As cãibras nas pernas, que a importunam sobretudo à noite, impediram Natália Teixeira, 62 anos, de ver o presidente da Câmara de Lisboa a dar por concluída a reunião com a junta de freguesia, os residentes e comerciantes de Santa Maria Maior. A sala, no Palácio da Independência, já se revelava curta ainda a sessão não tinha começado. Centenas de munícipes estavam ali reunidos para debater o projeto ZER ABC (Zona de Emissões Reduzidas Avenida Baixa Chiado), que pretende afastar os carros do coração da cidade e tem sido alvo de críticas desde que foi apresentado. E é para “resolver os problemas” e, ao mesmo tempo, “clarificar as dúvidas” que Fernando Medina promoveu um ciclo de reuniões, aberto ao público, que começou às 18h00, no espaço da Junta de Freguesia da Misericórdia, e se prolongou pela noite dentro, já em Santa Maria Maior, de forma a dar voz aos que residem ou trabalham nesta freguesia que engloba Alfama, Baixa, Chiado, Castelo, e Mouraria. “Esta proposta não está encerrada. Preciso do contributo de todos os que queiram participar. Só em março é que o plano deverá ser aprovado e enviado para consulta pública”, frisou o presidente da Câmara, acrescentando que até lá, “ainda há tempo para afinar pormenores” e que esta “nova versão” da Baixa da cidade vai “melhorar” a qualidade de vida de quem aqui “mora e trabalha”, tal como já tinha adiantado em entrevista ao Observador.
O Observador esteve presente nas duas sessões de esclarecimento deste projeto esta quinta-feira, onde se prevê que a partir de Julho, o trânsito automóvel passe a ser exclusivo para residentes, portadores de dístico e veículos autorizados (comerciantes, táxis, motos e veículos elétricos) com matricula posterior a 2000, entre as 06.30 e as 00.00. A exceção são todos os carros de cidadãos com mobilidade reduzida, das forças de segurança, de proteção civil e serviços em missão de urgência.

Apesar das explicações do autarca, muitas vezes interrompidas por apupos ou impropérios, as dúvidas estão instaladas, em especial na sessão de esclarecimento que teve lugar no Palácio da Independência, onde a população não poupou o autarca nem o projeto. Foram várias as vezes que Medina pediu à sala que o deixasse responder, até ao fim, às questões que lhe eram colocadas. “Se eu estou a ouvir as vossas críticas e não vos interrompo, agradeço que também me deixem falar”, repetiu por diversas vezes.

Mas houve quem soubesse separar as imagens de photshop que constam no power point que serve de apoio ao debate, e com as quais é difícil de discordar porque “ninguém está contra a redução da poluição, isso é sempre positivo”, do receio de ver a zona histórica transformada num “estaleiro”.

É o caso de Ricardo Barradas, dono de duas lojas de roupa, na Praça da Figueira, “que já estão a sofrer com o afastamento dos clientes”, como revelou ao presidente da Câmara, numa das mais longas e aplaudidas intervenções da noite. “Quando olho para este projeto, não tenho dúvidas que na sua equipa, na Câmara, trabalham os melhores arquitetos e engenheiros. Mas tem lá algum comerciante?”, questionou o empresário, quando se referiu ao novo horário “irrealista” a ser imposto, a partir de Julho, às cargas e descargas (entre as 00h00 e as 06h00), arrancando gargalhadas a todos os presentes, inclusive à deputada do PSD, Filipa Roseta.

Muito crítica de Medina, Roseta frisou, em declarações ao Observador, que foi assistir ao debate na condição de “arquiteta e docente universitária” (rejeitando o rótulo de candidata à Câmara), mas não quis deixar  de sublinhar que este projeto serve apenas os “interesses eleitorais” de Fernando Medina, que “precisa de obra para inaugurar e não tem nada para mostrar”. Embora acredite que muitas das medidas “não devem passar do papel”, a deputada diz temer que as mudanças impostas pelo projeto naquela zona façam com que Lisboa corra “o risco real de se vir a transformar numa Veneza”, uma cidade pensada para “agradar” só aos turistas.

Dentro da sala, já com a voz rouca, e a tentar gerir os “ataques” que continuavam a chegar da plateia, Fernando Medina não ouvia as críticas que Filipa Roseta lhe dirigiu, mas não lhe faltariam argumentos para as tentar contrariar. “Se for para não fazer nada, o melhor é elegerem outro presidente”, atirou, denunciando alguma irritação. Cá fora, a frase foi mal recebida pelos vários munícipes que se mantinham ao frio, sem lugar para se sentar e à espera de uma oportunidade para intervir. E quando nunca mais chegava, alguns apupavam ou faziam uso da palavra sem pedir licença.

A missão do autarca nestes debates é espinhosa, porque a mudança “nunca é bem recebida”, admitiu Medina. Mas alguém tem de a fazer. “E eu não ficava bem com a minha consciência se não desse o primeiro passo”, acrescentou, a quem o acusa de “diabolizar a viatura própria”, por ser poluente, e não tomar medidas “drásticas” em relação ao aeroporto de Lisboa ou no novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa. “Limito-me a intervir nas áreas em que a responsabilidade é da Câmara de Lisboa. Não tutelo as outras”, disse em resposta a quem vinha para a reunião com números ou dados sobre a  poluição gerada pelos navios de cruzeiro em Lisboa.

Medina avisa que pode desistir dos convites: “Dez é melhor que zero”

Não são moradores ou comerciantes. Para o Turismo de Portugal são agentes de animação turística. Independentemente da categoria em que são colocados, cá fora são conhecidos como os Tuk Tuks. Nas reuniões, acusam Medina de “não os valorizar” por não terem acesso “às áreas condicionadas ao trânsito”. O autarca responde, confessando que é “cada vez mais difícil equilibrar o turismo na capital com a qualidade de vida”. A frase arranca, finalmente, aplausos dos moradores da zona do Chiado e da Baixa, os primeiros a asumirem-se “saturados” do crescimento do turismo nos últimos anos.
Com a garantia de “estar aberto a conversações”, Medina coloca um ponto final à reivindicação dos Tuk Tuks, que é semelhante à dos motoristas das plataformas digitais.

Mas nem sempre o espírito do Presidente da Câmara de Lisboa foi tão conciliatório. Uma das questões que mais dúvidas tem levantado por estes dias, tem a ver com a ideia de permitir aos moradores ter uma lista mensal de 10 convidados que podem ter acesso à ZER (familiares, amigos ou serviços de entregas). Perante as questões (e perante o espanto da sala), Medina admitiu desistir da ideia se as dúvidas sobre esta medida persistirem, ou se as críticas subirem de tom. “Dez é melhor do que zero”, avisa os críticos.
É nesta fase que o cansaço do autarca mais se faz sentir. Já passa da meia-noite, o ambiente mantém-se tenso, ao contrário da sessão na junta da Misericórdia, onde a presença das câmaras de televisão, naquele espaço mais acanhado, acabou por inibir ataques mais violentos ou respostas mais intempestivas.

Foi a essa sessão que Maria da Graça apareceu. Saiu de casa com algumas das melhores jóias que tem e um guarda chuva na mão. Queria falar ao autarca de Lisboa, mas não sobre o assunto que estava na agenda. Maria da Graça queria pedir a Medina que andasse mais vezes a pé para ver a falta que a polícia faz na zona onde mora há mais de 20 anos, junto ao Largo do Calhariz. “É uma desgraça. Ali vende-se e consome-se droga às claras. Todos os dias há roubos. Ontem, a farmácia foi assaltada à mão armada. Eu quase não vou à rua com medo”, conta. Mas na hora H, quando o debate se abriu ao público, ficou calada. Percebeu que não era de segurança que Fernando Medina ali tinha ido falar. Só perante a insistência dos presentes, que várias vezes tentaram desviar o tema da ZER para o da segurança, é que Medina admitiu sair do guião e reconhecer que a situação é “grave”: “O que se passa agora nada tem nada a ver com a questão recreativa dos estudantes, há 10 anos, no Adamastor. Propusemos que a Câmara financiasse o pagamento de câmaras de videovigilância e só falta o OK do Ministério da Administração Interna”.

O discurso do autarca tranquiliza-a. Pode estar para breve a saída de “clausura forçada”. E quando esse dia chegar, talvez até as obras do Largo do Calhariz, ou da Rua da Misericórdia, que vai deixar de ser só de “atravessamento” e contará com passeios mais largos e propícios ao lazer, já estejam concluídas, comenta a moradora, enquanto admira as fotografias do “antes” e do “depois” na apresentação de power point que acompanha estas reuniões. Sobre isso, Maria não tem dúvidas: “Quando as obras terminarem, vai ficar tudo bonito”, diz, enquanto caminha até casa, em passo rápido, “para não ser assaltada”.

A Mobilidade na Baixa Chiado (segundo o relatório técnico da Zona de Emissões Reduzidas Avenida-Baixa-Chiado):

A Baixa de Lisboa é a “mais bem servida de transportes públicos”, com mais de 80% da população da cidade a dispor de uma ligação direta da Carris ou do Metro. “Metade da população da Área Metropolitana de Lisboa encontra-se a 20 minutos a pé das estações de ferrovia pesada, ligeira e fluvial (cerca de 1,4 milhões de residentes)”

A Baixa é servida por mais de 670 ligações diárias de Metropolitano (linha verde e a azul, estações Terreiro do Paço, Baixa-Chiado, Restauradores, Martim Moniz, Rossio e Cais do Sodré), mais de 450 ligações em comboio a partir das estações de Cais do Sodré e Rossio e mais de 400 ligações fluviais.

A zona é atualmente servida por mais de um milhão de lugares/dia em transporte público, com destaque para a oferta de autocarro, com 3.663 circulações por dia, prevendo-se o reforço da oferta rodoviária a curto prazo. Nos períodos de ponta, a cada 10 segundos há uma nova circulação de transporte público”

A ZER abrange parte das freguesias de Santa Maria Maior, Misericórdia e Santo António, sendo delimitada a norte pela Calçada da Glória, Praça dos Restauradores e Praça do Martim Moniz, e a sul pelo eixo formado pelo Cais do Sodré, Rua Ribeira das Naus, Praça do Comércio e Rua da Alfândega.