À frente, alguns advogados falavam sobre o fim de semana com o FC Porto-Benfica à cabeça – e uma aposta não cumprida por André Ventura, comentador dos encarnados, em vestir a camisola dos dragões tal como tinha ficado acordado com Aníbal Pinto, adepto dos azuis e brancos e advogado que está também no caso de Marco Ficini. Uma fila atrás, a dos arguidos, apenas um elemento por volta das 9h30. Às 10h03 surgiu o segundo, neste caso afeto às águias. Por volta das 10h15, o terceiro, neste caso Luís Pina, acusado de atropelar mortalmente o italiano adepto da Fiorentina e do Sporting. Quando o coletivo de juízes presidido por Francisco Henriques entrou na sala principal do Campus da Justiça, às 10h26, era este o cenário (acrescentando jornalistas e uma pessoa a assistir), depois da dispensa de comparência dos arguidos que veio da primeira sessão, na semana passada.

Logo a abrir, foram marcados ou remarcados algumas testemunhas para dia 18, data já agendada para a terceira sessão do julgamento. Depois, quando ia começar a audição do primeiro arguido do dia, a sala ficou às escuras.

– E não vamos cantar os parabéns a ninguém, soltou o juiz.

Enquanto a assistência foi chamada, foram cumpridos os habituais procedimentos de identificação com nome, estado civil, profissão ou morada, no fim dos quais houve uma pequena interrupção por continuar tudo sem luz. A paragem foi curta mas entretanto muitos dos advogados e os juízes tinham saído da sala. Voltaram. Foi aí, às 10h40, que começou finalmente a ser ouvido Danilo Ossuman para um depoimento de apenas oito minutos.

– Quero dizer que não estive lá e meteram-me no processo.
– Não foi lá ao estádio da Luz?
– Não.

– Porquê, sabe?
– Não, desconheço. Só me disseram que estava arrolado ao processo…

“Em Alvalade sim, na altura do arremesso dos very lights do Benfica não. Fui depois do jantar, estive lá nas imediações, por volta da 1h30. Fui no meu carro, um Audi A4 cinzento.  Se falei com a Polícia Judiciária? Não”, respondeu a outro juiz e depois à procuradora do Ministério Público, antes de ver alguns fotogramas a pedido do seu advogado, Aníbal Pinto. “Aquele não sou eu, de todo. Basta olhar para a fisionomia da pessoa, mais larga”, referiu. “E mais gordo”, acrescentou o advogado. “Vim num Audi, é verdade que também tenho um Opel Astra mas pelo que estou a ver isto nem é um Opel”, completou, antes de terminar e sair da sala em menos de dez minutos.

De seguida foi chamado Paulo Martins, comandante ligado ao futebol através da Unidade Metropolitana. “A minha parte foi uma colaboração solicitada pela PJ, de forma informal, para ver imagens de CCTV que tinham sido captadas no estádio da Luz. De Alvalade, não. Consegui percecionar que eram alguns indivíduos com quem costumo trabalhar. O falecido? Não porque nunca o tinha visto. Só metade é que consegui percecionar que poderia ser o A, o B ou o C. Vi estas imagens não no programa original, noutro sem tanta qualidade. Havia um ou outro colega que podem saber melhor, eu sou chefe coordenador que trabalha com as duas equipas”, disse.

– Tirando aquela situação do carro, viu mais confrontos?
– Além dessa, não…
– Oh doutor, as imagens falam por si, disse Francisco Henriques.

De seguida foi ouvido o spotter Nuno Leandro, que curiosamente na semana passada tinha estado no Campus da Justiça em trabalho de manhã antes de passar pelo Tribunal de Monsanto para prestar depoimento no âmbito do julgamento do caso de Alcochete. “Não estivemos na investigação, só fui à Polícia Judiciária ver umas imagens… Eu pessoalmente dos No Name Boys não identifiquei ninguém. Na altura fazia Sporting. Se consegui ver o adepto italiano? Penso que foi o que ficou para trás mas foram-nos mostradas imagens através do Media Player e não no outro programa, o Bose”, comentou antes de ir perto do ecrã tentar identificar alguns elementos nas imagens de vídeo (como Alano Silva, que conseguiu apontar) e também as marcas dos carros que chegaram à rotunda Cosme Damião. Luís Pina foi também o máximo para a frente até à divisória para perceber o que estava a acontecer.

– Posso pedir ao senhor agente para ver se conhece ali um carro?, perguntou Aníbal Pinto.
– Oh senhor advogado, o senhor agente conhece é pessoas, não é carros…
– Este é um Peugeot…
– Pois mas esse aí é que está referenciado na acusação como um Opel Astra de 1999…

“Como a investigação era da Polícia Judiciária e nós não trabalhámos as imagens, assim só posso dizer que me parece este ou aquele porque nos pediram isso…. Na altura a Juve Leo tinha entre 4.000 e 5.000 adeptos, o total de membros. Todos não conhecemos mas na sua maioria”, completou Nuno Leandro.

Falou de seguida um subcomissário que à data era o chefe da Unidade Metropolitana. “A única coisa que fizemos? Pessoalmente fiz a ligação entre a Polícia Judiciária e a minha Unidade. Vi as imagens, sim, mas sem nenhuma identificação porque estava há seis meses naquele cargo”, disse num depoimento de menos de um minuto.

“Vamos embora que é dos deles”, ouviu inspetor Luís Pereira

Luís Pereira, inspetor da Polícia Judiciária da Unidade Criminal, entrou depois na sala. “Não me recordo da artéria, vinha naquela avenida perto às 2h30, vi bastantes indivíduos a correr, bastante lixo espalhado entre copos de plástico e pedras. Vi que no lado esquerdo da Avenida Lusíada estava um indivíduo caído, de barriga para baixo, a sangrar abundantemente da cabeça, virado para o lado direito, bastante sujo. Não lhe mexi, segui protocolos de emergência médica e não tinha sinais vitais pulso e pescoço. Estava à frente um carro que pela volumetria parecia um BMW com um indivíduo alto e corpulento de fora que disse ‘Vamos embora que é dos deles’. Liguei para o 112, não responderam, liguei para a minha unidade e depois disso dei duas ou três voltas para ver via o carro. Quando voltei estava a Divisão de Trânsito da PSP e depois chegou a ambulância, 3h40 declararam o óbito, disseram que eram marcas que teria passado por cima do corpo um carro”, descreveu de uma assentada.

“Quando ouvi esse comentário estava ao pé do corpo, a uns dez metros desse veículo que estava a funcionar”, disse depois, explicando que o carro se encontrava a fazer marcha atrás no acesso para a rotunda do lado esquerdo e que quando seguiu em frente bateu ainda num lancil. “Junto ao corpo estava um bocado de plástico que devia ser da roda e uns bocados do farol, penso que traseiro”, acrescentou depois às perguntas dos advogados. “A minha formação profissional fez-me ver que se tratava de um cadáver, pelo que aquilo que de seguida tinha de fazer era ir à procura de testemunhas que pudessem ajudar a perceber o que se tinha passado”, concluiu.

António Rajada, também da Unidade Metropolitana, teve depois um depoimento parecido com os primeiros dos agentes da mesma Unidade com uma pequena nuance de trabalho na noite dos confrontos. “Na altura dos factos estava inserido numa equipa que andava a fazer prospeção junto dos dois estádios. Havia uma monitorização dos adeptos nos jogos de alto risco, até pelo historial que havia. Acabou antes do incidente, não consigo precisar as horas. Durante a missão, não houve incidentes. Porquê? Porque nos foi dito para terminar”, referiu. Seguiu-se Luís Miguel Valadas, que desde a fundação está na equipa especializada da Unidade Metropolitana. “A única intervenção que tive foi a deslocação à Polícia Judiciária para ver algumas imagens. Suspeitámos que podiam ser alguns adeptos mas sem certezas. Solicitámos as imagens com o programa da Bose, que não nos cederam e com isso não podíamos fazer muito mais”, explicou em mais um depoimento de pouco mais de um minuto.

João Manuel Ferreira, inspetor chefe da Polícia Judiciária, foi o titular do processo por estar ainda na altura na secção de homicídios. “Estava de serviço de prevenção, estávamos na polícia porque tinha havido outro homicídio e fomos contactados porque tinha havido o atropelamento. O corpo ainda estava no local. Constatou-se que tinha imensos ferimentos na cabeça e no tronco que mostravam que tinha sido atropelado e arrastado. Havia vidros óticos dos faróis e parte de um pneu, um pequena tampa que pertencia aos parachoques. Pedimos depois as imagens, que nos foram fornecidas, só conseguimos perceber duas letras do carro, um Renault Clio. Mais tarde recebemos uma chamada no piquete de uma viatura assim que podia estar ligada, identificámos a viatura e as pessoas da residência, levámos a viatura, foi depois feita a inspeção”, começou por dizer.

“A informação do very light que foi lançado antes em Alvalade veio da Unidade Metropolitana, que conhecem melhor as claques que trabalham com eles. As imagens de Alvalade e da Luz têm algumas deficiências, pode ter passado alguma coisa. Não conseguimos ver o very light em Alvalade. Como se identifica o senhor Danilo? Eu. Fui eu que vi as imagens, para mim aquele é o senhor Danilo. Não há imagens nenhumas a entrar no carro, isso não. Os elementos do Sporting deslocaram-se todos de livre vontade à Polícia Judiciária e o senhor Danilo apareceu lá. Diz que lhe ligaram? Eu não liguei e se alguém ligou desconheço”, completou depois, num final onde foi trocando um diálogo um pouco mais aceso com Aníbal Pinto, advogado do primeiro arguido a ser ouvido.

“Sempre que falávamos da morte do Marco, a minha mãe chorava”

Entrou depois na sala uma testemunha que ninguém parecia conhecer inicialmente e que tinha tradutor, solicitado pelo tribunal: Andrea Ficini, 51 anos, empregado numa companhia de seguros e irmão do falecido. “O meu irmão vivia com a minha mãe. Voltou para a Roma porque a minha mãe tinha uma reforma que não era suficiente e ele ajudava. Tinha um contrato sem prazo com uma empresa, era manager, recebia 39 mil euros líquidos por ano. A minha mãe hoje é uma pessoa que quase não fala com ninguém, passa o tempo todo a pensar no meu irmão. Eu e a minha esposa tivemos de mudar de vida, passámos da zona sul para a zona norte de Roma para estarmos mais próximos dela. A minha mãe passou a ir a um psicólogo, sempre que falávamos da morte do Marco começava a chorar”, contou em resposta às perguntas do advogado que representa a família do transalpino.

Seguiu-se Albino Daniela, de 43 anos e também ela funcionária numa companhia de seguros, mulher do irmão de Marco, Andrea. “Vivia com a mãe, depois do curso que estava a frequentar em Milão ia voltar para viver com a mãe. A minha sogra era uma pessoa ativa, ia ao teatro com amigas, deixou de fazer tudo porque foi um trauma muito grande. A morte do Marco teve uma consequência muito grave para ela, tem de andar em consultas agora no psicólogo. Nós tivemos de mudar de residência, passámos para ao pé da minha sogra”, referiu. As testemunhas de acusação prosseguiram, neste caso com uma amiga de família há 40 anos: “Desde que voltou de Lisboa para Roma fui ter com ela porque não conseguia ter uma vida autónoma. É uma pessoa muito frágil desde a morte do filho, deixou de ter vida social e tem de estar a ser seguida por um médico, por um psicólogo”. “Conhecia o Marco desde a escola primária. Em Florença vivi na mesma casa com ele e trabalhámos juntos. Era profissional, um perfecionista no seu trabalho”, acrescentou depois mais uma das testemunhas italianas arroladas ao processo, Micaela.

“Conhecia o Marco Ficini porque estudou com a minha filha, Micaela. Conheci-o em 1983, quando tinha seis anos, no início do primeiro ano de escolaridade. Frequentávamos vários anos os mesmos sítios, até depois da escola. A notícia foi recebida de forma trágica, estivemos o mais perto possível da mãe do Marco porque ficou em choque e passa o tempo todo a chorar. A mãe do Marco perdeu o seu grande amor”, salientou a testemunha seguinte, Luigi, de 71 anos. “Conhecia-o desde criança, crescemos juntos e andámos juntos desde a escola primária. Era uma pessoa muito presente na família, deixou um grande buraco. Era uma pessoa cheia de vida, com princípios morais e sobretudo uma pessoa que era muito presente. Em termos profissionais, era um rapaz compenetrado, que não falhava”, completou Alessandro, sexta e última testemunha de acusação ouvida esta manhã.