Dois anos separam Kylian Mbappé e Jadon Sancho. Dois anos, um Canal da Mancha, seis títulos. Um, francês, já leva mais de 30 internacionalizações pela seleção e ganhou o Mundial, foi campeão em França por dois clubes diferentes e é o principal candidato à conquista da Bola de Ouro num cenário pós-Messi e Ronaldo. O outro, inglês, nunca representou a seleção principal numa fase final, nunca cumpriu qualquer minuto da Premier League e tem como únicos títulos no palmarés um Mundial Sub-17 e uma Supertaça alemã. Em comum têm em pouco: tirando o facto de serem dois dos nomes mais entusiasmantes da nova geração do futebol europeu. 

Esta terça-feira, em Dortmund, Mbappé e Sancho, PSG e Borussia, cruzavam-se na primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Mas entre os virtuosos que brilham tanto em França como na Alemanha, e entre nomes como Neymar, Di María, Thorgan Hazard e Hakimi que enriquecem os plantéis de Thomas Tuchel e Lucien Favre, surgia um destacado cabeça de cartaz para o encontro europeu. Erling Haaland, que apesar dos oito golos marcados na fase de grupos não conseguiu evitar a queda do Salzburgo para a Liga Europa, mudou-se para o Borussia ainda antes do final de 2019 e ganhou uma nova oportunidade na principal competição europeia.

Desde que chegou à Alemanha, o avançado norueguês de 1,94 metros já marcou nove golos em seis jogos e tem justificado cada um dos 20 milhões que o Borussia pagou ao Salzburgo no mercado de inverno. Esta terça-feira, procurava mostrar novamente que se sente como peixe na água na Liga dos Campeões, que apesar dos 19 anos não lhe tremem as pernas com a multidão da Yellow Wall e que, acima de tudo, não precisa de ser francês ou inglês para também ser um dos nomes fortes do futuro do futebol. E a prova disso é que fazia história ainda antes de entrar em campo: titular, Haaland tornava-se desde logo o primeiro jogador da história da Liga dos Campeões a representar dois clubes diferentes na mesma temporada, beneficiando da alteração da regra que entrou em vigor este ano.

Numa primeira parte que terminou sem golos, Neymar foi o primeiro a ficar perto de abrir o marcador, com um livre direto que passou muito perto da baliza alemã (10′). A oportunidade do brasileiro foi mesmo a melhor do PSG até ao intervalo, já que acabou por ser o Borussia a criar as melhores ocasiões do primeiro tempo, tanto por intermédio de Haaland, que rematou à malha lateral, como de Sancho, que permitiu a defesa a Keylor Navas. No regresso ao Westfalenstadion onde esteve de 2015 a 2017, Thomas Tuchel ia tendo muitas dificuldades para quebrar a organização defensiva dos alemães e tirar o melhor dos três virtuosos da frente de ataque do PSG.

Mbappé desenhou uma jogada impressionante para depois assistir Neymar para o golo do PSG

Já na segunda parte, o Borussia continuava por cima do jogo mas o PSG assustava a espaços com investidas individuais, principalmente por intermédio de Mbappé ou Neymar, que apostavam nas alas para colocar alguma velocidade nas transições francesas. Quando já faltavam apenas 20 minutos para o apito final, e numa altura em que tanto Tuchel como Favre já equacionavam tornar prioridade não sofrer golos mais do que propriamente marcá-los, Haaland mostrou porque é que é bem mais do que um avançado alto. Com um sentido de oportunidade acima da média, o norueguês aproveitou um ressalto depois de um remate de Raphael Guerreiro para bater Navas e inaugurar o marcador (69′). Com a Yellow Wall ainda a explodir de alegria, Mbappé mostrou que a qualidade individual é mesmo o principal atributo do PSG e resolveu quase sozinho o lance da igualdade.

O jovem francês pegou na bola a meio do meio-campo adversário, deixou três jogadores do Borussia para trás e assistiu Neymar, que só precisou de encostar para a baliza totalmente deserta (75′). O banho de humildade e realismo inundou o estádio alemão: mas só por dois minutos. Num contra-ataque rápido, Haaland recebeu de Reyna e com toda a naturalidade, com toda a atípica experiência de quem nasceu em 2000, atirou um remate perfeito de fora de área que não deu qualquer hipótese a Navas (77′). Com dois golos do mais do que influente reforço de inverno, o Borussia Dortmund derrotou um PSG sofrível e vai com vantagem para a segunda mão dos oitavos de final, ainda que o golo de Neymar deixe a porta aberta ao resultado da eliminatória.

Com 1,94 metros, com 19 anos, com uma cláusula de rescisão que não foi além dos 20 milhões, Erling Haaland provou mais uma vez que é o novo dono da Liga dos Campeões. O avançado leva agora 10 golos marcados (tantos quanto Lewandowski) em sete jogos na principal competição europeia e voltou a mostrar que nunca foi bluff nem um exagero criado pela comunicação social. Para fazer golo, Haaland só precisa de meia oportunidade: e foi o Borussia Dortmund quem ganhou a corrida por um dos próximos nomes grandes do futebol europeu.