O adepto do Sporting e membro da Juve Leo que não foi acusado no caso da invasão à Academia de Alcochete por ter fugido do país, e sob o qual foi emitido um mandado de detenção internacional, está esta terça-feira no Campus de Justiça para ser julgado no caso da morte do adepto italiano Marco Ficini. Alano Silva é um os 12 arguidos sentados no banco dos réus que pertencem à Juve Leo acusados de participação em rixa. Há ainda dez arguidos dos No Name, entre eles Luís Pina, acusado do homicídio por atropelamento.

As imagens de videovigilância da Academia de Alcochete captaram Alano a entrar na academia de treinos do Sporting. Alano foi também apanhado nas mensagens trocadas por WhatsApp entre adeptos, quando prepararam a invasão. “Aquilo vai ser o Iraque”, é uma das mensagens que o Ministério Público (MP) lhe atribui.

Alano Silva não foi, no entanto, acusado porque, segundo o MP, “pôs-se em fuga logo após as detenções e prisões dos primeiros 23 arguidos e por esse motivo foi emitido mandado de detenção internacional contra o mesmo”. “O suspeito encontra-se fora do país e não é previsível que regresse a Portugal, tanto mais que poderá ser julgado no estrangeiro”, lia-se no despacho de acusação do caso de Alcochete. Por isso foi alvo de um processo à parte.

Em janeiro 2019, Alano — que é visto como o braço direito de Mustafá, o líder da Juve Leo — foi detido em Angola na sequência de uma mandado de detenção internacional. Não se esperava que fosse extraditado para Portugal, por ter nacionalidade angolana, mas o arguido acabou por comparecer neste julgamento que tem arguidos da Juve Leo e dos No Name, enquanto corre à parte o processo da academia de Alcochete.

Este arguido não é o único elo de ligação ao processo de Alcochete. Há três outros arguidos acusados de participação em rixa, na noite em que Marco Ficini perdeu a vida, que estão a ser julgados no Tribunal do Monsanto por crimes relacionados com terrorismo: Valter Semedo, Ricardo Neves e Miguel Ferrão. E foi sob esse argumento que os advogados de Valter e Ricardo tentaram adiar, pela quarta vez, o julgamento.

Pedro Madureira e Sara Ribeiro Santos alegaram que tanto Valter como Ricardo queriam estar presentes nos dois julgamentos, acompanhar a produção de prova e, eventualmente, prestar declarações. Mas o juiz presidente Francisco Henriques — que começou logo o julgamento a avisar os advogados que não iria estar sempre a interromper a audiência para receber requerimentos dos advogados — recusou. O coletivo de juízes considerou que assistir ao julgamento não é um “direito absoluto”, pelo que os arguidos terão que optar por um deles. Descontentes, os advogados anunciaram que iriam recorrer.

Julgamento da morte de Ficini arranca após três adiamentos

O jogo entre o Sporting e o Benfica estava marcado para 22 de abril de 2017, mas foi antes, ainda nessa madrugada, pelas 2h00, que tudo aconteceu. Quando um adepto italiano do Sporting foi atropelado mortalmente e ainda arrastado ao longo de alguns metros, numa rixa que envolvia adeptos dos dois clubes junto ao estádio da Luz. Consciente de que não conseguiu identificar todos os suspeitos envolvidos, o Ministério Público acabou por acusar 22 arguidos. Luís Pina, o condutor do carro que terá atropelado Ficini, o adepto italiano, é acusado de homicídio. O seu carro foi encontrado três dias depois estacionado numa garagem de uns amigos com vestígio de sangue. Uma chamada anónima para a polícia acabaria por indicar às autoridades onde estava o carro usado no crime cometido naquela noite.

Segundo o despacho de acusação, a que o Observador teve acesso, ainda no dia 21, Pina tinha estado até à meia noite no Estádio da Luz. Mais tarde, já na madrugada de 22, um grupo de adeptos benfiquistas — que a polícia não conseguiu identificar no seu todo — dirigiu-se ao estádio de Alvalade e lançou um foguete luminoso de cor vermelha. Seria o rastilho para uma noite de violência. Os adeptos ainda saltaram vedações metálicas e tentaram imobilizar viaturas que lhes parecesses de apoiantes da equipa leonina, lê-se no despacho de acusação.

Até que os adeptos que se encontravam no interior do estádio a ensaiar cânticos para o dia seguinte saíram à rua para se vingarem em direção ao estádio da Luz. Alguns deles enfiaram-se em carros munidos de barras de ferro e dirigiram-se para o estádio da Luz, lê-se no documento.

Ao aperceber-se da presença dos adversários, Luís Pina foi também buscar o carro e avançou a alta velocidade contra os adversários, só não atropelando porque eles se desviaram. Depois inverteu a marcha, acabando por atropelar o adepto italiano, arrastando-o ao longo de 15 metros — só o imobilizando depois de ter passado completamente por cima da vítima e não lhe prestando qualquer auxílio, como constataram as autoridades.

Assim, o arguido Luís Pina foi acusado de quatro tentativas de homicídio e um homicídio. Já os restantes arguidos vão responder pelos crimes de participação em rixa e dano com violência.

Esta terça-feira, na primeira audiência de julgamento, um dos elementos dos No Name, Diogo Ferrão, prestou declarações para dizer que tinha ido para casa pela 1h00, ainda antes dos acontecimentos. O arguido decidiu ir vestido com o mesmo casaco que vestiu naquela noite para que o coletivo de juízes fizesse a sua “não identificação”.

Do lado dos adeptos do Sporting apenas três arguidos falaram. Todos eles, disseram, foram a Alvalade para comprar bilhetes para o jogo com o Benfica quando se aperceberam da “provocação” dos seus adversários. Decidiram então sair nos seus carros, em coluna com outros adeptos, em direção ao estádio do Benfica para “abrir umas tochas verdes” junto à Luz. Mas quando chegaram ter-se-ão apercebido de um carro a alta velocidade e voltaram a entrar no carro, de marca BMW para abandonar o local. Os arguidos que aceitaram falar recusam ter, nessa noite, tochas ou barras de ferro. Também garantem não terem visto adeptos a lançarem pedras uns aos outros, como acusa o Ministério Público. Nenhum conseguiu identificar o carro que surgiu a alta velocidade e que terá atropelado o adepto italiano Marco Ficini.