Arménio Carlos lançou duras críticas ao Governo no discurso de despedida enquanto líder da CGTP, avisando para as consequências de apenas se dar preferência aos números das contas públicas: “Um governo que prioriza o saldo orçamental em detrimento da justiça social é a sementeira para a evolução do populismo e o ressurgimento da extrema-direita, que se alimenta destas contradições, que as usa como elemento de atração, que procura dividir e criar falsos antagonismos entre os explorados, para que prossiga a acumulação dos exploradores”.

“Um orçamento que prevê um excedente à custa dos trabalhadores e dos serviços públicos pode ser bom para o Eurogrupo, mas é mau porque não responde às necessidades das populações e ao desenvolvimento do país”, disse ainda Arménio Carlos, que será substituído nos próximos quatro anos por Isabel Camarinha, até aqui presidente do CESP (Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal).

Num discurso de cerca de 40 minutos, Arménio Carlos apontou “contradições sistemáticas” ao executivo de António Costa e lamentou o resultado final: “O OE recentemente aprovado, que não contempla aumentos dignos dos salários na administração pública, que não suporta evolução das carreiras, que perpetua a injustiça fiscal e limita a proteção social, que não dá para o investimento público que o país precisa, é um poço sem fundo de verbas para o setor financeiro, para os juros da dívida e um maná para as PPP”.

E ainda que admita “medidas positivas introduzidas na discussão na especialidade”, Arménio Carlos entende que o OE2020 “continua a não dar resposta aos problemas estruturais”.

Nos últimos quatro anos de Arménio Carlos na CGTP, que coincidiram com o Governo do PS no poder, o líder cessante da intersindical garante que “ao contrário do propalado”, a luta sindical intensificou-se “face à política laboral de direita do governo do PS e às posições retrógradas do grande patronato” e que, por isso, “aumentou o número de greves e paralisações, de concentrações e manifestações, de iniciativas setoriais e ações nos locais de trabalho dos setores público e privado”.

Arménio Carlos reivindica para a intersindical a recuperação de direitos que considera terem sido antes “roubados”: os feriados e as 35 horas na Administração Pública, a eliminação das sobretaxas sobre IRS, a travagem de privatizações de empresas públicas de transportes, mas também a redução do valor dos passes de transporte, a gratuidade dos manuais escolares,  a reintrodução de mais escalões no IRS e a atualização do mínimo de existência.

São muitos e em variados planos os avanços que conquistámos, só possíveis pela nossa ação, organização e luta”, disse o secretário-geral da CGTP, que considera já ter ficado demonstrado “que é possível condicionar e inverter o que concertam patrões e Governo”. Dá o “exemplo lapidar” da Taxa Social Única, “cuja descida para os patrões estava acordada, por contrapartida ao Salário Mínimo Nacional”.

Mas não é só a recuperação de direitos que a CGTP reivindica. Arménio Carlos diz que a alteração do panorama político em Portugal se deve à ação da intersindical. “Desenvolvemos uma luta que foi dura e prolongada mas que acabou por ser determinante para esvaziar a base eleitoral do Governo PSD/CDS, afastámos da governação e assim travar o processo de destruição de direitos e rendimentos”, defendeu Arménio Carlos.

“Uma luta que cresceu perante a cedência do Governo à política gasta de direita, de um PS que encontrou no PSD e no CDS os aliados para mudar para pior a legislação do trabalho e assim desequilibrar, ainda mais, as relações laborais para o lado dos que vivem à conta da nossa exploração”, disse o líder cessante da CGTP, que acusa o Governo de ter optado “por um acordo com as confederações patronais e a UGT para manter o país amarrado à política de baixos salários, com a caducidade das convenções coletivas e a negação do princípio do tratamento mais favorável a permanecerem”.

Arménio Carlos, que aproveitou o congresso para anunciar a entrada de 114.683 novos trabalhadores na CGTP desde o último congresso, há 4 anos — sem no entanto, dizer quantos saíram no mesmo período — garante que a CGTP prefere continuar sozinha do que mal acompanhada.

“Por mais que tentem vender ‘gato por lebre’ com este tipo de entendimento, a CGTP-IN reafirma que prefere estar sozinha na defesa dos direitos dos trabalhadores na Concertação, do que acompanhada a assinar acordos que fragilizam e reduzem os direitos dos trabalhadores”.