e seguros estão muito pouco habituados a colocar-se no lugar do outro, a pensar sob diferentes ângulos, a aceitar as diferenças”, sustenta. “Um earlybird é um miúdo que saiu do “ninho”, abriu as asas e se lançou ao mundo, descentrou-se de si próprio, alargou o campo de visão”, descreve a fundadora, que conta na equipa com a amiga Sofia Moura, também com três filhos e formada em economia e marketing. As duas partilham a crença de que “confrontar pessoas tão jovens com realidades tão diferentes e às vezes tão duras, é moldar para sempre a forma como vão interagir consigo próprios, com os outros e com o mundo”, explicam ao Observador.

São cada vez mais as inscrições que lhes chegam, e ainda que apareçam jovens com perfis muito diferentes, uns com mais potencial e mais despertos que outros, a verdade é que o resultado das viagens é o mesmo. “Temos assistido a isso em primeira mão: comunicam melhor, são muito mais solidários, muito mais despojados, começam a focar-se mais no essencial. Caem, levantam-se, andam para a frente, adaptam-se. Jamais pensei assistir à forma como a maioria deles adere ao que lhes é proposto com tanta naturalidade e empenho”.

Vietname

E há vivências memoráveis. Como aquela vez, no Vietname, em que todos ficaram ao lado dos trabalhadores locais e não desistiram de os ajudar, debaixo duma chuva a pique. Era um trabalho duro que envolvia carregar pedras em carrinhos ou em sacos às costas, fazer cimento, encher os alicerces, para construir um sistema de rega para os campos de arroz. “O nosso parceiro local falou em cancelar aquele dia, por causa da chuva intensa, mas os trabalhadores compareceram e foi incrível assistir aos earlybirds a subir rampas de lama muito escorregadias, num afinco invulgar, ficaram para ajudar”, relata Catarina, emocionada, acrescentando que na viagem de regresso do Vietname para Portugal, houve outro episódio essencial em pleno voo. Um dos jovens, inesperadamente, levantou-se e pediu desculpa aos restantes passageiros pelo barulho e excitação do seu grupo, pediu tolerância e compreensão, porque na verdade, eram apenas “jovens” a tentar melhorar o mundo e contavam com a ajuda dos adultos nessa empreitada. “No final, todo o avião aplaudiu, ficámos arrepiados e de lágrimas nos olhos”.

Mais do que histórias marcantes, Catarina Anastácio recorda momentos, imagens ou conversas. “Na África do Sul, fizemos voluntariado numa associação criada por avós que ficaram a tomar conta de netos cujos pais morreram, principalmente de sida. O trabalho dos earlybirds foi de tal forma que no final as grannies, como lhes chamam a estas figuras de peso, abraçaram-se a mim com muito orgulho nos miúdos portugueses”, recorda.

Costa Rica

Também no Quénia, em Kibera, uma das maiores favelas do Mundo, com cerca de dois milhões e meio de habitantes, houve lugar para uma experiência duríssima e muito intensa, segundo a monitora. “Estivemos em barracas minúsculas (sem saneamento) onde viviam famílias com mais de 10 pessoas, com a grande maioria dos adultos desempregados e com crianças que em muitos dias não tinham como ir para a escola. Foi muito importante para todos, e para mim, em especial, testemunhar a forma como eles interagiram com as pessoas, como se sensibilizaram, como lhes disseram que iam pensar nelas quando voltassem para casa”, lembra Catarina.

Todos os programas têm um líder de grupo e requerem encontros de preparação em Lisboa, e há de tudo e para todos os gostos dos jovens que podem ir sozinhos, com amigos e até em família. O preço inclui todo o pacote e pode ir de 2000€ a 3200€ por pessoa. Direitos humanos, aventura e voluntariado, vida animal, sustentabilidade, tradição, cultura e línguas, as inscrições estão abertas para os programas de 2020 em earlybird.pt. As asas garantem reserva para para quem queira voar alto, muito alto. Uma coisa é certa, depois da aterragem, a vida em terra firme já não será a mesma.