Para o início desta nova temporada, desafiamos André “Maze” Neves, MC do colectivo Dealema, e Amílcar Soares, presidente da Positivo, para olharem para história do rapper Eazy-e, e imaginar: qual seria o papel de Eric Lynn Wright na música nos dias de hoje?

Choque cultural

O anúncio público, chegado a 16 de Março de 1995 através do seu advogado, de que o rapper Eazy-E, MC do grupo, N.W.A., reconhecido mundialmente, era portador do vírus VIH/SIDA, chocou a comunidade do hip-hop. Apesar de a doença já ser conhecida há mais de uma década – os primeiros casos surgiram em 1981 – existiam ainda muitas dúvidas, mitos e estigmas. Em comunidades como as do rapper, o bairro de Compton em Los Angeles, o assunto era praticamente ignorado. A cultura predominante do rap levava a letras em torno da masculinidade, heterossexualidade e promiscuidade.

“Era um tema que, curiosamente, não era abordado no rap”, explica Maze, que tinha 15 anos na altura do anúncio, e acompanhava avidamente música rap nacional e internacional. “E os comportamentos de risco eram absolutamente normais. Aliás, os rappers até se vangloriavam de ter esses comportamentos de risco.”

As músicas do rapper, inclusive, continham letras que eram consideradas um incentivo ao sexo desprotegido com várias parceiras e o próprio músico declarou ter sete filhos de seis mulheres diferentes. Devido ao elevado número de parceiras e não utilização de protecção, especula-se que terá sido por via sexual que o rapper contraíu o vírus, embora estas seis mulheres tenham testado negativamente para o vírus do VIH.

“Acho que depois da morte dele começou, então, a ser abordado. Mas, até então, era completamente tabu”, conclui Maze.

Grupos de Risco VS Comportamentos de risco

Quandos os primeiros casos surgiram nos anos 80, pouco ou nada se sabia das suas origens e funcionamento. A doença ficou, inevitavelmente, conectada aos grupos a que foram primeiramente diagnosticados, passando a ideia de que eram exclusivos a esses grupos, chamados de grupos de risco.

Antes da descoberta do vírus do VIH, a doença foi brevemente conhecida como a “doença dos 4H’s”, que se referiam a homossexuais, heroinómanos e utilizadores de drogas injectáveis, haitianos e hemofílicos.

Estas generalizações demoraram muitos anos ser quebradas, criando, por um lado, uma estigmatização destes grupos e, por outro, a colocação de outros grupos em risco por falta de prevenção.

“Na altura, a mensagem que foi mais vincada foi a de grupos de risco. E a leitura que as pessoas fazem disso é que, se não fazem parte daquele grupo, não têm nada a ver com aquela história, não estão em risco”, explica Amílcar Soares, presidente da Positivo. Ao deparar-se com a história de Eazy-e, acrescenta: “A comunidade em que se o rapper se inseria, os afro-americanos na década de 90, tinham culturalmente um comportamento heterossexual, pelo que não se consideravam um grupo de risco”.

Como consequência da desinformação, a comunidade afro-americana foi desproporcionalmente afectada pelo vírus do VIH nos seus inícios, e ainda hoje essa disparidade se aprofunda. Embora representem apenas 12% da população dos Estados Unidos, os afro-americanos constituem 43% dos diagnósticos de VIH, 42% da população a viver com o diagnóstico, e 44% das mortes por VIH – mais do que qualquer outro grupo no país. Embora o maior padrão de transmissão seja causado pelo contacto sexual entre homens em todas as etnias, proporcionalmente o sexo heterossexual é um maior causador de transmissão na comunidade negra (34%) do que na comunidade branca (15%).

Além do estigma, medo, discriminação e homofobia que fazem com que muitos não procurem cuidados de saúde, existem vários outros desafios que contribuem para estes números na comunidade afro-americana, como a pobreza, a falta de acesso à saúde e a falta de informação sobre o seu estado serológico.

“Mais tarde muda-se para uma ideia de que não há grupos de risco, porque na realidade o que há é comportamentos de risco”, explica Amílcar Soares.

Estes comportamentos de risco incluem: sexo desprotegido com múltiplos parceiros, o não tratamento de doenças sexualmente transmissíveis (DST’s), não conhecer o seu estado serológico e partilha de seringas e/ou materiais injectáveis.

Empoderar com informação

A declaração do seu estado serológico de Eazy-E, e outras figuras públicas da época, foi determinante para mudar a conversa em torno do vírus do VIH/SIDA: mostrou ao público que o VIH não discrimina com base em orientação sexual, género, classe ou raça, e que despertou uma reação na comunidade de hip-hop.

“Na altura, saíram algumas compilações sobre o tema”, relembra Maze. “Lembro-me de faixas do Wu-Tang Clan sobre o tema. America Is Dying Slowly, com o acrónimo AIDS.”

Apesar de já existirem filmes e peças de teatro escritas nos anos 80 e 90 por creativos de alguns dos círculos mais afectados pelo vírus, como Angels in America ou Philadelphia, estas narrativas, tipicamente sobre homossexuais afluentes, não falavam à juventude negra, jovem e urbana da mesma forma que o rap o conseguia fazer.

O álbum America Is Dying Slowly, juntou artistas como Common, Wu-Tang Clan, Coolio e Lost Boyz, que contribuíram com 16 canções que falavam na epidemia VIH/SIDA, de práticas de sexo seguro, uso de drogas seguro e ser testado e descobrir o seu estado serológico. Foi a primeira vez que um álbum tinha apenas uma mensagem, e o primeiro álbum de hip-hop sobre consciencialização, educação e prevenção do VIH/SIDA.

Há 25 anos a dar a cara por quem vive com o vírus, através da Associação Positivo, Amílcar frisa a importância de declarações públicas como a de Eazy-E: “No caso do VIH é importante que as pessoas que têm uma posição na sociedade, que tenham influência sobre o público, venham dizer “eu tenho isto”.” A partilha de experiências destas figuras públicas com os fãs, vai fazer com que as estes pensem, identifiquem os seus comportamentos similares e queiram fazer os testes.

No seu anúncio público, Eazy-E deixou uma mensagem de redenção e últimos desejos: “Não digo isto porque estou à procura de uma almofada macia para onde quer que esteja a ir, apenas sinto que tenho milhares e milhares de jovens fãs que precisam aprender a verdade sobre a SIDA. Como outros antes de mim, eu gostaria de transformar o meu próprio problema em algo bom que chegará a todos os meus fãs e suas famílias.”

“Tem um impacto directo na comunidade. E sendo um estilo musical disseminado pelo mundo, vai ter eco”, remata Maze.

Não tendo tido conhecimento do seu estado serológico, Eric Wright soube da sua infecção com o vírus a mês da sua morte. Menos de um ano depois, popularizou-se o uso da terapia antirretroviral tripla, que representou uma maior eficácia no combate ao vírus. E se ele tivesse tido acesso a terapêuticas modernas? Como continuaria a passar a sua mensagem?