Pelo menos 25 depoimentos de arguidos e testemunhas do caso da invasão à academia do Sporting, em Alcochete, gravados durante o julgamento, no Tribunal de Monsanto, foram divulgados no Youtube. São vários os vídeos que contêm o áudio recolhido pelo tribunal e que revelam todas as respostas dadas ao coletivo de juízes, à procuradora do Ministério Público e aos advogados de defesa.

Em resposta ao Observador, o coletivo de juízes presidido por Sílvia Pires afirma que vai apresentar queixa ao Ministério Público. “Não foi dada autorização para divulgação pública das gravações dos depoimentos, e na sequência da sua informação será extraída certidão e enviada aos Serviços do Ministério Público para eventual instauração de procedimento criminal”, respondeu o tribunal por intermédio da escrivã auxiliar do processo.

Uma outra fonte judicial disse ao Observador que, além do tribunal, a maior parte dos advogados tem na sua posse uma cópia das gravações feitas durante o julgamento, para a defesa dos seus clientes. Apesar de se desconhecer como foram estes registos de som parar à internet, poderá estar-se perante um crime de desobediência. Isto porque, apesar de as audiências serem públicas, é vedada a recolha de imagens e sons durante as sessões de julgamento, assim como a sua reprodução.

O canal do Youtube onde foram divulgadas as gravações do julgamento — que continua, esta sexta-feira, com as declarações do arguido e ex-presidente do Sporting Bruno de Carvalho — foi criado há já cerca de um ano com o nome “Diário do Fisgas”, e já tinha antes alguns vídeos, em formato noticiário, mas não relacionados com o caso. A primeira publicação com um testemunho do processo foi feita há dois meses: o de Vasco Santos, chefe da segurança do Sporting à altura da invasão da Academia, que prestou declarações no Tribunal de Monsanto como testemunha a 17 de dezembro. Disse que chegou a receber um telefonema de um spotter da PSP para saber se tinha informação de alguma visita à Academia, mas que desconhecia. Quando foi o ataque, estava numa reunião com a polícia por causa de outro assunto.

Só um mês depois, já em fevereiro, as publicações começaram a intensificar-se com os áudios de vários arguidos que decidiram, agora, prestar declarações, já depois de produzida a prova em tribunal — ou seja, ouvidas todas as testemunhas do Ministério Público. O último dos arguidos a falar foi Nuno Mendes, mais conhecido por Mustafá, que é o líder da claque Juve Leo. “Musta” recusa ser um dos autores morais do crime, como é acusado pelo Ministério Público, e garante desconhecer o que foi combinado antes do ataque — mesmo que o seu número apareça no grupo das mensagens trocadas via WhatsApp. O arguido, que ainda se encontra preso preventivamente e é também acusado de tráfico de droga, garantiu também não conhecer metade dos arguidos que estão com ele no processo.

Além de alguns arguidos que já falaram, no mesmo canal de Youtube há também os depoimentos de alguns jogadores que foram vítimas do ataque, como é o caso de William, Rui Patrício ou mesmo Bas Dost, que foi atingido com a fivela de um cinto na cabeça e que recordou como tentou escapar da agressão. Neste caso, o jogador precisou de uma intérprete para a inquirição. “Sou da Holanda e na Holanda resolvemos os problemas a conversar. Nesse momento achei que devia assumir a responsabilidade como líder da equipa. Tínhamos perdido o jogo com o Marítimo e depois não conseguimos com isso o apuramento para a Liga dos Campeões, que era o objetivo da época. Pensei: ‘Eles estão zangados, vamos falar sobre o assunto’”, destacou Bas Dost, durante as declarações que prestou, nas quais assumiu ter sido “uma situação muito stressante”. “Fizeram um bom trabalho a suturar a ferida. Não me lembro quantos pontos foram mas ainda tenho a cicatriz”, disse, ouvido por videoconferência, na audiência de 12 de fevereiro.

Também as perguntas feitas a Frederico Varandas, o atual presidente do Sporting, que, à data da invasão, era o médico da equipa e que estava na Academia naquele dia, estão no canal do Youtube. Varandas  falou “numa tensão fora do normal entre jogadores e adeptos” e lançou algumas farpas a Bruno de Carvalho, referindo que, apesar disso, cabe ao Presidente tentar apaziguar a situação e não por mais lenha na fogueira.

Alguns vídeos com os áudios do julgamento já tiveram centenas de visualizações. O do jogador William Carvalho, por exemplo, é dos que conta com mais de 4 mil. William prestou depoimento na 24.ª sessão do julgamento e revelou algumas faltas de memória.